Para finalizar o ano, termino meu 54º livro. Este que me acompanhou desde o 1º dia de 2025.
O Assunto do Céu reúne ensaios e reflexões para serem lidos um por dia em que C.S.Lewis (1898-1963) enfrenta um problema recorrente da modernidade: a redução do real ao que pode ser medido. Para ele, o erro não está na ciência (que ele respeita profundamente), mas na pretensão de que o método científico esgote tudo o que existe. Lewis chama atenção para algo simples e incômodo: conhecer as causas físicas de um fenômeno não equivale a compreender seu significado. Explicar como o cérebro funciona não explica por que buscamos a verdade; descrever reações químicas não esgota o que é amar, sofrer ou esperar.
O grande mérito do livro está no estilo argumentativo. Lewis não grita, não caricatura o adversário e não se apoia em jargões teológicos. Ele raciocina como um professor paciente que conduz o leitor por analogias, paradoxos e exemplos cotidianos. Sua crítica ao materialismo é mais filosófica do que religiosa: se tudo o que pensamos é apenas produto de causas irracionais (choques químicos, impulsos evolutivos), então a própria ideia de verdade se dissolve. O pensamento deixa de ser confiável no exato momento em que tentamos usá-lo para negar qualquer transcendência.
Ao mesmo tempo, Lewis não oferece consolo fácil. O “céu” que ele descreve não é uma projeção sentimental nem uma recompensa simplista. Pelo contrário: ele insiste que o desejo humano pelo infinito é, em si, um sinal de que não fomos feitos apenas para este mundo. Aqui aparece um dos temas mais fortes do livro: a ideia de que nossos anseios mais profundos não são ilusões, mas indícios. Assim como a fome aponta para a existência de comida, o desejo de algo absoluto aponta para uma realidade que não cabe inteiramente na experiência terrena.
Ele não resolve o mistério do sentido da vida, mas recusa a ideia de que o mistério seja um defeito a ser eliminado. Lewis sugere algo mais ousado: talvez o mistério seja o traço mais fiel da realidade.
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