quarta-feira, novembro 19, 2025

O Romance de Amadis

O Romance de Amadis, publicado em1922 por Afonso Lopes Vieira (1878-1946), é uma daquelas obras em que o autor português decide brincar dentro de um castelo literário já existente, o lendário ciclo de Amadis de Gaula, que tem origem no século XIV na península ibérica. Ele reorganiza, reconta e reinterpreta esse imaginário cavaleiresco medieval com uma sensibilidade moderna.

A leitura deixa claro que Vieira não está preocupado em fazer arqueologia fiel do texto medieval. Ele assume a liberdade de poeta: estiliza, condensa e escolhe ênfases que dialogam muito mais com a sensibilidade do início do século XX do que com o medievalismo literal. O livro funciona quase como uma transfiguração lírica do mito de Amadis, trazendo para o primeiro plano aquilo que o autor julga essencial: a força do amor, a pureza do ideal heroico e a aura lendária que envolve o cavaleiro perfeito.

O efeito disso é curioso. Em vez de mergulharmos numa narrativa épica cheia de eventos, somos conduzidos por um clima emocional. Para leitores que buscam ação contínua, o livro pode soar distante, quase contemplativo demais. Para quem aprecia reelaborações poéticas e o jogo de recriar tradições, a obra ganha um brilho especial.

Escolhi essa leitura para preparar-me para adentrar em um dos maiores clássicos da literatura mundial que é Dom Quixote. O romance de Cervantes nasce justamente da colisão entre o ideal cavaleiresco empoeirado e a realidade corriqueira. Vieira, ao contrário de Cervantes, “leva a sério” o mito. Essa leitura combinada criará um contraste interessante: primeiro verei o mito enfeitado; depois verei Cervantes desmontar o mecanismo.

Nenhum comentário: