quinta-feira, janeiro 01, 2026

Cervejas: Uma Nova Descoberta


Desde 2010, este blog funciona como uma espécie de diário líquido: um espaço onde registro minha relação com algumas bebidas, sobretudo o café. Uma relação, diga-se, nada simples.

Já escrevi aqui, mais de uma vez, sobre minha convivência conturbada com o café. Passei por diferentes métodos, máquinas e tentativas de sofisticação, mas, como acontece com tantas coisas da infância, sempre acabei retornando ao ponto de partida: café de pó simples, adoçado — antes com açúcar, hoje mais frequentemente com adoçante. Atualmente, confesso sem pudor, a forma que mais consumo café é a instantânea, misturada com leite. Os puristas que me perdoem (ou não).

Em março de 2021, este blog registrou outra virada: a descoberta do universo dos drinks. Tudo começou com a retomada do consumo de whisky e, a partir dali, passei a experimentar coquetéis variados, seja preparando em casa, seja degustando em restaurantes. Vieram novas garrafas, acessórios e até um aplicativo dedicado ao preparo de drinks.

Curiosamente, naquele mesmo texto de 2021, deixei registrado algo que hoje soa quase como uma profecia invertida: “Já tentei por diversas vezes gostar de cerveja, mas essa bebida realmente não é pra mim. Nunca gostei de tomar nenhuma cerveja ou chopp!”.

Corta para 2025, e uma nova relação com as bebidas se abriu diante de mim — de um jeito totalmente inesperado.

O ponto de partida foi prosaico: a compra de uma cervejeira, em outubro de 2024. A ideia era simples e funcional: utilizá-la em dias de festa, evitando a eterna disputa por espaço na geladeira e no freezer, soluções pouco eficientes para manter bebidas na temperatura ideal. Para não deixá-la vazia, abasteci com refrigerantes para consumo cotidiano e cervejas pensadas, inicialmente, apenas para as visitas.

Com o tempo, acabei tomando uma cerveja ou outra, mas ainda sem grande entusiasmo. Mantinha-me fiel ao refrigerante. Nessa fase, passaram pela cervejeira rótulos como Amstel e algumas da Eisenbahn, mais por conveniência do que por interesse genuíno.

Tudo mudou em 19 de junho de 2025. Nesse dia, aproveitando uma promoção de supermercado, comprei uma cerveja completamente diferente de tudo o que já havia experimentado: a Hoegaarden Wit/Blanche, uma cerveja belga de trigo. Ao provar, percebi algo novo — um sabor distante das tradicionais cervejas brasileiras, leve, aromático e surpreendentemente agradável ao meu paladar.

Pouco mais de um mês depois, em 26 de julho, durante um jantar no restaurante Dona Lenha, deparei-me com uma carta de cervejas artesanais. Pela primeira vez, troquei o drink habitual por uma cerveja: a Poderator Doppelbock, da Cervejaria Quatro Poderes, de Brasília. O impacto foi imediato. Havia ali sabores que eu jamais imaginei encontrar em uma cerveja.

Intrigado por essa diversidade recém-descoberta, comecei a procurar algo semelhante no mercado. Foi assim que encontrei a Wienbier 53 Stout, degustada no dia 3 de agosto. Mais uma surpresa positiva — talvez ainda melhor que a Doppelbock — o que me levou a compartilhar essas experiências com meu irmão e alguns amigos.

Em meio a essas conversas, surgiu o nome quase mítico da Guinness, apresentada como a “cerveja preta” mais tradicional. A marca já me era familiar de nome, mas a realidade foi menos romântica: a importação estava prejudicada e não encontrei nenhuma lata em Brasília. Restava a Amazon, onde o preço girava em torno de R$ 33,00 a lata de 440 ml. Desanimei e segui explorando outras cervejas escuras.

Foi nesse contexto que reencontrei a Caracu, conhecida de nome, mas até então nunca explorada por mim. Comprei uma no dia 17 de agosto e gostei tanto que logo adquiri dois fardos para manter na cervejeira. A dificuldade em encontrá-la — disponível em apenas um atacadão entre vários visitados — só aumentou seu valor simbólico. Em poucos dias, tornou-se minha cerveja favorita, relegando as claras ao segundo plano.

Seguindo na trilha das Stouts — estilo que descobri ser aquele que mais dialogava com meu paladar — fui, em 26 de agosto, ao pub Santuário, na 214 Norte. Lá provei a Stout da casa, da cervejaria Dona Maria, também de Brasília. Achei simplesmente excelente, superando inclusive a Caracu.

No dia seguinte, decidi que precisava experimentar a Guinness, custasse o que custasse. O acaso ajudou: a lata entrou em promoção na Amazon por R$ 29,90. Comprei três.

No dia 29 de agosto, provei pela primeira vez a Guinness Draught. Foi amor à primeira golada. O encaixe entre sabor, textura e aroma foi tão perfeito que não me lembro de ter sentido prazer semelhante com nenhuma outra bebida — alcoólica ou não. Fiquei genuinamente estupefato. A partir desse momento, mergulhei de vez no universo cervejeiro.

Outra grande surpresa aconteceu em São Paulo, durante uma viagem a trabalho. No dia 8 de outubro, experimentei o Chopp Black da Brahma e fui pego de surpresa ao perceber que ele conseguiu igualar o prazer que tive com a Guinness, ainda que partindo de uma proposta ligeiramente diferente — quase como parentes próximos que seguiram caminhos distintos.

Enquanto a Guinness é uma Dry Stout e o Chopp Black da Brahma se enquadra como uma Dark Lager, ambas compartilham características importantes: são cervejas escuras e utilizam nitrogênio na carbonatação, o que confere aquela textura macia e cremosa tão marcante. O sabor, naturalmente, não é idêntico, mas dialoga de forma evidente. O resultado foi imediato: o Chopp Black passou a figurar entre as minhas cervejas favoritas, lado a lado com a Guinness, com a vantagem de ser, ao menos em teoria, um pouco mais fácil de encontrar. Digo “em teoria” porque, na prática, ele está disponível em poucos estabelecimentos e nem sempre consta no cardápio, mesmo em bares tecnicamente preparados para servi-lo.

Além disso, passei a ler sobre estilos, processos e histórias; seguir sommeliers e influenciadores; ouvir podcasts e experimentar novos rótulos. Descobri também o Untappd, uma rede social dedicada a registrar cervejas degustadas e gerar estatísticas — algo que conversa diretamente com meu gosto por números e dados. Como meu cadastro foi feito apenas em 18 de dezembro, precisei reconstruir retroativamente boa parte do consumo do ano. As estatísticas de 2025, portanto, não são perfeitamente fidedignas, mas oferecem um retrato bastante honesto desse período de descoberta.







Olhar para trás e reler essa trajetória é perceber como gostos não são estáticos, mas processos vivos, moldados pelo tempo, pelas circunstâncias e, às vezes, pelo acaso mais banal — como uma promoção de supermercado ou a compra despretensiosa de uma cervejeira.

Em 2025, mais do que aprender a gostar de cerveja, aprendi a prestar atenção nas nuances, nos estilos e nas histórias que cabem dentro de um copo. Este texto não é apenas sobre bebidas; é sobre mudança, curiosidade e a alegria silenciosa de descobrir que ainda há sabores capazes de nos surpreender, mesmo quando achamos que já nos conhecemos bem.

Livros Lidos em 2025


Finalizo 2025 no auge do meu retorno ao hábito da leitura. Este foi o quarto ano consecutivo em que consegui manter uma rotina consistente, algo que, alguns anos atrás, parecia improvável. Ler voltou a ser um eixo estruturante do meu cotidiano — não apenas um passatempo eventual.

Até então, 2022 havia sido o meu melhor ano como leitor. Naquele período, li 63 livros e 5 contos curtos, com uma média de 34 páginas por dia, totalizando 12.484 páginas. Foi um marco importante, tanto em volume quanto em disciplina.

Em 2025, embora eu tenha lido menos livros (54 no total), o avanço foi significativo em profundidade. A média diária saltou para 45 páginas, resultando em 16.557 páginas lidas ao longo do ano.

O dado mais revelador está no tamanho das obras: se em 2022 cada livro tinha, em média, 184 páginas, em 2025 essa média subiu para 307 páginas por livro. Li menos títulos, mas enfrentei livros mais longos, densos e exigentes.

Os números dos últimos quatro anos ajudam a visualizar melhor esse percurso:


Em comparação com 2024, 2025 foi um ano de muito mais constância. O primeiro semestre concentrou cerca de 62% das páginas lidas, com uma média impressionante de 56 páginas por dia. No segundo semestre, houve desaceleração: a média caiu para 34 páginas diárias.


Esse cansaço ficou especialmente evidente a partir de setembro, culminando em um dezembro em que consegui concluir apenas um livro que foi Dom Quixote. Não por acaso, foi uma leitura longa, exigente e feita em ritmo bem mais lento.

Uma das metas que estabeleci para 2025 foi simples na formulação e difícil na execução: ler todos os dias. Em 2024, eu havia passado 138 dias sem ler uma única página, um verdadeiro “deserto literário”. Em 2025, consegui cumprir essa meta com sucesso. Houve apenas 15 dias em que li 10 páginas ou menos — mas nenhum dia completamente em branco.

Esse compromisso diário fez toda a diferença. A regularidade, mais do que picos de empolgação, foi o motor do ano.

Os gráficos ajudam a contar essa história visualmente. Até março, mantive um desempenho semelhante ao de 2022. A partir daí, acelerei o ritmo de forma consistente e, em 27 de agosto, já havia alcançado o mesmo total de páginas lidas naquele que ainda era o meu melhor ano.


Portanto, o segundo trimestre foi decisivo para que eu alcançasse esse desempenho. Já a partir de outubro, a curva mostra claramente a desaceleração.


Entre os livros mais extensos que li em 2025, alguns se destacam não apenas pelo tamanho, mas pelo ritmo e pela experiência de leitura:

  • Os Irmãos Karamázov — 861 páginas, lidas em 15 dias (média de 57 páginas/dia)

  • Dom Quixote — 850 páginas, lidas em 41 dias (média de 21 páginas/dia)

  • Os Sertões — 642 páginas, lidas em 12 dias (média de 54 páginas/dia)

  • As Cartas de J.R.R.Tolkien — 620 páginas, lidas em 10 dias (média de 62 páginas/dia)

  • Odisseia — 606 páginas, lidas em 10 dias (média de 61 páginas/dia)

Olhando para trás, 2025 não foi apenas um ano de bons números. Foi um ano de maturidade como leitor: mais disciplina, escolhas mais ambiciosas e uma relação mais consciente com o tempo dedicado à leitura. Menos ansiedade por metas artificiais e mais atenção ao processo.

Se 2022 foi o ano do entusiasmo recuperado, 2025 foi o ano da consolidação.

quarta-feira, dezembro 31, 2025

O Assunto do Céu


Para finalizar o ano, termino meu 54º livro. Este que me acompanhou desde o 1º dia de 2025.

O Assunto do Céu reúne ensaios e reflexões para serem lidos um por dia em que C.S.Lewis (1898-1963) enfrenta um problema recorrente da modernidade: a redução do real ao que pode ser medido. Para ele, o erro não está na ciência (que ele respeita profundamente), mas na pretensão de que o método científico esgote tudo o que existe. Lewis chama atenção para algo simples e incômodo: conhecer as causas físicas de um fenômeno não equivale a compreender seu significado. Explicar como o cérebro funciona não explica por que buscamos a verdade; descrever reações químicas não esgota o que é amar, sofrer ou esperar.

O grande mérito do livro está no estilo argumentativo. Lewis não grita, não caricatura o adversário e não se apoia em jargões teológicos. Ele raciocina como um professor paciente que conduz o leitor por analogias, paradoxos e exemplos cotidianos. Sua crítica ao materialismo é mais filosófica do que religiosa: se tudo o que pensamos é apenas produto de causas irracionais (choques químicos, impulsos evolutivos), então a própria ideia de verdade se dissolve. O pensamento deixa de ser confiável no exato momento em que tentamos usá-lo para negar qualquer transcendência.

Ao mesmo tempo, Lewis não oferece consolo fácil. O “céu” que ele descreve não é uma projeção sentimental nem uma recompensa simplista. Pelo contrário: ele insiste que o desejo humano pelo infinito é, em si, um sinal de que não fomos feitos apenas para este mundo. Aqui aparece um dos temas mais fortes do livro: a ideia de que nossos anseios mais profundos não são ilusões, mas indícios. Assim como a fome aponta para a existência de comida, o desejo de algo absoluto aponta para uma realidade que não cabe inteiramente na experiência terrena.

Ele não resolve o mistério do sentido da vida, mas recusa a ideia de que o mistério seja um defeito a ser eliminado. Lewis sugere algo mais ousado: talvez o mistério seja o traço mais fiel da realidade.

segunda-feira, dezembro 29, 2025

Dom Quixote


Depois de 41 dias, finalizo meu 53º livro do ano!

Ler Dom Quixote foi uma experiência curiosa: comecei achando que estava diante de uma paródia dos romances de cavalaria e terminei com a sensação de ter acompanhado um tratado melancólico sobre a condição humana, disfarçado de comédia. Miguel de Cervantes (1547-1616) ri, mas é um riso que, aos poucos, aprende a doer.

No Livro I (1605), o romance é uma sátira direta. Dom Quixote é um homem que enlouqueceu de tanto ler, e sua loucura tem uma forma precisa: ele tenta impor à realidade um código moral e narrativo que já não funciona. O mundo reage com escárnio, violência e pragmatismo brutal. Aqui, Cervantes desmonta os romances de cavalaria expondo seu artificialismo: gigantes são moinhos, castelos são vendas, princesas são camponesas. Sancho Pança, ainda rústico e interesseiro, funciona como contrapeso: o senso comum tentando sobreviver à fantasia.

Dom Quixote não é apenas ridículo; ele é eticamente superior ao mundo que o cerca. Sua loucura tem método: honra, justiça, proteção dos fracos. O problema não é o ideal, mas o descompasso histórico.

No Livro II (1615), o jogo se torna mais sofisticado e mais cruel. Os personagens já leram o Livro I. Dom Quixote virou personagem famoso dentro do próprio romance. A loucura deixa de ser espontânea e passa a ser encenada pelos outros. Duques, cortesãos e leitores dentro da narrativa manipulam Dom Quixote para rir dele. O cavaleiro já não cai em enganos por ingenuidade: ele é colocado em armadilhas conscientes.

Sancho Pança, por sua vez, cresce enormemente. Sua passagem pelo governo da “ilha” é um dos momentos mais interessantes do romance: o analfabeto governa com prudência, senso de justiça e equilíbrio moral. Sancho aprende; Dom Quixote, não.

Ao final a recuperação da lucidez de Dom Quixote não é uma vitória da razão, mas uma derrota da imaginação. Ao abandonar seus livros e morrer como Alonso Quijano, ele vence a loucura, mas perde o sentido.

No fim, Cervantes não zomba de Dom Quixote. Ele o lamenta. E, discretamente, nos pergunta se não somos todos um pouco quixotescos: leitores tentando impor sentido a um mundo que insiste em ser sem graça, quando tudo o que queremos é que ele seja épico, ao menos por um instante.

quarta-feira, novembro 19, 2025

O Romance de Amadis

O Romance de Amadis, publicado em1922 por Afonso Lopes Vieira (1878-1946), é uma daquelas obras em que o autor português decide brincar dentro de um castelo literário já existente, o lendário ciclo de Amadis de Gaula, que tem origem no século XIV na península ibérica. Ele reorganiza, reconta e reinterpreta esse imaginário cavaleiresco medieval com uma sensibilidade moderna.

A leitura deixa claro que Vieira não está preocupado em fazer arqueologia fiel do texto medieval. Ele assume a liberdade de poeta: estiliza, condensa e escolhe ênfases que dialogam muito mais com a sensibilidade do início do século XX do que com o medievalismo literal. O livro funciona quase como uma transfiguração lírica do mito de Amadis, trazendo para o primeiro plano aquilo que o autor julga essencial: a força do amor, a pureza do ideal heroico e a aura lendária que envolve o cavaleiro perfeito.

O efeito disso é curioso. Em vez de mergulharmos numa narrativa épica cheia de eventos, somos conduzidos por um clima emocional. Para leitores que buscam ação contínua, o livro pode soar distante, quase contemplativo demais. Para quem aprecia reelaborações poéticas e o jogo de recriar tradições, a obra ganha um brilho especial.

Escolhi essa leitura para preparar-me para adentrar em um dos maiores clássicos da literatura mundial que é Dom Quixote. O romance de Cervantes nasce justamente da colisão entre o ideal cavaleiresco empoeirado e a realidade corriqueira. Vieira, ao contrário de Cervantes, “leva a sério” o mito. Essa leitura combinada criará um contraste interessante: primeiro verei o mito enfeitado; depois verei Cervantes desmontar o mecanismo.

domingo, novembro 16, 2025

Capitães da Areia

Dessa vez quis relembrar se a memória afetiva que eu tinha na adolescência desse clássico brasileiro se manteria agora adulto.

Posso dizer que 30 anos depois de ter lido Capitães da Areia pela 1ª vez o encanto que essa obra traz permanece o mesmo! Jorge Amado (1912-2001) lança sobre seus moleques de rua um olhar que mistura ternura, fúria e um senso de absurdo diante de um mundo que fabrica seus próprios “inimigos”.

O romance funciona como um grande estudo de laboratório social, só que o laboratório é a própria cidade de Salvador, e os ratos de experimento são crianças vivas, vibrantes, muitas vezes ferozes, moldadas por um ambiente que lhes oferece pouco além de fome, violência policial e abandono. Amado não está interessado em fazer panfleto barato; ele faz algo mais complexo: expõe a estrutura que produz a marginalidade e, ao mesmo tempo, dá rosto, nome e poesia a quem costuma ser reduzido a estatística.

A narrativa acompanha Pedro Bala, Professor, Dora, João Grande e o bando que vive no trapiche, e a força do livro está no contraste entre a vida crua que eles levam (pequenos furtos, correrias, romances precários e amizades frágeis) e a profundidade existencial com que Amado os trata.

Cada personagem é quase um arquétipo móvel: Dora encarna o afeto impossível, Professor representa a imaginação que resiste ao real, Pedro Bala é a força política embrionária que um sistema injusto costuma ignorar até que tarde demais. A prosa de Amado, exuberante e cheia de movimentos, injeta dignidade literária naquilo que muita gente preferiria varrer para debaixo do tapete.

O romance não nos entrega uma solução, nem pretende. Prefere mostrar a metamorfose inevitável: do menino abandonado nasce o futuro líder sindical; do sonho nasce a tragédia; do afeto nasce uma cicatriz. Esse ciclo é o verdadeiro protagonista da obra. Quem lê sai com a incômoda impressão de que a sociedade brasileira continua, de certa forma, repetindo o experimento.

quinta-feira, novembro 13, 2025

Lana: 14 anos de companhia, alegria e histórias que ficam

Foram 14 anos e 2 meses de convivência conosco. Sabíamos que esse dia chegaria, mas nada nos prepara de verdade: hoje, a nossa Lana se foi.

Ela entrou em nossas vidas com 69 dias de idade, no dia 18/09/2011. Viveu momentos inteiros conosco, especialmente com minha esposa, que cuidou dela praticamente sozinha por quase dois anos, antes mesmo de nos casarmos.

A Lana colecionou histórias. Foi roubada e recuperada. Quase morreu por uma superdosagem de medicamento. Teve o episódio surreal de cruzar com um cachorro que estava preso na coleira. Morou na obra da nossa casa. Fugiu pelo condomínio. E, acima de tudo, fez aquilo que mais amava nesta vida: pedir comida e dormir.


Nos últimos anos, ela já dava sinais da idade: catarata em um dos olhos, o início da coprofagia — que, felizmente, só apareceu na velhice — e uma falta de ar persistente nos últimos meses. Mesmo assim, era a mesma presença doce, inquieta e barulhenta de sempre.

Hoje, ela faleceu no momento em que cheguei do trabalho, por volta das 19h. Entrei com as compras, chamei minha esposa para ajudar e, como de costume, os cachorros começaram aquela festa de latidos. Foram me recepcionar na porta do corredor, como faziam todos os dias. Nesse instante, a emoção foi demais para ela, e a Lana teve um ataque cardíaco. Ainda estava quente e molinha quando a peguei no colo. Tirei sua última foto já sem vida, para guardar o registro da despedida.

Sempre disse aos amigos que perderam seus cães e prometeram nunca mais ter outro por medo da dor: Toda a alegria desses 14 anos supera em muito a tristeza deste momento. Não há arrependimento algum. Ter a Lana conosco por tanto tempo foi um privilégio que guardaremos para sempre.

Este texto é uma forma de preservar o que a Lana significou para nós. Ela fez parte da formação da nossa família, acompanhou mudanças, obras, rotinas, alegrias e tropeços. Deixou silêncio pela casa, mas deixou também uma coleção enorme de lembranças boas — e é nelas que escolhemos ficar.

domingo, novembro 09, 2025

O Senhor do Mundo


E vamos para o 50⁰ livro lido do ano!

Robert Hugh Benson (1871-1914), ex-sacerdote anglicano convertido ao catolicismo, publicou em 1907 O Senhor do Mundo em um contexto de transformações radicais: o avanço da ciência, o secularismo crescente e o enfraquecimento da fé no Ocidente. A partir disso, ele constrói uma distopia espiritual em que o progresso tecnológico e o humanitarismo político substituem Deus e o resultado é um mundo aparentemente pacífico, mas espiritualmente desolado.

A trama se passa em um futuro onde o catolicismo foi quase erradicado, as religiões tradicionais foram dissolvidas em uma espécie de espiritualismo universal e o Estado mundial, liderado pelo carismático Julian Felsenburgh, governa com base em um culto à paz e à unidade. Felsenburgh é apresentado como um “messias humanista”, aclamado por unir os povos, mas cuja autoridade esconde uma tirania totalitária e anticristã. No polo oposto está o padre Percy Franklin, figura que encarna a resistência espiritual da Igreja diante da apostasia global.

Benson critica a tendência moderna de substituir a transcendência por uma fé no progresso humano. O “humanitarismo” que domina o mundo do romance é, no fundo, uma nova religião política — sem Deus, mas com liturgia, culto e dogmas. O catolicismo, aqui reduzido a um pequeno rebanho subterrâneo, é a última voz que ainda reconhece a existência do mal.

O Senhor do Mundo impressiona pela visão profética. Ao prever um mundo globalizado, governado por um consenso moral relativista e sustentado por uma fé na ciência e na paz universal, Benson antecipou dilemas éticos e espirituais ainda muito atuais. O autor enxerga com clareza o perigo de um mundo que rejeita o transcendente e acerta ao intuir que a negação de Deus não leva à liberdade, mas a novas formas de idolatria.

Mais do que um romance, O Senhor do Mundo é um alerta. Escrito no início do século XX, ele antecipa de modo surpreendente a uniformização cultural, o culto à ciência e a substituição da fé por ideologias políticas. Ao final, Benson deixa claro que o verdadeiro conflito do futuro não será entre nações, mas entre visões de homem: o homem que se faz deus e o homem que se ajoelha diante de Deus.

terça-feira, outubro 28, 2025

A Hora da Estrela


Clarice Lispector (1920-1977) menos de dois meses antes de sua morte, publica em 26/10/1977, A Hora da Estrela uma das obras mais emblemáticas que já li até hoje! O livro combina uma simplicidade narrativa com uma profundidade filosófica para retratar o drama existencial de Macabéa, uma jovem nordestina perdida na miséria e na invisibilidade social do Rio de Janeiro.

A narrativa é conduzida por Rodrigo S. M., um narrador-escritor que se coloca como intermediário entre Clarice e a personagem. Ele tenta “dar voz” a Macabéa, mas ao mesmo tempo revela sua própria angústia e impotência diante da tarefa de representar alguém tão insignificante aos olhos da sociedade.

Macabéa é uma datilógrafa pobre, órfã, sem beleza, sem instrução e sem consciência de si. Vive num quarto alugado, alimenta-se mal e sonha com banalidades (ouvir rádio, tomar Coca-Cola, casar-se com o rude Olímpico). Sua vida parece sem enredo até o momento final, quando uma cartomante lhe promete um futuro brilhante — promessa interrompida por sua morte súbita, atropelada por um carro.

Clarice utiliza a história de Macabéa para discutir a exclusão social, a solidão e o sentido da existência. A obra é uma crítica à sociedade moderna que reduz o ser humano a números e funções, apagando sua individualidade.

A escrita de Clarice é fragmentada, introspectiva e filosófica. O texto rompe com a linearidade tradicional, misturando narrativa, confissão e ensaio.

Macabéa, com sua ignorância e pureza, torna-se símbolo do ser humano reduzido à condição de “ninguém”, mas também de uma inocência quase sagrada. Sua “hora da estrela” — o instante da morte — é paradoxalmente o momento em que ela finalmente é notada, ainda que pela tragédia.

O livro convida o leitor a encarar o outro com um olhar de compaixão e desconforto, lembrando que, mesmo nas vidas mais apagadas, há uma centelha de humanidade e de mistério.

sexta-feira, outubro 24, 2025

Como Ser Cristão


Como ser Cristão, publicado em 2018, reúne uma seleção de ensaios, cartas e artigos de C.S. Lewis (1898-1953), editados postumamente, com o objetivo de oferecer “os melhores insights de Lewis sobre a prática cristã e sua expressão no dia-a-dia”.

O autor trabalha algumas ideias como a definição de “ser cristão” não ser apenas uma afiliação ou crença, mas como um modo de viver, trazendo a importância da humildade, do perdão, da caridade e da renúncia de si mesmo.

Mesmo sendo fragmentário, o livro chama atenção para a coerência entre fé e prática, algo que muitos cristãos consideram difícil hoje. Por exemplo, o capítulo sobre perdão como prática necessária é muito simples de entender, mas é desafiador de se colocar em prática.

O livro oferece percepções valiosas sobre como a fé pode alimentar não só a vida pessoal, mas também a justiça e o serviço ao próximo.

Temos aqui uma boa porta de entrada rica e honesta para a vida cristã: leve o suficiente para não sobrecarregar, profundo o bastante para provocar.

domingo, outubro 19, 2025

O Pai Goriot

Publicado em 1835, O Pai Goriot é uma das obras mais emblemáticas de Honoré de Balzac (1799-1850) e peça central do vasto ciclo A Comédia Humana, projeto literário monumental que buscava retratar a sociedade francesa em toda a sua complexidade moral, social e econômica.

A narrativa se passa em Paris, por volta de 1819, e tem como cenário principal a pensão Vauquer, um microcosmo social onde convivem personagens de diferentes origens e ambições. É ali que se cruzam as trajetórias de Rastignac, um jovem estudante de Direito ambicioso e idealista, e de Goriot, um velho comerciante que se arruinou financeiramente para sustentar suas duas filhas ingratas, Anastacia e Delphine.

O drama central do romance é o amor paterno absoluto e trágico de Goriot, que sacrifica tudo — dinheiro, dignidade e saúde — por filhas que, uma vez casadas e inseridas na alta sociedade, passam a desprezá-lo. Balzac transforma essa relação em uma poderosa alegoria do egoísmo e da corrupção moral da burguesia parisiense, onde o dinheiro se torna o verdadeiro mediador de todas as relações humanas.

Balzac combina realismo minucioso e observação social precisa, descrevendo ambientes, vestimentas e gestos com riqueza de detalhes quase científica.

O romance é considerado o “Rei Lear burguês”, pela semelhança com a tragédia de Shakespeare — um pai dilacerado pelo amor desmedido a filhas ingratas —, mas transposto para o contexto da ascensão burguesa e da luta por status no século XIX. Só que Goriot não tem a sua Cordélia para amenizar a tragédia que se abate sobre si.

A força do romance está tanto no retrato psicológico profundo de Goriot quanto na precisão sociológica da crítica balzaquiana. O leitor, ao final, é confrontado com uma pergunta perturbadora: qual o preço da ascensão social em uma sociedade movida pelo dinheiro?