Depois de 41 dias, finalizo meu 53º livro do ano!
Ler Dom Quixote foi uma experiência curiosa: comecei achando que estava diante de uma paródia dos romances de cavalaria e terminei com a sensação de ter acompanhado um tratado melancólico sobre a condição humana, disfarçado de comédia. Miguel de Cervantes (1547-1616) ri, mas é um riso que, aos poucos, aprende a doer.
No Livro I (1605), o romance é uma sátira direta. Dom Quixote é um homem que enlouqueceu de tanto ler, e sua loucura tem uma forma precisa: ele tenta impor à realidade um código moral e narrativo que já não funciona. O mundo reage com escárnio, violência e pragmatismo brutal. Aqui, Cervantes desmonta os romances de cavalaria expondo seu artificialismo: gigantes são moinhos, castelos são vendas, princesas são camponesas. Sancho Pança, ainda rústico e interesseiro, funciona como contrapeso: o senso comum tentando sobreviver à fantasia.
Dom Quixote não é apenas ridículo; ele é eticamente superior ao mundo que o cerca. Sua loucura tem método: honra, justiça, proteção dos fracos. O problema não é o ideal, mas o descompasso histórico.
No Livro II (1615), o jogo se torna mais sofisticado e mais cruel. Os personagens já leram o Livro I. Dom Quixote virou personagem famoso dentro do próprio romance. A loucura deixa de ser espontânea e passa a ser encenada pelos outros. Duques, cortesãos e leitores dentro da narrativa manipulam Dom Quixote para rir dele. O cavaleiro já não cai em enganos por ingenuidade: ele é colocado em armadilhas conscientes.
Sancho Pança, por sua vez, cresce enormemente. Sua passagem pelo governo da “ilha” é um dos momentos mais interessantes do romance: o analfabeto governa com prudência, senso de justiça e equilíbrio moral. Sancho aprende; Dom Quixote, não.
Ao final a recuperação da lucidez de Dom Quixote não é uma vitória da razão, mas uma derrota da imaginação. Ao abandonar seus livros e morrer como Alonso Quijano, ele vence a loucura, mas perde o sentido.
No fim, Cervantes não zomba de Dom Quixote. Ele o lamenta. E, discretamente, nos pergunta se não somos todos um pouco quixotescos: leitores tentando impor sentido a um mundo que insiste em ser sem graça, quando tudo o que queremos é que ele seja épico, ao menos por um instante.
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