sábado, setembro 12, 2026

Comunicação Não Violenta - CNV

Terminei a leitura de Comunicação Não Violenta (3ª edição publicada em 2015), de Marshall B. Rosenberg (1934-2015), motivado menos por curiosidade intelectual e mais por uma questão bastante prática: desenvolvimento profissional.

Ao longo da minha carreira, já recebi feedback de que, em algumas reuniões, minha forma de defender posições pode ser percebida como agressiva. Trabalho em um ambiente no qual há divergências, interesses diferentes, negociações e discussões técnicas, e sempre considerei natural defender com firmeza aquilo em que acredito. Mas existe uma diferença importante entre ser firme e fazer com que o outro se sinta atacado. Foi principalmente pensando nessa diferença que comecei a leitura.

Rosenberg constrói seu método de Comunicação Não Violenta (CNV) sobre quatro elementos: observação, sentimento, necessidade e pedido. A proposta, porém, é mais profunda do que simplesmente escolher palavras mais educadas.

Um dos pontos que mais me chamou a atenção foi a necessidade de distinguir fatos de julgamentos. Muitas vezes acreditamos que estamos apenas descrevendo uma situação quando, na realidade, já estamos fazendo uma interpretação sobre ela.

Há uma diferença enorme entre dizer: “Essa área nunca entrega o que combinamos.”

E dizer: “O material que havíamos combinado para sexta-feira foi entregue na terça-feira seguinte.”

No primeiro caso, existe julgamento. No segundo, existe um fato sobre o qual podemos conversar.

Parece algo simples, mas, em uma reunião tensa, essa distinção pode determinar se a conversa continuará tratando do problema ou se passará a tratar da defesa pessoal de cada participante.

Outro conceito que considero muito interessante é o de tentar compreender qual necessidade existe por trás de determinada posição.

Em um conflito profissional, alguém pode estar defendendo maior controle enquanto outra pessoa busca mais agilidade. Quando a discussão permanece apenas nas soluções propostas, temos dois lados tentando provar quem está certo. Quando conseguimos identificar o que cada lado está tentando proteger, o espaço de negociação aumenta.

Também gostei muito da ideia de que empatia não significa concordância.

É perfeitamente possível dizer: “Entendo sua preocupação.”

E, logo depois: “Mas continuo chegando a uma conclusão diferente.”

Talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores contribuições do livro para o ambiente profissional: aprender a compreender a posição do outro sem necessariamente abrir mão da própria.

Outro ensinamento que pretendo levar para o meu trabalho é substituir, sempre que possível, a reação imediata pela curiosidade.

Quando alguém questiona uma ideia em que acreditamos muito, nosso impulso costuma ser defender imediatamente nossa posição. Rosenberg sugere algo mais difícil: tentar compreender primeiro.

Isso não significa deixar de discordar. Significa apenas tentar compreender completamente antes de responder.

Apesar de considerar um bom livro e de pretender incorporar vários de seus princípios ao meu cotidiano profissional, também terminei a leitura com algumas ressalvas.

A principal delas é que não acredito que o modelo possa ser aplicado literalmente em todas as situações  especialmente considerando o contexto cultural e organizacional brasileiro.

A comunicação não acontece em um laboratório. Ela acontece dentro de culturas, organizações, hierarquias e relações construídas durante anos.

No ambiente profissional brasileiro, as relações costumam carregar uma combinação bastante particular de proximidade pessoal, informalidade, hierarquia, negociação, improvisação e leitura do contexto. Naturalmente, isso varia muito entre empresas, setores e pessoas, mas uma comunicação excessivamente estruturada segundo o modelo proposto por Rosenberg pode, em determinadas situações, soar pouco espontânea.

Imagino, por exemplo, uma reunião executiva na qual alguém diga literalmente:

“Quando observo que o relatório não foi entregue, sinto frustração porque minha necessidade de previsibilidade não foi atendida.”

A frase está perfeitamente alinhada ao método da CNV.

Mas dificilmente seria a forma mais natural de falar em muitos ambientes profissionais brasileiros.

Provavelmente seria mais eficaz dizer:

“Minha preocupação é com o prazo. Sem esses dados até quinta-feira, não conseguimos consolidar o material. O que precisamos ajustar para garantir a entrega?”

E acredito que essa seja a melhor maneira de aproveitar Rosenberg: não transformar a CNV em um roteiro, mas incorporar o raciocínio que existe por trás dela.

Também considero importante reconhecer que nem todo conflito nasce de um problema de comunicação. Existem conflitos verdadeiros de interesse, poder, recursos, prioridades e responsabilidade. Duas pessoas podem compreender perfeitamente as necessidades uma da outra e ainda assim continuar discordando. Uma comunicação melhor não elimina esses conflitos.

O que ela pode fazer é evitar que um conflito objetivo seja agravado por ataques pessoais, julgamentos desnecessários ou disputas de ego. Talvez essa seja, para mim, a principal contribuição do livro.

Não pretendo sair dessa leitura tentando ser alguém que evita conflitos ou que fala sempre de maneira excessivamente cuidadosa. Meu trabalho exige posicionamento, argumentação e, muitas vezes, discordância.

O aprendizado que quero levar é outro: continuar sendo firme no conteúdo, mas mais cuidadoso na forma como construo a conversa.

Quero observar melhor quando estou descrevendo um fato e quando já estou julgando alguém.

Quero fazer mais perguntas antes de apresentar uma objeção.

Quero tentar entender o que a outra pessoa está tentando proteger antes de concluir que ela simplesmente está dificultando uma decisão.

E talvez, principalmente, quero aprender a perceber quando minha convicção técnica começa a diminuir minha capacidade de escutar.

No final, acredito que o livro vale a leitura justamente quando não é tratada como uma fórmula.

Não considero realista aplicar integralmente o método de Rosenberg a toda conversa profissional, especialmente sem adaptá-lo ao contexto cultural, às relações existentes e ao ambiente em que a comunicação acontece.

Mas vários de seus princípios são extremamente úteis.

Se eu conseguir sair do livro interrompendo um pouco menos, perguntando um pouco mais, separando melhor fatos de julgamentos e conseguindo discordar sem transformar cada divergência em uma disputa pessoal, a leitura já terá cumprido seu papel.

quinta-feira, setembro 10, 2026

Samsung Galaxy Z Fold 8 Ultra


Durou pouco!

Em julho registrei aqui no blog a troca do meu Galaxy S23 Ultra pelo Galaxy S24. Naquela ocasião, a mudança não havia sido exatamente uma escolha minha. O S23 Ultra que eu utilizava, fornecido pelo Banco, teve a tela quebrada e foi substituído pelo S24, que é o modelo utilizado atualmente para o meu cargo.

Logo de cara eu já sabia que teria que me readaptar a uma tela menor. O Galaxy S24 possui uma tela de 6,2" e, desde o Galaxy S8+ em 2017, eu não utilizava um celular desse tamanho.

Tentei me acostumar.

Não consegui!

Depois de anos utilizando aparelhos grandes, principalmente o S23 Ultra, percebi que uma tela de 6,2" simplesmente não atendia mais ao que eu esperava de um celular no dia a dia. E foi justamente essa insatisfação que acabou me fazendo olhar novamente para uma categoria de aparelho que eu conheço muito bem: os dobráveis.

Cinco anos depois, estou de volta!

Comprei o Samsung Galaxy Z Fold 8 Ultra, meu segundo celular dobrável.

O primeiro foi justamente o Galaxy Z Fold 3, adquirido em outubro de 2021. Na época, fiquei extremamente empolgado com aquela nova categoria de aparelhos. Desde o anúncio do primeiro Galaxy Fold, em 2019, eu já acompanhava com curiosidade a proposta de carregar no bolso um celular que pudesse se transformar praticamente em um pequeno tablet.

Esperei até a terceira geração para entrar nesse mundo e, naquele momento, o Z Fold 3 foi provavelmente o celular mais diferente que eu havia utilizado até então.

Fiquei com ele por quase dois anos (23 meses).

A experiência foi muito boa no início, principalmente pela enorme tela interna. Com o tempo, porém, alguns aspectos começaram a incomodar. A tela externa era estreita demais e praticamente me obrigava a abrir o aparelho para quase tudo. O abre e fecha constante acabou ficando cansativo e, depois de algumas quedas, a dobradiça também sofreu danos e o aparelho deixou de abrir completamente plano.

Em agosto de 2023 resolvi abandonar os dobráveis e voltar para um celular convencional com o Galaxy S23 Ultra.

Naquela época achei que minha experiência com os Fold tinha terminado.

Só que cinco anos se passaram desde aquela terceira geração.

E cinco gerações de evolução tecnológica fizeram muita diferença.

O salto do Z Fold 3 para o Z Fold 8 Ultra é enorme. O aparelho está mais refinado, mais fino e passa uma sensação muito diferente daquela de produto ainda experimental que existia nas primeiras gerações.

Mas talvez o ponto que mais tenha me chamado a atenção seja justamente algo que sempre esteve no centro das discussões sobre celulares dobráveis: o vinco da tela interna.

No Fold 3 ele era claramente perceptível, tanto visualmente quanto ao passar o dedo pelo centro da tela. No Fold 8 Ultra a evolução é impressionante. O vinco continua existindo (afinal, a tela continua dobrando), mas ficou muito menos evidente. É uma daquelas diferenças que mostram claramente o quanto essa tecnologia amadureceu nesses cinco anos.

Outra curiosidade é a rapidez com que comprei esse aparelho após seu lançamento.

Quando comprei o Z Fold 3 em 2021, registrei aqui no blog que aquela havia sido a menor janela entre o lançamento mundial de um celular e a minha compra: 35 dias.

Cinco anos depois consegui diminuir esse recorde.

O Galaxy Z Fold 8 Ultra foi lançado em 7 de agosto de 2026 e estou comprando o aparelho apenas 34 dias depois do lançamento.

Um dia a menos!

Pode parecer uma estatística completamente inútil, mas este blog existe também para registrar exatamente esse tipo de coisa. Daqui a alguns anos vou gostar de voltar aqui e lembrar disso.

E há algo curioso nesse retorno aos dobráveis.

Em 2021 eu estava entrando em uma categoria nova, ainda tentando descobrir se aquele formato realmente fazia sentido para mim. Em 2026 estou voltando sabendo exatamente quais são as vantagens e as limitações desse tipo de aparelho.

Só que agora volto para uma tecnologia muito mais madura.

Depois de passar pelo Galaxy Z Fold 3, Galaxy S23 Ultra, outro Galaxy S23 Ultra e pelo breve Galaxy S24, chego agora ao Galaxy Z Fold 8 Ultra.

Meu segundo dobrável. Cinco gerações depois do primeiro.

E, pelo menos nas primeiras impressões, parece que finalmente estou utilizando aquela versão amadurecida do conceito que tanto me impressionou em 2021.

Agora vamos ver quanto tempo esse vai durar!



domingo, setembro 06, 2026

Jane Eyre


Terminei Jane Eyre, de Charlotte Brontë (1816-1855), e gostei demais da leitura! Publicado em 1847, o romance é frequentemente lembrado como uma das grandes histórias de amor da literatura inglesa, mas, para mim, seu maior mérito está em tratar de liberdade, dignidade, consciência e da necessidade de não perder a própria identidade mesmo quando estamos profundamente envolvidos por outra pessoa.

Jane Eyre é uma personagem extraordinária justamente porque não possui aquilo que normalmente definiria uma heroína romântica de sua época. Ela não é rica, não ocupa uma posição social privilegiada e tampouco é apresentada como uma mulher de beleza excepcional. Desde a infância, vive em ambientes nos quais outras pessoas tentam determinar qual deve ser o seu lugar.

Ainda assim, Jane desenvolve uma consciência muito forte de sua própria dignidade.

Ao longo da história, ela não busca apenas ser amada. Ela quer ser respeitada como igual.

É isso que torna sua relação com Edward Rochester tão interessante. Rochester é um personagem carismático, inteligente e cheio de contradições. A relação entre os dois é intensa, mas existe desde o início uma grande diferença de riqueza, idade, posição social e poder.

Por isso, a questão mais interessante do romance não é apenas saber se Jane e Rochester ficarão juntos, mas se é possível existir amor verdadeiro quando uma das pessoas precisa deixar de ser quem é para manter aquela relação.

Jane passa por momentos nos quais precisa escolher entre aquilo que deseja e aquilo que acredita ser correto. E é justamente nesses momentos que ela mais demonstra sua força.

Sua liberdade não está em simplesmente fazer tudo o que quer, mas em conseguir renunciar ao que mais deseja quando percebe que aceitar determinadas condições significaria trair sua própria consciência.

Gostei muito também da maneira como Charlotte Brontë constrói Rochester e St. John Rivers como personagens aparentemente opostos. Rochester representa a paixão e a intensidade; St. John representa a disciplina, o dever e a racionalidade.

Mas, no fundo, os dois apresentam a Jane um problema semelhante: ambos tentam direcionar sua vida segundo aquilo que eles próprios desejam.

Jane precisa aprender a não se deixar dominar nem pela paixão nem pelo dever imposto por outra pessoa.

A atmosfera gótica do romance também é excelente. Thornfield Hall, com seus corredores, segredos, ruídos misteriosos e espaços fechados, dá ao livro uma sensação constante de inquietação. Mas esses elementos não funcionam apenas como suspense. Muitas vezes refletem os próprios conflitos internos das personagens.

O fogo e o frio aparecem repetidamente como imagens simbólicas. O fogo lembra paixão, desejo e também destruição. O frio aparece associado à repressão e à racionalidade excessiva.

Jane parece buscar um equilíbrio entre esses extremos: viver intensamente sem ser consumida pela própria paixão.

Outro aspecto que ganhou força para mim depois da leitura foi a figura de Bertha Mason. Ela funciona durante boa parte da narrativa como presença ameaçadora e misteriosa, mas hoje é difícil não perceber o quanto sua história é contada apenas pela perspectiva dos outros.

Jane conquista cada vez mais voz e autonomia ao longo do romance. Bertha, ao contrário, permanece praticamente sem voz.

Também achei muito interessante comparar Jane Eyre com O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë, livro que também gostei muito.

As duas irmãs trabalham com paixão, isolamento, natureza, casas carregadas de significado e personagens emocionalmente intensos, mas chegam a lugares muito diferentes.

Em O Morro dos Ventos Uivantes, Catherine e Heathcliff vivem uma paixão que parece dissolver a própria identidade dos dois.

Em Jane Eyre, Charlotte Brontë parece perguntar justamente o contrário: como amar profundamente sem deixar de ser você mesmo?

Como leitor de Tolkien, encontrei ainda uma conexão inesperada. Nas obras de Tolkien, muitos personagens enfrentam situações em que precisam renunciar àquilo que desejam quando conquistar esse desejo significaria alguma forma de corrupção.

Jane enfrenta um dilema semelhante numa escala muito mais íntima.

Em vários momentos, sua maior vitória não está em conseguir aquilo que quer, mas em ter força suficiente para dizer não.

O final do romance também funciona muito bem justamente porque Jane retorna a Rochester em condições completamente diferentes das que existiam anteriormente.

Ela possui independência financeira, família e liberdade de escolha.

Agora ela não precisa de Rochester. Ela escolhe Rochester. E existe uma diferença enorme entre essas duas coisas.

Talvez seja por isso que a famosa frase “Reader, I married him” — “Leitor, eu me casei com ele” — seja tão significativa. Jane assume a ação. Ela escolhe. Ela conta sua própria história.

Terminei Jane Eyre entendendo perfeitamente por que o romance continua tão relevante quase dois séculos depois.

É uma grande história de amor, mas também é uma história sobre a conquista da própria identidade.

Jane passa o livro inteiro aprendendo a diferença entre ser amada e ser possuída, entre obedecer e escolher, entre precisar de alguém e desejar livremente estar com alguém.

No fim, Jane não conquista apenas Rochester.

Ela conquista a si mesma.

segunda-feira, agosto 24, 2026

Flush


Flush: uma biografia, publicado por Virginia Woolf (1882-1941) em 1933, é um daqueles livros cuja aparência simples pode enganar o leitor. À primeira vista, trata-se da biografia de Flush, o cocker spaniel da poetisa inglesa Elizabeth Barrett Browning (1806-1861). Mas, nas mãos de Woolf, a vida de um cachorro se transforma em instrumento para refletir sobre liberdade, classe social, amor, posse, percepção e até sobre os limites da própria literatura.

O ponto de partida já é bastante original. Virginia Woolf utiliza documentos e cartas de Elizabeth Barrett Browning para reconstruir, com grande liberdade imaginativa, a trajetória de Flush. O resultado não é exatamente um romance tradicional, tampouco uma biografia convencional. É uma obra híbrida, irônica e delicada, na qual o leitor acompanha o mundo em boa medida a partir da perspectiva de um animal.

E talvez esteja aí o principal encanto do livro.

Flush não percebe a realidade como os seres humanos. Seu universo é formado principalmente por cheiros, sons, sensações e instintos. Woolf tenta traduzir literariamente essa experiência, criando passagens em que Londres, uma casa ou uma rua deixam de ser apenas lugares e passam a ser uma sucessão de estímulos sensoriais. Isso produz um interessante deslocamento de perspectiva: por alguns momentos, somos convidados a abandonar a nossa maneira habitual de perceber o mundo.

Ao mesmo tempo, a história de Flush está profundamente ligada à de sua dona. Elizabeth Barrett Browning vivia praticamente confinada na casa paterna, limitada pela doença e pela rígida autoridade do pai. Nesse sentido, há um paralelismo evidente entre a mulher e o cachorro: ambos vivem protegidos, mas também aprisionados.

A chegada de Robert Browning altera esse equilíbrio. O romance entre os dois poetas representa não apenas uma relação amorosa, mas uma possibilidade de libertação para Elizabeth. Flush, por sua vez, reage inicialmente com ciúme e desconforto, como se percebesse que aquele novo homem ameaçava o pequeno universo que ele compartilhava com sua dona.

Esse aspecto da narrativa permite uma leitura muito interessante sobre o amor. Woolf sugere, ainda que de maneira sutil, que amar alguém pode também significar desejar sua permanência, sua dependência e sua proximidade. A verdadeira liberdade do outro pode, portanto, tornar-se ameaçadora.

Outro elemento muito forte da obra é a crítica social.

A Inglaterra vitoriana era uma sociedade extremamente marcada pelas distinções de classe, e Woolf utiliza o próprio pedigree de Flush para ironizar esse sistema. Há cães de raça, cães comuns, cães valorizados e cães desprezados, assim como existem famílias aristocráticas, trabalhadores e pessoas marginalizadas.

Em determinados momentos, Flush atravessa fronteiras sociais que Elizabeth dificilmente conheceria diretamente. A Londres elegante e respeitável dá lugar a regiões pobres, violentas e insalubres, revelando uma cidade profundamente desigual.

Essa dimensão social ganha ainda mais força quando comparada à vida confortável de Wimpole Street. A poucos quarteirões de distância coexistiam realidades completamente diferentes.

A mudança posterior para a Itália possui também um significado simbólico evidente. Se a Inglaterra representa contenção, hierarquia e clausura, a Itália aparece associada ao movimento, à luz e à liberdade. A transformação de Elizabeth é acompanhada por uma mudança semelhante na experiência de Flush.

Virginia Woolf escreve com ironia, humor e certa ternura, especialmente quando trata das pretensões humanas à superioridade. A escolha de escrever uma “biografia” de um cachorro é, por si só, uma brincadeira com o gênero biográfico tradicional, normalmente reservado às vidas de grandes personagens históricos.

Ao tratar Flush com a solenidade normalmente dedicada a estadistas, escritores ou generais, Woolf parece perguntar: afinal, o que torna uma vida digna de ser narrada?

Minha leitura também ganhou uma camada adicional por ter vindo logo depois de A Ilha do Doutor Moreau, de H. G. Wells.

Nos dois livros, a relação entre homens e animais ocupa posição central, mas de maneiras quase opostas.

Wells observa o animal tentando transformá-lo em homem. Woolf observa o animal tentando imaginar como seria perceber o mundo sem ser humano.

Em Wells, a fronteira entre humanidade e animalidade é perturbadora e violenta. Em Woolf, ela é contemplativa e filosófica.

Talvez essa seja uma das maiores qualidades de Flush: fazer o leitor perceber que a perspectiva humana não é necessariamente a única maneira possível de experimentar a realidade.

É um livro pequeno e aparentemente despretensioso, mas que contém muito mais do que sua premissa inicialmente sugere.

Ao final, Flush continua sendo apenas um cachorro.

E talvez seja justamente isso que torna sua história tão interessante.

domingo, agosto 23, 2026

Novo Ar Condicionado para o Quarto: Hitachi


Em março/2017 escrevi aqui no Blog que estava colocando um novo ar condicionado no quarto de 18.000 BTUs e agora, quase 10 anos depois, está na hora dele ir para outro quarto e comprar um novo pro nosso quarto.

Compramos o Ar Condicionado Split Inverter Hitachi 18000 BTU Frio Wi-Fi R-32 para no nosso quarto e o da LG que estava aqui foi para o quarto da frente, que era o único que não tinha ar condicionado.

Como iremos aumentar o quarto da frente no futuro, esse da LG irá servir bem para o tamanho que ele ficará no futuro.

sábado, agosto 22, 2026

A Ilha do Doutor Moreau


Publicado em 1896, A Ilha do Doutor Moreau é um daqueles livros que ultrapassam com facilidade a categoria em que costumam ser colocados. Embora seja frequentemente apresentado como um clássico da ficção científica, o romance de H. G. Wells (1866-1946) é também uma obra de horror, uma reflexão sobre os limites da ciência e, principalmente, uma investigação incômoda sobre aquilo que chamamos de humanidade.

A história acompanha Edward Prendick, um homem que, depois de sobreviver a um naufrágio, acaba em uma ilha isolada habitada pelo misterioso doutor Moreau, um cientista que havia sido afastado da sociedade inglesa por causa de suas experiências com animais. Aos poucos, Prendick descobre que a ilha funciona como um grande laboratório, no qual Moreau tenta alterar fisicamente animais para aproximá-los da forma e do comportamento humanos.

A premissa, por si só, já seria suficiente para sustentar um bom romance de horror. Mas Wells vai muito além. O que realmente impressiona no livro não é apenas a crueldade dos experimentos, mas a naturalidade com que Moreau os justifica. Ele não age como um vilão movido pelo ódio ou pelo sadismo. Seu verdadeiro perigo está em outra coisa: numa razão científica que se considera acima da compaixão.

É justamente aí que o romance permanece tão atual. Moreau representa o cientista que já não se pergunta se deve fazer algo, mas apenas se consegue fazê-lo. A dor das criaturas deixa de ser uma questão moral e passa a ser tratada como um inconveniente do processo. Wells, portanto, transforma uma história de ficção científica em uma discussão que ainda hoje aparece em temas como bioética, experimentação animal, engenharia genética e manipulação da vida.

Outro aspecto que me chamou bastante atenção foi a presença da chamada “Lei”, um conjunto de regras repetidas pelos seres criados por Moreau para conter seus impulsos animais. A famosa pergunta “Não somos homens?” ganha um significado perturbador ao longo da narrativa. Quanto mais os personagens tentam estabelecer uma fronteira entre humanidade e animalidade, mais Wells mostra como essa separação pode ser frágil.

A grande força do romance está justamente nessa inversão. No início, sentimos estranhamento diante de criaturas animais que apresentam características humanas. No final, porém, a pergunta já é outra: quanto de animal existe nos próprios seres humanos?

O desfecho é especialmente eficaz porque leva essa inquietação para além da ilha. Prendick consegue deixar para trás Moreau e suas experiências, mas não consegue abandonar aquilo que aprendeu. Ao retornar à sociedade, passa a enxergar nos homens os mesmos impulsos, gestos e instintos que havia observado entre os seres da ilha. A experiência transforma para sempre sua visão da humanidade.

Também achei interessante perceber como o romance dialoga com Frankenstein, de Mary Shelley. Victor Frankenstein tenta criar vida; Moreau tenta remodelá-la. Ambos ultrapassam limites em nome do conhecimento, mas Moreau talvez seja ainda mais inquietante por demonstrar muito menos culpa. Seu problema não é apenas a ambição científica, mas a vontade de dominar a natureza e obrigá-la a assumir uma forma escolhida por ele.

Nesse ponto, também encontrei uma conexão interessante com Tolkien. Em sua obra, o mal frequentemente surge quando o desejo de criar degenera em desejo de controlar. Personagens como Melkor e Saruman não respeitam a natureza própria das coisas: querem deformá-las para que correspondam à sua vontade. Moreau faz algo semelhante. Ele não procura compreender os animais como são, mas transformá-los no que acredita que deveriam ser. É uma diferença de universo literário, naturalmente, mas a crítica ao poder exercido sobre a criação aproxima de maneira curiosa os dois autores.

A escrita de Wells é direta e relativamente simples, e o romance é curto, mas isso não significa que seja superficial. Pelo contrário: é uma dessas obras que continuam crescendo depois da última página. Quanto mais se pensa sobre Moreau, os Homens-Fera, a Lei e o destino de Prendick, mais incômodas se tornam as questões levantadas pelo livro.

A Ilha do Doutor Moreau foi uma leitura que gostei bastante justamente por isso. Não é apenas uma história de aventura e horror científico, mas um romance capaz de provocar uma discussão filosófica sobre ciência, moralidade, poder, sofrimento e natureza humana.

sábado, agosto 15, 2026

Nós


Nós, de Yevgeny Zamyatin (1884-1937), é uma daquelas obras cuja importância histórica quase corre o risco de eclipsar suas qualidades literárias. Escrito no início da década de 1920 e publicado pela 1ª vez em 1924, pouco depois da Revolução Russa, o romance é frequentemente lembrado como um dos grandes precursores da literatura distópica e como influência decisiva para obras posteriores, sobretudo 1984, de George Orwell. No entanto, reduzi-lo à condição de “antecessor das distopias modernas” seria injusto. Nós permanece uma obra inquietante por mérito próprio, especialmente por sua reflexão sobre liberdade, felicidade, individualidade e os perigos de uma sociedade que pretende transformar a vida humana em uma equação perfeita.

A narrativa é apresentada na forma do diário de D-503, engenheiro e matemático do Estado Único, uma sociedade futura em que praticamente todos os aspectos da existência são regulados. As pessoas não possuem nomes, mas números; vivem em edifícios de vidro; seguem horários rigidamente estabelecidos e estão submetidas a uma autoridade suprema representada pelo Benfeitor. D-503 não percebe inicialmente nada disso como opressão. Pelo contrário: acredita sinceramente viver no ápice da civilização, numa sociedade que finalmente conseguiu substituir a desordem da liberdade pela segurança de uma felicidade racionalmente organizada.

É justamente essa perspectiva que torna o livro tão interessante. Zamyatin não nos apresenta o Estado Único pelos olhos de um rebelde, mas pelos olhos de alguém que acredita profundamente nele. O leitor acompanha, assim, o lento desmoronamento das certezas de D-503 depois que ele conhece I-330, uma mulher misteriosa, provocadora e imprevisível que desperta nele sentimentos que sua lógica matemática é incapaz de explicar. O que começa como atração transforma-se numa verdadeira crise de identidade.

A partir desse ponto, o romance passa a acompanhar menos uma revolução política do que uma revolução interior. D-503 começa a experimentar ciúme, desejo, medo, paixão e imaginação. Em uma das ironias mais marcantes do livro, essas manifestações de interioridade são tratadas como sintomas de uma doença: ele teria desenvolvido uma “alma”. Para o Estado Único, ser plenamente humano é justamente o problema.

Esse é um dos aspectos que mais me impressionaram na leitura. Zamyatin constrói uma sociedade na qual a opressão não se apresenta como crueldade, mas como benevolência. O Estado não afirma querer tornar as pessoas infelizes; pretende fazer exatamente o contrário. Sua justificativa é simples e perturbadora: os seres humanos sofreram durante séculos porque eram livres. A liberdade permitia erros, crimes, conflitos, paixões e decisões equivocadas. A solução encontrada foi eliminar progressivamente a possibilidade de escolha.

O conflito central de Nós, portanto, não é apenas entre liberdade e tirania, mas entre liberdade e felicidade. Zamyatin nos força a considerar uma questão incômoda: se fosse possível construir uma sociedade segura, previsível e relativamente feliz, mas ao custo da individualidade e da autonomia, essa troca seria aceitável?

A matemática ocupa um papel central nessa oposição. Para D-503, linhas retas, números, equações e formas geométricas representam beleza e perfeição. Em contraposição aparecem a natureza, as curvas, o vento, o corpo, o desejo e a imprevisibilidade. Essa simbologia é reforçada pela arquitetura do Estado Único, sobretudo pelos edifícios de vidro, que representam simultaneamente transparência e vigilância. Nada deve permanecer oculto, porque possuir um espaço privado já significa possuir algo que não pertence ao Estado.

Outro símbolo especialmente interessante é o Muro Verde, que separa a cidade racionalizada do mundo exterior. Mais do que uma barreira física, ele divide duas concepções de humanidade: de um lado, ordem, disciplina e previsibilidade; do outro, natureza, instinto e desordem. Zamyatin não romantiza completamente esse mundo exterior, mas deixa claro que a tentativa de eliminar toda a desordem também elimina algo vital.

A própria estrutura do romance acompanha a transformação de D-503. No início, sua escrita é relativamente organizada e confiante. À medida que suas certezas começam a ruir, a prosa se torna cada vez mais fragmentada e nervosa. Em alguns momentos, essa característica torna a leitura deliberadamente confusa. Confesso que houve passagens em que precisei voltar algumas páginas para compreender exatamente o que havia acontecido. Contudo, depois de terminar o livro, percebi que essa dificuldade não é apenas um defeito narrativo: ela reflete o colapso psicológico do protagonista. A linguagem perde a ordem ao mesmo tempo em que D-503 perde sua antiga visão matemática do mundo.

Entre os personagens, I-330 é certamente a presença mais marcante. Mais do que uma simples figura romântica, ela funciona quase como uma força de ruptura. É por meio dela que D-503 entra em contato com o segredo, a desobediência, o desejo e a revolução. Ao mesmo tempo, permanece uma personagem ambígua: nunca sabemos completamente até que ponto seus sentimentos por D-503 são sinceros ou se ele é, em parte, um instrumento para seus objetivos políticos.

O-90, por outro lado, representa uma forma de rebeldia muito diferente. Seu desejo de ter um filho, numa sociedade em que até a reprodução é administrada pelo Estado, transforma uma aspiração íntima em ato político. Esse contraste entre I-330 e O-90 é um dos detalhes que mais enriquecem o romance: uma enfrenta o sistema por meio da revolução organizada; a outra, por meio de um desejo profundamente pessoal.

O desfecho é especialmente sombrio. O Estado percebe que a imaginação é a verdadeira origem da dissidência e desenvolve uma operação destinada a eliminá-la. O resultado é mais perturbador do que uma simples execução: o indivíduo permanece biologicamente vivo, mas aquilo que lhe permitia desejar, imaginar e questionar é destruído. O corpo continua existindo; a pessoa, de certa maneira, não.

Ainda assim, Zamyatin não encerra o livro afirmando simplesmente que o totalitarismo venceu. A resistência continua existindo, e a ordem permanece ameaçada. Essa abertura revela uma das ideias mais importantes do autor: não existe uma última revolução, assim como não existe uma sociedade capaz de encerrar definitivamente a história. Toda ordem que se declara perfeita começa, justamente por isso, a produzir novos dissidentes.

Por ser um dos primeiros grandes romances distópicos do século XX, Nós inevitavelmente lembra 1984 e Admirável Mundo Novo. Mas sua personalidade é bastante própria. Zamyatin é mais experimental, simbólico e filosófico. A obra exige do leitor alguma paciência, principalmente por sua narrativa fragmentada, mas recompensa essa dedicação com questões que continuam extremamente atuais.

O que mais permanece depois da leitura não é exatamente a descrição de um regime político específico, mas uma pergunta sobre a própria condição humana. Talvez uma sociedade pudesse eliminar grande parte da violência, do sofrimento, do risco e da incerteza. Mas, se para isso fosse necessário eliminar também o desejo, o segredo, a imaginação e a possibilidade de errar, ainda poderíamos chamar seus habitantes de verdadeiramente humanos?

Nós é, no fim das contas, um romance sobre o nascimento doloroso do “eu” dentro de uma sociedade que só admite o “nós”. E talvez seja justamente essa tensão — entre a necessidade de pertencer a uma comunidade e a necessidade de continuar sendo uma pessoa singular — que explique por que o livro continua tão provocador mais de um século depois de ter sido escrito.

quinta-feira, agosto 06, 2026

O Sol é Para Todos


Publicado em 1960, O Sol é Para Todos, de Harper Lee (1926-2016), é daqueles livros que conseguem tratar de temas pesados sem perder a delicadeza. Racismo, injustiça, preconceito, pobreza e intolerância atravessam a narrativa, mas tudo é visto, em grande parte, pelos olhos de uma criança. É justamente essa escolha que torna o romance tão poderoso: aquilo que os adultos aprenderam a aceitar como normal surge, para Scout Finch, como algo estranho, contraditório e muitas vezes incompreensível.

A história se passa na pequena cidade fictícia de Maycomb, no Alabama, durante os anos da Grande Depressão. Scout vive com o irmão Jem e com o pai, Atticus Finch, um advogado respeitado da comunidade. Nos primeiros capítulos, o romance parece se concentrar sobretudo nas experiências da infância: brincadeiras, medos, pequenas aventuras e a curiosidade das crianças em torno do misterioso vizinho Boo Radley. Aos poucos, porém, a narrativa muda de tom quando Atticus assume a defesa de Tom Robinson, um homem negro acusado de violentar uma mulher branca.

É a partir daí que Harper Lee revela as estruturas mais profundas de Maycomb. A cidade, aparentemente pacata e organizada, mostra-se sustentada por divisões sociais muito rígidas, preconceitos e uma hierarquia racial praticamente inquestionável. O julgamento de Tom Robinson não representa apenas um caso judicial: ele expõe uma sociedade na qual a verdade pode se tornar secundária quando entra em conflito com preconceitos profundamente arraigados.

Atticus Finch é, sem dúvida, uma das figuras mais marcantes do romance. Sua força não está em grandes discursos ou gestos heroicos, mas na coerência. Ele procura ensinar aos filhos que é necessário compreender as pessoas antes de julgá-las e que agir corretamente continua sendo importante mesmo quando a derrota parece inevitável. Sua concepção de coragem é particularmente interessante: coragem não é vencer, mas permanecer fiel ao que se considera justo mesmo quando todos parecem estar do lado contrário.

No entanto, um dos aspectos mais ricos do livro está justamente na maneira como Scout e Jem observam esse mundo adulto. Conforme crescem, eles percebem que as regras ensinadas pela sociedade nem sempre correspondem à justiça. Pessoas respeitáveis podem agir de maneira covarde; instituições criadas para proteger a verdade podem reproduzir preconceitos; e uma comunidade que se considera civilizada pode tolerar profundas injustiças.

Nesse sentido, O Sol é Para Todos é também um romance sobre a perda da inocência. Scout e Jem passam gradualmente de uma visão infantil relativamente simples para uma compreensão muito mais amarga da sociedade. Crescer significa descobrir que o mundo não funciona necessariamente de acordo com aquilo que deveria ser correto. Mas Harper Lee não transforma essa descoberta em puro pessimismo. Ao lado da intolerância e da violência, existem também dignidade, solidariedade e pessoas dispostas a agir de acordo com a própria consciência.

O simbolismo do título é fundamental para compreender a obra. O título original, To Kill a Mockingbird, remete à ideia de que seria um pecado matar um pássaro que não causa mal e apenas oferece seu canto. Ao longo do livro, essa imagem passa a representar aqueles que são inocentes, frágeis ou injustamente atingidos pela crueldade dos outros. Tom Robinson é a associação mais evidente, mas não a única.

Outro personagem essencial é Boo Radley. Durante boa parte da narrativa, ele existe principalmente na imaginação das crianças, cercado por histórias assustadoras e rumores. A forma como Scout passa a enxergá-lo ao longo do romance funciona quase como um espelho do tema principal da obra: muitas vezes, criamos imagens sobre as pessoas sem realmente conhecê-las. Aprender a enxergar o mundo pela perspectiva do outro é uma das principais lições que Atticus tenta transmitir aos filhos.

Talvez o aspecto mais impressionante de O Sol é Para Todos seja a simplicidade com que coloca questões morais muito profundas. O livro não precisa transformar seus personagens em conceitos ou recorrer a longas reflexões filosóficas. As grandes perguntas aparecem naturalmente na vida cotidiana de Maycomb: o que significa ser justo quando a maioria não é? Até que ponto devemos respeitar uma sociedade cujas regras consideramos erradas? É possível manter a integridade diante da pressão coletiva? E como evitar que nossos próprios preconceitos determinem a maneira como enxergamos os outros?

Harper Lee construiu um romance ao mesmo tempo acessível e profundamente humano. A perspectiva infantil torna a leitura leve em diversos momentos, mas também torna a injustiça ainda mais perturbadora. Quando Scout não consegue compreender determinadas atitudes dos adultos, o leitor é levado a perceber o quanto aquilo que parece absurdo para uma criança pode ter sido naturalizado pela sociedade.

O Sol é Para Todos é, portanto, muito mais do que um romance sobre racismo no sul dos Estados Unidos. É uma obra sobre consciência, empatia e coragem moral. Sobre aprender a olhar para o outro sem os filtros impostos pela comunidade. E, principalmente, sobre a dificuldade de permanecer justo em um mundo no qual a injustiça muitas vezes se apresenta como tradição, costume ou senso comum.

É uma leitura que permanece relevante justamente porque nos obriga a fazer uma pergunta desconfortável: quantas injustiças nós também aprendemos a considerar normais simplesmente porque todos ao nosso redor as aceitam?

terça-feira, julho 28, 2026

A História da Cerveja no Brasil


A História da Cerveja no Brasil: O Legado de Stupakoff e Künning (2024), de Rogério Furtado e Henri Kistler, publicado pela Ateliê Editorial, é daqueles livros cujo título parece dizer exatamente o que encontraremos em suas páginas, mas que, ao final, revela ter contado uma história muito maior. A cerveja é o fio condutor, mas por trás dela surge um amplo retrato da formação da indústria brasileira, da imigração europeia e das profundas transformações econômicas e sociais ocorridas no país entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX.

O grande mérito da obra está justamente em retirar do anonimato personagens que tiveram participação importante nesse processo, particularmente Heinrich Stupakoff e Johann Künning. Ao acompanhar suas trajetórias, percebemos que a história da cerveja brasileira não pode ser reduzida simplesmente ao surgimento das grandes marcas que posteriormente dominaram o mercado. Antes delas existiram empresários, imigrantes, técnicos e comerciantes que precisaram lidar com dificuldades de produção, importação de equipamentos e matérias-primas, tributação, transporte e com um mercado consumidor ainda em formação.

Stupakoff aparece como figura fundamental da indústria cervejeira paulista, especialmente por sua ligação com a Cervejaria Bavaria, posteriormente adquirida pela Antarctica. Künning, por sua vez, tornou-se personagem importante da Brahma e também da própria organização institucional da indústria brasileira, participando de debates empresariais e políticos relacionados à tributação e às condições necessárias ao desenvolvimento industrial do país.

É justamente nesses momentos que o livro se torna particularmente interessante. Aos poucos, percebemos que contar a história de uma cervejaria significa inevitavelmente contar também a história do Brasil. Questões aparentemente prosaicas — como produzir gelo, transportar garrafas, importar cevada, conseguir máquinas ou pagar impostos — revelam os enormes desafios enfrentados por quem pretendia estabelecer uma atividade industrial em um país que ainda construía sua infraestrutura e passava da economia predominantemente agrária para uma sociedade cada vez mais urbana e industrializada.

Outro aspecto interessante é perceber como o hábito brasileiro de consumir cerveja foi sendo construído. A bebida que hoje parece completamente incorporada à cultura nacional atravessou diferentes fases, desde a predominância das cervejas importadas até o estabelecimento da produção nacional em escala industrial. A influência dos imigrantes, especialmente alemães, as mudanças tecnológicas e a crescente preferência pelas cervejas de baixa fermentação ajudam a explicar a transformação não apenas da indústria, mas também do próprio gosto dos consumidores brasileiros.

O trabalho de pesquisa realizado pelos autores merece destaque. Fotografias, documentos, anúncios, registros empresariais e personagens pouco conhecidos ajudam a reconstruir um universo que poderia facilmente ter desaparecido da memória. Esse caráter documental é uma das maiores qualidades do livro e provavelmente será especialmente apreciado por quem gosta de história econômica, empresarial ou da própria formação de São Paulo e do Rio de Janeiro.

Por outro lado, essa mesma riqueza de informações pode tornar alguns trechos mais densos. Quem procurar uma narrativa leve ou uma história geral e cronológica de todas as cervejarias brasileiras talvez encontre uma obra diferente da imaginada. O subtítulo — “O legado de Stupakoff e Künning” — é importante para compreender sua proposta: trata-se menos de uma enciclopédia completa da cerveja brasileira e mais de uma investigação histórica conduzida principalmente a partir desses dois personagens e das empresas e instituições que gravitaram ao seu redor.

E talvez seja exatamente essa escolha que dê personalidade ao livro. Em vez de repetir apenas a história das marcas que sobreviveram, os autores voltam sua atenção para pessoas, empresas e acontecimentos que acabaram obscurecidos pelo tempo. Com isso, mostram que as grandes companhias que conhecemos hoje não surgiram prontas: foram resultado de uma longa sucessão de iniciativas empresariais, incorporações, disputas comerciais, avanços tecnológicos e mudanças econômicas.

Para quem aprecia cerveja, é uma leitura especialmente prazerosa porque acrescenta uma dimensão histórica àquilo que encontramos hoje em uma simples garrafa ou copo. Depois da leitura, nomes como Brahma, Antarctica e Bavaria deixam de ser apenas marcas e passam a representar capítulos de uma história muito mais ampla de empreendedorismo, imigração, industrialização e transformação dos hábitos brasileiros.

Mas considero que o maior mérito de A História da Cerveja no Brasil seja justamente conseguir interessar mesmo além do universo cervejeiro. No fundo, é um livro sobre pessoas tentando construir empresas e instituições em um país que também estava tentando construir a si próprio.

A cerveja está em praticamente todas as páginas, mas, quando fechamos o livro, percebemos que aprendemos muito mais sobre o Brasil do que apenas sobre cerveja.

domingo, julho 26, 2026

Catedral Metropolitana Nossa Senhora Aparecida


Durante minha passagem por Cascavel/PR tive a oportunidade de participar de uma celebração de missa na Catedral Metropolitana Nossa Senhora Aparecida, localizada no centro da cidade. Além da experiência religiosa, a visita despertou minha curiosidade sobre a história daquele templo de arquitetura tão peculiar e sobre sua importância para a formação de Cascavel.

Ao pesquisar um pouco mais, descobri que a história da Catedral está profundamente ligada ao próprio desenvolvimento da cidade e da Igreja Católica no Oeste do Paraná.

A história da comunidade católica que daria origem à atual Catedral remonta ao início da década de 1950. A Paróquia Nossa Senhora Aparecida foi criada em 10 de junho de 1952, justamente no período em que Cascavel consolidava sua organização como município. A emancipação política da cidade também ocorreu naquele ano, o que mostra como a trajetória da paróquia praticamente acompanhou o nascimento e o crescimento da própria Cascavel.

A primeira sede paroquial não correspondia, entretanto, ao edifício que vemos atualmente. Nos primeiros anos, a comunidade funcionou em outro ponto da cidade e passou por diferentes estruturas até que, em 1959, a sede paroquial fosse transferida para o terreno onde hoje se encontra a Catedral.

O primeiro responsável pela comunidade paroquial foi padre Luis Luíze, que esteve à frente da paróquia entre 1952 e 1953.

Anos depois, em 1962, Nossa Senhora Aparecida foi oficialmente reconhecida como padroeira do município de Cascavel.

Um dos aspectos mais interessantes da história da Catedral é perceber que sua importância não ficou restrita à dimensão religiosa.

Na época em que se discutia a localização da nova Igreja Matriz, Cascavel ainda estava em processo acelerado de expansão urbana. A região escolhida para a nova sede paroquial integrava o chamado “Patrimônio Novo”, uma área que começava a ganhar importância em relação ao antigo núcleo da cidade.

A instalação da igreja naquele ponto contribuiu para atrair movimento e consolidar aquela região como um novo centro urbano.

Dessa forma, a história da Paróquia Nossa Senhora Aparecida e a própria história do desenvolvimento de Cascavel acabaram caminhando juntas. A igreja tornou-se não apenas um lugar de culto, mas também um importante ponto de referência para a população.

O edifício que atualmente abriga a Catedral começou a tomar forma na década de 1960. Em 1966, o arquiteto Gustavo Gama Monteiro foi responsável pelo projeto da nova Igreja Matriz.

Diferentemente de muitas igrejas históricas brasileiras construídas diretamente por ordens religiosas, como franciscanos, carmelitas ou jesuítas, a atual Catedral de Cascavel não está vinculada à construção por uma congregação religiosa específica.

Religiosos de diferentes congregações participaram da vida pastoral da comunidade ao longo dos anos, inclusive padres da Congregação do Verbo Divino, mas a construção da atual igreja deve ser compreendida principalmente como uma iniciativa da Igreja local, de seus sacerdotes e da própria comunidade cascavelense.

A participação da população foi, inclusive, fundamental para viabilizar a obra.

Há registros de que madeireiras da região doaram madeira, posteriormente comercializada para ajudar na arrecadação dos recursos destinados à construção. Esse aspecto revela muito sobre Cascavel daquele período, quando a atividade madeireira ainda desempenhava papel importante na economia regional.

A cronologia da construção possui algumas pequenas diferenças entre as fontes históricas, principalmente porque há datas distintas relacionadas ao projeto, ao início das obras, às primeiras celebrações e à inauguração definitiva.

De forma geral, é possível estabelecer os seguintes marcos:

  • O projeto arquitetônico foi elaborado em 1966.
  • Na década seguinte, em 1974, as obras do novo templo já estavam em andamento e ocorreu a primeira celebração de missa no edifício ainda em construção.
  • A inauguração oficial aconteceu em 1976, quando o templo ainda possuía a condição de Igreja Matriz Nossa Senhora Aparecida.

A arquitetura é certamente um dos elementos que mais chamam atenção de quem visita a Catedral. O edifício rompe bastante com o modelo tradicional das igrejas brasileiras, especialmente aquelas marcadas por torres, fachadas ornamentadas e elementos coloniais ou neogóticos.

A Catedral de Cascavel apresenta uma arquitetura moderna, fortemente baseada no uso do concreto armado. Sua cobertura é formada por 18 grandes gomos de concreto apoiados em 18 colunas, criando uma estrutura que se abre em diferentes direções.

A concepção arquitetônica está diretamente relacionada à padroeira. O formato procura representar simbolicamente o manto e a coroa de Nossa Senhora Aparecida.

Há inclusive um relato relacionado à concepção do projeto segundo o qual Dom Armando Círio teria colocado uma imagem de Nossa Senhora Aparecida sobre uma mesa e solicitado que o arquiteto utilizasse aquela forma como inspiração para o desenho do novo templo.

Observada principalmente de cima, essa referência ao manto da Virgem torna-se ainda mais perceptível.

Quando foi inaugurada, em 1976, a igreja ainda era oficialmente a Matriz Nossa Senhora Aparecida. Isso mudaria apenas dois anos depois.

Em 5 de maio de 1978, o Papa Paulo VI criou oficialmente a Diocese de Cascavel. Com isso, a antiga Igreja Matriz passou à condição de Catedral, tornando-se a igreja onde está localizada a cátedra do bispo. O primeiro bispo da nova Diocese foi Dom Armando Círio, que tomou posse naquele mesmo ano.

Em 16 de outubro de 1979, durante o pontificado do Papa João Paulo II, Cascavel foi elevada à condição de Arquidiocese Metropolitana.

A igreja passou então a ser oficialmente denominada Catedral Metropolitana Nossa Senhora Aparecida, enquanto Dom Armando Círio tornou-se o primeiro arcebispo metropolitano de Cascavel.

A partir daquele momento, a Catedral passou a ocupar uma posição ainda mais relevante na estrutura da Igreja Católica no Oeste do Paraná.

A Catedral Nossa Senhora Aparecida possui importância que ultrapassa os limites da própria cidade de Cascavel. Como sede da Arquidiocese, ela ocupa uma posição central na organização da Igreja Católica em uma ampla região do Paraná.

Além do próprio templo, o conjunto possui importantes elementos artísticos e religiosos. Entre eles está a representação das grandes mãos que oferecem a imagem de Nossa Senhora Aparecida diante da Catedral, além de esculturas associadas ao artista cascavelense Dirceu Rosa.

O interior da igreja também chama atenção pelo contraste entre a força estrutural do concreto e os elementos que compõem o espaço litúrgico, como os vitrais, o altar e as representações religiosas.

Conhecer previamente ou posteriormente a história de uma igreja acaba transformando também a maneira como enxergamos aquele espaço.

Participar de uma missa na Catedral Metropolitana Nossa Senhora Aparecida foi, para mim, não apenas uma experiência religiosa, mas também uma oportunidade de estar em um lugar profundamente ligado à memória de Cascavel.

Aquela grande estrutura de concreto no centro da cidade representa mais do que um projeto arquitetônico incomum. Ela reúne a história de uma comunidade, o crescimento de uma cidade e a consolidação da presença da Igreja Católica no Oeste do Paraná.

É interessante pensar que a paróquia surgiu praticamente junto com o município e que, ao longo de poucas décadas, aquela pequena comunidade se transformaria na sede de uma Arquidiocese Metropolitana.

Assim, ao entrar na Catedral para participar de uma celebração, estamos também entrando em um espaço que testemunhou boa parte da própria história de Cascavel.

E talvez seja justamente essa união entre fé, arquitetura, memória e identidade local que torne a Catedral Nossa Senhora Aparecida um lugar tão especial para a cidade e para toda a região.

sexta-feira, julho 17, 2026

Senhora


Publicado em 1875, Senhora, de José de Alencar (1829-1877), é um dos grandes romances urbanos do romantismo brasileiro. Mais conhecido por obras indianistas como O Guarani e Iracema, Alencar mostra aqui outra face de seu projeto literário: a observação da sociedade carioca do século XIX, com seus salões, bailes, convenções, casamentos arranjados e jogos de aparência.

A protagonista, Aurélia Camargo, é uma das personagens femininas mais marcantes da literatura brasileira. Órfã e inicialmente pobre, ela conhece o desprezo de uma sociedade que mede as pessoas pelo dinheiro e pela posição. Quando recebe uma grande herança, sua condição muda radicalmente. Rica, admirada e disputada, Aurélia decide usar o próprio mecanismo que a feriu: transforma o casamento em uma negociação e “compra” Fernando Seixas, o homem que a havia abandonado por interesse financeiro.

A grande força do romance está justamente nessa inversão. Em uma sociedade na qual as mulheres frequentemente eram tratadas como peças de troca em acordos familiares e econômicos, Aurélia assume o papel de quem negocia, decide e impõe condições. Sua atitude, ao mesmo tempo corajosa e cruel, revela a hipocrisia do mundo em que vive. Se todos tratam o casamento como negócio, ela apenas escancara essa lógica até suas últimas consequências.

Fernando Seixas, por sua vez, é um personagem moralmente ambíguo. Não é simplesmente um vilão, mas um homem fraco diante das pressões sociais. Vaidoso, elegante e preocupado com a aparência, ele se deixa seduzir por um mundo em que prestígio e dinheiro parecem valer mais do que sentimento e dignidade. Sua trajetória no romance é também uma tentativa de reconquista de si mesmo.

A estrutura da obra reforça sua crítica social. As partes do livro recebem títulos como “O Preço”, “Quitação”, “Posse” e “Resgate”, termos que pertencem ao universo econômico. Alencar constrói, assim, uma metáfora clara: naquela sociedade, até o amor parece submetido às regras do mercado. O casamento, que deveria ser expressão de afeto e compromisso, aparece contaminado por cálculo, orgulho, interesse e vaidade.

Embora seja uma obra romântica, Senhora não se limita ao sentimentalismo. Há idealização, há drama amoroso e há redenção moral, elementos típicos do romantismo. Mas há também uma observação crítica bastante aguda da sociedade brasileira do Segundo Reinado. O romance expõe o modo como a aparência social, o patrimônio e a reputação determinavam destinos, especialmente no caso das mulheres.

Aurélia é uma personagem fascinante justamente por suas contradições. Ela é inteligente, altiva, generosa, ferida, orgulhosa e vingativa. Seu sofrimento não a torna passiva; ao contrário, ela reage. Mas sua reação também a aprisiona, pois transforma o amor em disputa de poder. O drama de Aurélia está em descobrir que vencer socialmente não significa necessariamente alcançar paz interior.

Ler Senhora hoje é perceber como certas questões continuam atuais. Ainda vivemos em uma sociedade na qual relações afetivas podem ser atravessadas por interesse, status, poder econômico e expectativas externas. A pergunta central do romance permanece viva: é possível amar verdadeiramente quando o outro é tratado como posse, conquista ou compensação para uma ferida antiga?

José de Alencar talvez não tenha escrito um romance perfeito. Em alguns momentos, a linguagem pode soar excessivamente ornamentada ao leitor contemporâneo, e a solução final carrega marcas evidentes do ideal romântico de redenção. Ainda assim, a força simbólica da obra permanece. Senhora continua importante porque coloca o amor diante de seu maior inimigo: a transformação dos sentimentos em mercadoria.

Ao final, o romance deixa uma impressão poderosa. Mais do que uma história de amor entre Aurélia e Seixas, Senhora é uma crítica à sociedade que atribui preço às pessoas e depois se surpreende quando os sentimentos também passam a ser negociados. É uma leitura fundamental para quem deseja compreender o romantismo brasileiro, mas também para quem se interessa por personagens femininas fortes, relações humanas complexas e pela tensão permanente entre amor, orgulho e dinheiro.

segunda-feira, julho 13, 2026

Samsung Galaxy S24


Quando comprei o meu Galaxy S23 Ultra em 18 de agosto de 2023, escrevi aqui no blog que pretendia ficar com ele por uns quatro ou cinco anos. Pois é... os planos mudaram!

Na verdade, nesses últimos três anos passaram pelas minhas mãos dois Galaxy S23 Ultra. O primeiro foi aquele que comprei em 2023, depois de quase dois anos utilizando o Galaxy Z Fold 3 e decidido a voltar para um celular de formato convencional.

Cerca de um ano atrás, o Banco também me forneceu um S23 Ultra para utilização profissional e, desde então, esse passou a ser o meu aparelho do dia a dia (com isso pude passar o meu S23 Ultra para a minha esposa).

Gostei bastante do S23 Ultra. Foi um celular que me atendeu muito bem e que, se dependesse apenas da minha vontade, provavelmente ainda ficaria comigo por bastante tempo. Depois das experiências com os dobráveis, voltei a gostar da praticidade de um aparelho convencional e a linha Ultra entregava praticamente tudo que eu precisava.

Só que acidentes acontecem!

A tela do S23 Ultra do Banco acabou quebrando e, como o aparelho precisava ser substituído, recebi um novo celular corporativo. Dessa vez, porém, houve uma mudança de modelo: sai o Galaxy S23 Ultra e entra o Samsung Galaxy S24.

É curioso olhar para trás e perceber como a Samsung acabou se tornando uma presença constante na minha história com celulares. Em 2017 abandonei o iPhone e entrei no Android com o Galaxy S8+. Depois vieram o Note 9, o Z Fold 3 e os dois S23 Ultra. Agora é a vez do Galaxy S24 continuar essa sequência.

Diferentemente de várias trocas que registrei aqui no blog, desta vez não houve pesquisa durante semanas, ansiedade pelo lançamento ou aquela vontade de experimentar alguma grande novidade tecnológica. Foi uma troca circunstancial, provocada pela quebra do aparelho anterior. Tanto é que nem tive poder de escolha, pois esse é o modelo que o banco pratica para o cargo que ocupo.

Um downgrade que tive que aceitar foi o tamanho da tela. Esse S24 possui uma tela de 6,2" e desde o Samsung Galaxy S8+ em 2017 eu não tinha uma tela desse tamanho.

Mesmo assim, como faço desde os primeiros anos deste blog, fica registrado mais um capítulo da minha história com os celulares que me acompanham diariamente.

Agora é configurar tudo novamente, acostumar com o novo aparelho e ver por quanto tempo o Galaxy S24 irá me acompanhar!

E que, desta vez, a tela dure bastante!


quarta-feira, julho 08, 2026

As Moradas do Castelo Interior


Há livros que nos conquistam imediatamente. Outros nos desafiam. E há aqueles que, mesmo reconhecendo sua importância, atravessamos com certa dificuldade. Para mim, As Moradas do Castelo Interior (1588), de Santa Teresa d’Ávila (1515-1582), pertence a essa terceira categoria.

Trata-se de uma das grandes obras da espiritualidade cristã, escrita por uma das figuras mais importantes da mística católica. Santa Teresa d’Ávila apresenta a alma humana como um castelo interior, composto por várias moradas, em cujo centro habita Deus. A vida espiritual, nesse sentido, é descrita como uma caminhada para dentro: um percurso de purificação, oração, autoconhecimento e união com Deus.

A imagem é belíssima. A ideia de que a alma possui profundidades desconhecidas, e de que Deus habita no centro mais íntimo do ser humano, é uma das grandes forças do livro. Teresa não trata a fé apenas como prática exterior, cumprimento de deveres ou devoção superficial. Para ela, a verdadeira vida espiritual exige transformação interior, humildade, perseverança e amor concreto.

Ainda assim, confesso que a leitura não me envolveu como eu esperava.

Talvez a dificuldade esteja justamente na profundidade da obra. As Moradas do Castelo Interior não é um livro de leitura simples, nem de compreensão imediata. É uma obra densa, contemplativa, marcada por uma experiência espiritual muito elevada. Em vários momentos, senti que o texto exigia de mim uma maturidade interior, uma familiaridade com a oração mística e uma disposição contemplativa que talvez eu ainda não tivesse no momento da leitura.

Isso não significa que o livro não seja bom. Pelo contrário: sua grandeza é evidente. O problema talvez seja que sua grandeza não se entrega facilmente. Santa Teresa escreve a partir de uma experiência muito íntima com Deus, e nem sempre é simples acompanhar os movimentos espirituais que ela descreve. Algumas passagens são belas e iluminadoras; outras, porém, podem parecer repetitivas, difíceis ou distantes da experiência comum do leitor.

Um dos aspectos mais interessantes da obra é a forma como Teresa associa vida espiritual e autoconhecimento. Para ela, conhecer a Deus e conhecer a si mesmo não são caminhos separados. A alma precisa reconhecer suas misérias, seus enganos, suas distrações e seus apegos para avançar rumo ao centro do castelo. Essa percepção é muito forte e permanece atual. Em uma época tão voltada para o exterior, para a aparência e para a pressa, Teresa nos lembra que existe uma vida interior que precisa ser cultivada.

Outro ponto importante é que a autora não confunde espiritualidade com fuga do mundo. Quanto mais a alma se aproxima de Deus, mais deve crescer em humildade, caridade e serviço. A união com Deus não produz isolamento vaidoso, mas amor concreto. Essa talvez seja uma das mensagens mais bonitas do livro: a oração verdadeira se prova na vida.

Apesar disso, minha experiência pessoal foi de certo distanciamento. Admirei a obra mais do que gostei dela. Reconheci sua importância, mas não consegui criar com o texto uma relação de entusiasmo. Em muitos momentos, tive a sensação de estar diante de uma montanha espiritual muito alta, bela e imponente, mas difícil de escalar.

Talvez As Moradas do Castelo Interior seja um livro para ser lido em outro ritmo, sem pressa, como meditação e não como leitura comum. Talvez seja também uma obra para a qual o leitor precise retornar em outro momento da vida. Há livros que não se esgotam numa primeira leitura — e talvez este seja um deles. Pode ser que, futuramente, com outra disposição interior, eu encontre nele aquilo que agora apenas consegui perceber de longe.

Mesmo não tendo gostado tanto da leitura, considero que vale a pena conhecer a obra. Sua importância espiritual, literária e histórica é inegável. Santa Teresa d’Ávila foi uma mulher extraordinária, capaz de unir profundidade mística, inteligência prática e coragem reformadora em um tempo no qual a voz feminina raramente tinha espaço de autoridade.

As Moradas do Castelo Interior não foi, para mim, uma leitura prazerosa. Foi uma leitura exigente, por vezes árida, mas também respeitável. Talvez eu não tenha entrado tão fundo no castelo quanto gostaria. Ainda assim, saio da leitura com a impressão de ter passado por uma obra maior do que a minha capacidade atual de assimilá-la.

E isso, de certo modo, também diz algo sobre os grandes livros: nem sempre eles existem para nos agradar de imediato. Às vezes, existem para nos mostrar que ainda há profundidades que não alcançamos.

sábado, julho 04, 2026

O Conto da Ilha Desconhecida


Há livros que parecem pequenos apenas no número de páginas. O Conto da Ilha Desconhecida (1997), de José Saramago (1922-2010), é um desses casos: uma narrativa breve, quase uma fábula, mas que carrega dentro de si uma reflexão imensa sobre desejo, coragem, liberdade e autoconhecimento.

A história parte de uma situação simples e simbólica. Um homem vai ao palácio pedir ao rei um barco. Seu objetivo é encontrar uma ilha desconhecida. O rei, representante do poder e da ordem estabelecida, estranha o pedido, pois acredita que todas as ilhas já foram descobertas e registradas nos mapas. Mas o homem insiste. Para ele, ainda existem ilhas desconhecidas ou, ao menos, deve existir uma que valha a pena procurar.

A partir desse ponto, Saramago constrói uma parábola delicada sobre a necessidade humana de buscar aquilo que ainda não foi nomeado. A ilha desconhecida não é apenas um lugar geográfico. Ela representa o sonho, a vocação, a identidade, o amor, a liberdade ou mesmo a parte de nós mesmos que ainda não conhecemos. Procurar a ilha é, no fundo, procurar uma possibilidade de vida que ultrapasse o conforto das certezas prontas.

Como é característico em Saramago, a narrativa tem uma forte dimensão crítica. O palácio, o rei e os funcionários representam uma sociedade burocrática, presa aos protocolos, às autorizações e às verdades oficiais. O homem que pede o barco, por sua vez, desafia essa lógica. Ele não aceita que o mundo esteja definitivamente explicado. Seu gesto é simples, mas profundamente revolucionário: pedir um barco é afirmar que ainda há algo a descobrir.

Outro aspecto muito bonito do conto é a presença da mulher da limpeza. Inicialmente uma figura quase invisível dentro da estrutura do palácio, ela se torna essencial à história. Ao decidir acompanhar o homem, ela também abandona seu lugar determinado e escolhe participar da aventura. Sua presença transforma a busca individual em travessia compartilhada. Saramago parece sugerir que certas descobertas só se tornam verdadeiramente humanas quando encontram companhia, cumplicidade e amor.

A linguagem do conto é ao mesmo tempo simples e sofisticada. Saramago escreve com sua pontuação característica, seus diálogos incorporados ao fluxo do texto e sua ironia sutil. É uma excelente porta de entrada para quem deseja conhecer o autor, pois reúne, em poucas páginas, muitos de seus temas centrais: a crítica ao poder, a valorização dos anônimos, a desconfiança diante das verdades oficiais e a busca por uma existência mais livre.

O grande mérito de O Conto da Ilha Desconhecida está em sua capacidade de permanecer ecoando depois da leitura. O livro não entrega respostas fechadas. Ao contrário, ele nos devolve perguntas: qual é a nossa ilha desconhecida? O que ainda desejamos procurar? Que mapas aceitamos como definitivos? Que portas precisamos bater? Que barco precisamos pedir?

A frase mais marcante da obra — “É necessário sair da ilha para ver a ilha” — resume sua força poética e filosófica. Muitas vezes, só conseguimos compreender quem somos quando nos deslocamos, quando nos afastamos do lugar conhecido, quando ousamos partir. A viagem em direção ao desconhecido é também uma viagem em direção a nós mesmos.

O Conto da Ilha Desconhecida é, portanto, uma obra curta, bela e profunda. Um livro sobre a coragem de desejar algo que o mundo considera impossível; sobre a importância de não aceitar que tudo já esteja mapeado; e sobre a esperança de que, mesmo em uma vida cercada de burocracias e certezas, ainda exista uma ilha à espera de ser descoberta.

Em poucas páginas, Saramago nos lembra que viver é também navegar. E que talvez a maior descoberta não esteja no destino final, mas no gesto de partir.

sexta-feira, julho 03, 2026

Carta aos Jovens Sobre a Utilidade da Literatura Paga


Há livros que surpreendem não pelo tamanho, mas pela permanência de sua pergunta. Carta aos Jovens Sobre a Utilidade da Literatura Pagã (375), de São Basílio (329-379), é uma dessas obras breves que continuam falando ao leitor moderno porque tratam de um problema que atravessa os séculos: como devemos ler aquilo que não nasceu dentro do nosso universo moral, religioso ou intelectual, mas que ainda assim pode nos ensinar algo?

São Basílio, um dos grandes Padres da Igreja do século IV, escreve a jovens cristãos que viviam em contato direto com a cultura clássica greco-romana. A formação intelectual da época passava necessariamente pelos poetas, filósofos, oradores e historiadores pagãos. Era impossível receber uma educação sólida sem atravessar esse patrimônio cultural. Mas surgia daí uma tensão evidente: como um cristão deveria lidar com textos que muitas vezes traziam mitos, valores e comportamentos distantes da fé cristã?

A resposta de Basílio é marcada por equilíbrio e sabedoria. Ele não propõe a rejeição pura e simples da literatura pagã, mas também não recomenda uma leitura ingênua. Seu conselho é que os jovens aprendam a ler com discernimento, recolhendo nos autores antigos aquilo que contribui para a virtude e deixando de lado aquilo que conduz ao vício, à vaidade ou à desordem da alma.

A imagem mais bonita e conhecida do texto é a das abelhas. Assim como elas não pousam em todas as flores nem retiram de todas elas a mesma coisa, o leitor deve saber colher nos livros aquilo que pode ser transformado em alimento interior. Essa comparação resume muito bem o espírito da obra: a leitura não é apenas acúmulo de conhecimento, mas exercício de seleção, formação e amadurecimento.

O que mais chama atenção na obra é a forma como Basílio compreende a literatura. Para ele, os livros não são neutros. Eles educam a imaginação, oferecem modelos de conduta, despertam desejos, moldam critérios e influenciam a maneira como vemos o mundo. Por isso, ler bem é também aprender a viver melhor. A literatura pagã pode ser útil quando apresenta exemplos de coragem, domínio de si, justiça, desprezo pelas riquezas e amor à virtude. Mas deve ser lida com cuidado quando glorifica paixões desordenadas ou oferece modelos incompatíveis com uma vida orientada para o bem.

Essa postura torna o texto surpreendentemente atual. Em um tempo em que somos expostos a uma quantidade imensa de conteúdos, opiniões, narrativas e imagens, a pergunta de Basílio continua necessária: o que estamos permitindo que forme nossa alma? Nem tudo deve ser absorvido. Nem tudo deve ser rejeitado. Entre a censura imediata e o consumo acrítico, existe o caminho mais exigente do discernimento.

A obra também revela algo importante sobre a relação entre cristianismo e cultura clássica. Basílio não trata os autores pagãos como inimigos absolutos, mas como fontes que podem, em certos aspectos, preparar o espírito para verdades mais altas. A fé cristã, para ele, não precisa temer a cultura, desde que saiba julgá-la a partir de um critério superior. Há aqui uma inteligência pedagógica muito fina: antes de condenar ou aceitar tudo, é preciso aprender a distinguir.

Por ser um texto curto, a leitura pode parecer simples à primeira vista. No entanto, sua densidade aparece justamente na capacidade de condensar uma verdadeira teoria cristã da leitura. Basílio nos lembra que ler não é apenas passar os olhos por palavras, nem apenas admirar a beleza de uma obra. Ler é colocar-se diante de exemplos, ideias e imagens que podem contribuir para nossa formação ou para nossa dispersão.

Para quem gosta de literatura clássica, filosofia, cristianismo antigo ou educação moral, Carta aos Jovens Sobre a Utilidade da Literatura Pagã é uma leitura muito valiosa. Não se trata de uma obra grandiosa em extensão, mas de um pequeno tratado de sabedoria. Seu valor está em ensinar uma atitude diante dos livros: ler com abertura, mas também com prudência; admirar a beleza, mas sem perder o juízo; colher o que é bom, mas sem confundir tudo com alimento verdadeiro.

Ao final, São Basílio nos oferece uma lição que ultrapassa seu próprio tempo: o bom leitor não é aquele que lê tudo sem critério, nem aquele que se fecha por medo do mundo. O bom leitor é aquele que, como a abelha, sabe transformar em mel aquilo que encontra de melhor pelo caminho.

quarta-feira, julho 01, 2026

O Encontro Marcado


Há livros que acompanham a trajetória de um personagem. Outros acompanham a formação de uma consciência. O Encontro Marcado, de Fernando Sabino (1923-2004), pertence a essa segunda categoria. Publicado em 1956, o romance narra a vida de Eduardo Marciano, desde a infância em Belo Horizonte até a vida adulta, em um percurso marcado por inquietações, amizades, ambições literárias, conflitos afetivos e uma permanente busca por sentido.

Embora seja frequentemente associado à experiência pessoal do próprio Fernando Sabino, o livro ultrapassa a dimensão autobiográfica. Eduardo Marciano não é apenas um alter ego do autor; é também o retrato de uma geração urbana, intelectualizada e inquieta, formada entre o desejo de grandeza e a dificuldade de amadurecer. Seu drama não está apenas nos acontecimentos exteriores, mas sobretudo na forma como ele os vive: com intensidade, vaidade, culpa, esperança e desencanto.

O romance acompanha Eduardo em sua passagem da infância para a juventude e, depois, para a vida adulta. Desde cedo, ele demonstra sensibilidade, inteligência e desejo de afirmação. Ao lado dos amigos Mauro e Hugo, vive a juventude como uma promessa de excepcionalidade. Há entre eles humor, cumplicidade, debates literários, provocações e uma espécie de fé na própria grandeza futura. Mas essa amizade, ao mesmo tempo em que ilumina o caminho de Eduardo, também reforça suas ilusões.

Um dos aspectos mais interessantes da obra é justamente a maneira como Fernando Sabino trabalha a formação do protagonista sem transformá-lo em herói. Eduardo é talentoso, mas também vaidoso; é sensível, mas muitas vezes autocentrado; deseja profundidade, mas nem sempre consegue distinguir autenticidade de pose. Essa ambiguidade torna o personagem profundamente humano. O leitor pode se irritar com ele, julgá-lo, compreendê-lo e, em certos momentos, reconhecer nele algo de si mesmo.

A literatura ocupa um lugar central no romance. Para Eduardo, escrever não é apenas uma atividade: é vocação, destino, promessa de salvação e também tentação de vaidade. Ele quer ser escritor, mas nem sempre parece disposto a pagar o preço interior dessa vocação.

Outro eixo importante é o conflito entre idealização e realidade. As relações afetivas, especialmente com Antonieta, colocam Eduardo diante da concretude da vida. O amor, o casamento, a responsabilidade e a convivência exigem dele algo que suas abstrações juvenis não conseguem resolver. Se na juventude ele podia viver entre sonhos, frases brilhantes e ambições literárias, a vida adulta cobra escolhas, renúncias e consequências.

O título do livro é um dos seus grandes achados. Afinal, qual é o “encontro marcado”? Com a vocação? Com Deus? Com a maturidade? Com a verdade sobre si mesmo? Com o fracasso? O romance não oferece uma resposta simples. Talvez o encontro seja justamente com aquilo de que Eduardo tenta fugir durante boa parte da vida: a necessidade de se reconhecer sem máscaras, sem poses e sem a proteção das ilusões juvenis.

A força de Fernando Sabino está em escrever sobre temas profundos com uma linguagem clara, fluente e elegante. A prosa não pesa, mas também não é superficial. Há humor, ironia e leveza, mas por baixo dessa aparente simplicidade corre uma inquietação existencial bastante intensa. Sabino consegue construir um romance acessível e, ao mesmo tempo, cheio de camadas.

O grande mérito do romance está em tratar a juventude sem romantizá-la completamente. Sabino mostra seu encanto, sua energia e sua promessa, mas também sua arrogância, sua irresponsabilidade e sua tendência à teatralização da própria dor. Eduardo Marciano é um personagem em busca de grandeza, mas o livro parece sugerir que a verdadeira maturidade começa quando a pessoa abandona a necessidade de parecer extraordinária e aceita a responsabilidade de viver com mais verdade.

O Encontro Marcado é, portanto, uma obra sobre vocação, amizade, culpa, amor, literatura e amadurecimento. Mas, acima de tudo, é um romance sobre a difícil tarefa de tornar-se alguém. Não alguém admirado, celebrado ou excepcional, mas alguém capaz de encarar a própria vida sem fugir dela.

É uma leitura que vale muito a pena, especialmente para quem gosta de romances de formação e de obras que investigam os impasses da alma. Fernando Sabino escreveu um livro profundamente brasileiro e, ao mesmo tempo, universal: a história de um jovem que deseja encontrar seu destino, mas precisa antes enfrentar a si mesmo.

sábado, junho 27, 2026

Picross S Genesis & Master System edition


Antes de seguir para o Picross S8, resolvi fazer uma parada especial na série e jogar o Picross S Genesis & Master System edition, edição temática dedicada aos clássicos consoles da Sega.

Depois de 42 horas de jogo, concluí todos os desafios e fechei mais um capítulo dessa longa sequência de Picross no Nintendo Switch.

Foi uma mudança interessante no caminho entre o Picross S7 e o Picross S8, principalmente pela temática nostálgica ligada ao Mega Drive/Genesis e ao Master System.

Agora sim, próximo destino: Picross S8.

sexta-feira, junho 26, 2026

Excalibur


Todo grande mito precisa de um fim. Mas Bernard Cornwell compreende que o fim de Artur não poderia ser simplesmente a morte de um homem. Precisava ser o desaparecimento de um mundo.

Excalibur (1999), terceiro e último volume de As Crônicas de Artur, encerra uma das mais fascinantes releituras modernas da lenda arturiana. Depois da ascensão apresentada em O Rei do Inverno e das profundas fissuras políticas, religiosas e pessoais de O Inimigo de Deus, chegamos a uma Bretanha ameaçada não apenas pelos saxões, mas pelas consequências de tudo aquilo que seus personagens fizeram ao longo dos livros anteriores.

É o volume mais melancólico da trilogia.

Artur chega ao último livro como um homem diferente daquele que conhecemos inicialmente. Seu grande sonho sempre foi relativamente simples: pacificar os reinos britânicos, garantir o trono de Mordred e construir uma sociedade governada por leis, juramentos e justiça.

Ele conseguiu muitas dessas coisas... e quase todas fracassaram.

Essa talvez seja a maior tragédia de Artur na interpretação de Cornwell: ele não fracassa porque seus ideais sejam desprezíveis, mas porque acredita que homens imperfeitos conseguirão viver de acordo com eles.

Artur é extraordinário no campo de batalha. Consegue inspirar homens, criar estratégias improváveis e conquistar a lealdade daqueles que lutam ao seu lado. Entretanto, sua capacidade militar nunca é suficiente para controlar ambições, paixões, ressentimentos e fanatismos.

Em Excalibur, essa contradição finalmente cobra seu preço.

E é por isso que a grandeza do Artur de Cornwell está justamente em sua humanidade. Não estamos diante de um rei predestinado, protegido pelos deuses e portador de uma espada mágica. Estamos diante de um homem tentando impor alguma ordem a um mundo que parece condenado ao caos.

Ao seu lado continua Derfel Cadarn, talvez o verdadeiro coração de toda a trilogia.

Desde o primeiro livro sabemos que Derfel sobreviverá. O velho monge que escreve secretamente suas memórias já nos revelou isso. Mesmo assim, Cornwell consegue produzir enorme tensão porque aquilo que realmente importa não é saber se Derfel viverá, mas descobrir o que ele perderá para chegar até aquele mosteiro.

E ele perde muito.

É em Excalibur que percebemos plenamente a importância da estrutura narrativa escolhida por Cornwell. O velho Derfel não está apenas contando aventuras de juventude. Está tentando salvar da morte aqueles que amou: Artur, Merlim, Nimue, Ceinwyn e seus companheiros de batalha.

Enquanto escreve seus nomes, eles continuam existindo. A escrita transforma-se, assim, em resistência contra o esquecimento. Isso se conecta diretamente a um dos grandes temas da trilogia: a diferença entre aquilo que aconteceu e aquilo que será lembrado.

Lancelot talvez seja o exemplo mais irônico. Ao longo dos livros acompanhamos um homem cuja reputação frequentemente supera sua coragem. Mas sabemos que a tradição futura o transformará em um dos maiores cavaleiros da história.

Derfel, ao contrário, realizou feitos extraordinários e praticamente desapareceu do imaginário popular.

Cornwell parece nos lembrar que a História não pertence necessariamente àqueles que fizeram grandes coisas. Pertence muitas vezes àqueles cuja história foi contada.

Merlim também encontra neste volume a conclusão de sua grande obsessão: restaurar os antigos deuses da Bretanha.

Desde o início da trilogia ele percebe algo que os outros personagens demoram a compreender. A guerra mais importante talvez não seja entre britânicos e saxões, mas entre dois mundos.

O paganismo está desaparecendo.

O cristianismo está crescendo.

Os antigos rituais, lugares sagrados e deuses pertencem a uma sociedade que está chegando ao fim. Merlim luta contra essa transformação com tudo o que possui e talvez seja justamente por isso que sua trajetória seja tão triste.

Artur luta pelo futuro.

Merlim luta pelo passado.

Derfel fica preso entre os dois.

A religião, aliás, permanece como uma das maiores forças de Excalibur. Cornwell não apresenta simplesmente cristãos maus contra pagãos bons, ou o contrário. O que ele mostra é o perigo que surge quando alguém acredita possuir uma verdade tão absoluta que qualquer violência pode ser justificada para defendê-la.

Nimue representa a face mais extrema dessa transformação.

A menina ferida e determinada que conhecemos em O Rei do Inverno percorre um dos caminhos mais perturbadores da trilogia. Sua devoção aos deuses cresce até ocupar praticamente todo o espaço de sua humanidade.

Sua trajetória levanta uma das perguntas mais desconfortáveis do romance: quanto de nós mesmos podemos sacrificar por aquilo em que acreditamos antes que a própria crença nos destrua?

Enquanto tudo isso acontece, a ameaça saxônica finalmente atinge seu ponto decisivo.

E então chegamos a um dos grandes momentos de toda a trilogia: a batalha de Mynydd Baddon.

Cornwell sempre foi extraordinário escrevendo batalhas, mas aqui ele alcança um de seus melhores resultados. A luta não funciona apenas como espetáculo militar. Tudo o que acompanhamos durante três livros converge para aquele momento.

A política.

As alianças.

As traições.

As amizades.

Os juramentos.

O talento militar de Artur.

A lealdade de Derfel.

A sobrevivência da própria Bretanha.

A batalha é brutal, confusa e desesperadora, exatamente como foram os melhores combates dos livros anteriores. Mas agora existe algo diferente: sabemos que estamos assistindo ao último grande momento de um mundo.

É uma vitória que carrega gosto de despedida.

Essa sensação domina todo o romance.

Excalibur fala constantemente sobre coisas que terminam: amizades, amores, religiões, reinos, sonhos e épocas históricas.

Por isso o livro possui uma tristeza que não existia com a mesma intensidade em O Rei do Inverno. Naquele primeiro volume ainda parecia possível construir alguma coisa. Agora, mesmo quando os personagens vencem, percebemos que determinadas derrotas são inevitáveis.

Roma não voltará.

Os antigos deuses provavelmente não voltarão.

A Bretanha que Artur tentou construir não durará para sempre.

E os homens que viveram aqueles acontecimentos serão substituídos pelas lendas criadas sobre eles.

É justamente nesse ponto que Bernard Cornwell realiza seu maior feito.

Durante três livros, ele retirou de Artur praticamente tudo aquilo que associamos ao mito.

Não há Camelot resplandecente.

Não há cavaleiros em armaduras medievais.

Não há magia incontestável.

Não há um rei perfeito governando uma sociedade ideal.

E, paradoxalmente, ao retirar a lenda, Cornwell faz Artur parecer ainda maior.

Porque seu Artur não precisa ser escolhido pelos deuses. Ele escolhe tentar ser um homem justo.

Não precisa possuir poderes sobrenaturais. Sua capacidade de inspirar outros homens já é extraordinária.

Não precisa construir um reino eterno. Basta que aqueles que lutaram ao seu lado continuem acreditando no que ele tentou construir.

O final de Excalibur preserva ainda uma última e belíssima ambiguidade. Cornwell sabe que explicar completamente o destino de Artur destruiria parte daquilo que torna sua história eterna.

Por isso, depois de centenas de páginas tentando transformar mito em História, ele permite que a História volte a se transformar em mito.

É o encerramento perfeito para a proposta da trilogia.

Quando terminamos Excalibur, finalmente entendemos por que o velho Derfel precisava escrever.

Ele não estava apenas contando a história de Artur.

Estava testemunhando o desaparecimento de seu mundo.

E talvez seja essa a razão pela qual As Crônicas de Artur permaneçam tão marcantes depois da última página. Bernard Cornwell começa perguntando como poderia ter sido o Artur histórico e termina mostrando como um homem histórico poderia ter se tornado lenda.