sábado, agosto 15, 2026

Nós


Nós, de Yevgeny Zamyatin (1884-1937), é uma daquelas obras cuja importância histórica quase corre o risco de eclipsar suas qualidades literárias. Escrito no início da década de 1920 e publicado pela 1ª vez em 1924, pouco depois da Revolução Russa, o romance é frequentemente lembrado como um dos grandes precursores da literatura distópica e como influência decisiva para obras posteriores, sobretudo 1984, de George Orwell. No entanto, reduzi-lo à condição de “antecessor das distopias modernas” seria injusto. Nós permanece uma obra inquietante por mérito próprio, especialmente por sua reflexão sobre liberdade, felicidade, individualidade e os perigos de uma sociedade que pretende transformar a vida humana em uma equação perfeita.

A narrativa é apresentada na forma do diário de D-503, engenheiro e matemático do Estado Único, uma sociedade futura em que praticamente todos os aspectos da existência são regulados. As pessoas não possuem nomes, mas números; vivem em edifícios de vidro; seguem horários rigidamente estabelecidos e estão submetidas a uma autoridade suprema representada pelo Benfeitor. D-503 não percebe inicialmente nada disso como opressão. Pelo contrário: acredita sinceramente viver no ápice da civilização, numa sociedade que finalmente conseguiu substituir a desordem da liberdade pela segurança de uma felicidade racionalmente organizada.

É justamente essa perspectiva que torna o livro tão interessante. Zamyatin não nos apresenta o Estado Único pelos olhos de um rebelde, mas pelos olhos de alguém que acredita profundamente nele. O leitor acompanha, assim, o lento desmoronamento das certezas de D-503 depois que ele conhece I-330, uma mulher misteriosa, provocadora e imprevisível que desperta nele sentimentos que sua lógica matemática é incapaz de explicar. O que começa como atração transforma-se numa verdadeira crise de identidade.

A partir desse ponto, o romance passa a acompanhar menos uma revolução política do que uma revolução interior. D-503 começa a experimentar ciúme, desejo, medo, paixão e imaginação. Em uma das ironias mais marcantes do livro, essas manifestações de interioridade são tratadas como sintomas de uma doença: ele teria desenvolvido uma “alma”. Para o Estado Único, ser plenamente humano é justamente o problema.

Esse é um dos aspectos que mais me impressionaram na leitura. Zamyatin constrói uma sociedade na qual a opressão não se apresenta como crueldade, mas como benevolência. O Estado não afirma querer tornar as pessoas infelizes; pretende fazer exatamente o contrário. Sua justificativa é simples e perturbadora: os seres humanos sofreram durante séculos porque eram livres. A liberdade permitia erros, crimes, conflitos, paixões e decisões equivocadas. A solução encontrada foi eliminar progressivamente a possibilidade de escolha.

O conflito central de Nós, portanto, não é apenas entre liberdade e tirania, mas entre liberdade e felicidade. Zamyatin nos força a considerar uma questão incômoda: se fosse possível construir uma sociedade segura, previsível e relativamente feliz, mas ao custo da individualidade e da autonomia, essa troca seria aceitável?

A matemática ocupa um papel central nessa oposição. Para D-503, linhas retas, números, equações e formas geométricas representam beleza e perfeição. Em contraposição aparecem a natureza, as curvas, o vento, o corpo, o desejo e a imprevisibilidade. Essa simbologia é reforçada pela arquitetura do Estado Único, sobretudo pelos edifícios de vidro, que representam simultaneamente transparência e vigilância. Nada deve permanecer oculto, porque possuir um espaço privado já significa possuir algo que não pertence ao Estado.

Outro símbolo especialmente interessante é o Muro Verde, que separa a cidade racionalizada do mundo exterior. Mais do que uma barreira física, ele divide duas concepções de humanidade: de um lado, ordem, disciplina e previsibilidade; do outro, natureza, instinto e desordem. Zamyatin não romantiza completamente esse mundo exterior, mas deixa claro que a tentativa de eliminar toda a desordem também elimina algo vital.

A própria estrutura do romance acompanha a transformação de D-503. No início, sua escrita é relativamente organizada e confiante. À medida que suas certezas começam a ruir, a prosa se torna cada vez mais fragmentada e nervosa. Em alguns momentos, essa característica torna a leitura deliberadamente confusa. Confesso que houve passagens em que precisei voltar algumas páginas para compreender exatamente o que havia acontecido. Contudo, depois de terminar o livro, percebi que essa dificuldade não é apenas um defeito narrativo: ela reflete o colapso psicológico do protagonista. A linguagem perde a ordem ao mesmo tempo em que D-503 perde sua antiga visão matemática do mundo.

Entre os personagens, I-330 é certamente a presença mais marcante. Mais do que uma simples figura romântica, ela funciona quase como uma força de ruptura. É por meio dela que D-503 entra em contato com o segredo, a desobediência, o desejo e a revolução. Ao mesmo tempo, permanece uma personagem ambígua: nunca sabemos completamente até que ponto seus sentimentos por D-503 são sinceros ou se ele é, em parte, um instrumento para seus objetivos políticos.

O-90, por outro lado, representa uma forma de rebeldia muito diferente. Seu desejo de ter um filho, numa sociedade em que até a reprodução é administrada pelo Estado, transforma uma aspiração íntima em ato político. Esse contraste entre I-330 e O-90 é um dos detalhes que mais enriquecem o romance: uma enfrenta o sistema por meio da revolução organizada; a outra, por meio de um desejo profundamente pessoal.

O desfecho é especialmente sombrio. O Estado percebe que a imaginação é a verdadeira origem da dissidência e desenvolve uma operação destinada a eliminá-la. O resultado é mais perturbador do que uma simples execução: o indivíduo permanece biologicamente vivo, mas aquilo que lhe permitia desejar, imaginar e questionar é destruído. O corpo continua existindo; a pessoa, de certa maneira, não.

Ainda assim, Zamyatin não encerra o livro afirmando simplesmente que o totalitarismo venceu. A resistência continua existindo, e a ordem permanece ameaçada. Essa abertura revela uma das ideias mais importantes do autor: não existe uma última revolução, assim como não existe uma sociedade capaz de encerrar definitivamente a história. Toda ordem que se declara perfeita começa, justamente por isso, a produzir novos dissidentes.

Por ser um dos primeiros grandes romances distópicos do século XX, Nós inevitavelmente lembra 1984 e Admirável Mundo Novo. Mas sua personalidade é bastante própria. Zamyatin é mais experimental, simbólico e filosófico. A obra exige do leitor alguma paciência, principalmente por sua narrativa fragmentada, mas recompensa essa dedicação com questões que continuam extremamente atuais.

O que mais permanece depois da leitura não é exatamente a descrição de um regime político específico, mas uma pergunta sobre a própria condição humana. Talvez uma sociedade pudesse eliminar grande parte da violência, do sofrimento, do risco e da incerteza. Mas, se para isso fosse necessário eliminar também o desejo, o segredo, a imaginação e a possibilidade de errar, ainda poderíamos chamar seus habitantes de verdadeiramente humanos?

Nós é, no fim das contas, um romance sobre o nascimento doloroso do “eu” dentro de uma sociedade que só admite o “nós”. E talvez seja justamente essa tensão — entre a necessidade de pertencer a uma comunidade e a necessidade de continuar sendo uma pessoa singular — que explique por que o livro continua tão provocador mais de um século depois de ter sido escrito.

quinta-feira, agosto 06, 2026

O Sol é Para Todos


Publicado em 1960, O Sol é Para Todos, de Harper Lee (1926-2016), é daqueles livros que conseguem tratar de temas pesados sem perder a delicadeza. Racismo, injustiça, preconceito, pobreza e intolerância atravessam a narrativa, mas tudo é visto, em grande parte, pelos olhos de uma criança. É justamente essa escolha que torna o romance tão poderoso: aquilo que os adultos aprenderam a aceitar como normal surge, para Scout Finch, como algo estranho, contraditório e muitas vezes incompreensível.

A história se passa na pequena cidade fictícia de Maycomb, no Alabama, durante os anos da Grande Depressão. Scout vive com o irmão Jem e com o pai, Atticus Finch, um advogado respeitado da comunidade. Nos primeiros capítulos, o romance parece se concentrar sobretudo nas experiências da infância: brincadeiras, medos, pequenas aventuras e a curiosidade das crianças em torno do misterioso vizinho Boo Radley. Aos poucos, porém, a narrativa muda de tom quando Atticus assume a defesa de Tom Robinson, um homem negro acusado de violentar uma mulher branca.

É a partir daí que Harper Lee revela as estruturas mais profundas de Maycomb. A cidade, aparentemente pacata e organizada, mostra-se sustentada por divisões sociais muito rígidas, preconceitos e uma hierarquia racial praticamente inquestionável. O julgamento de Tom Robinson não representa apenas um caso judicial: ele expõe uma sociedade na qual a verdade pode se tornar secundária quando entra em conflito com preconceitos profundamente arraigados.

Atticus Finch é, sem dúvida, uma das figuras mais marcantes do romance. Sua força não está em grandes discursos ou gestos heroicos, mas na coerência. Ele procura ensinar aos filhos que é necessário compreender as pessoas antes de julgá-las e que agir corretamente continua sendo importante mesmo quando a derrota parece inevitável. Sua concepção de coragem é particularmente interessante: coragem não é vencer, mas permanecer fiel ao que se considera justo mesmo quando todos parecem estar do lado contrário.

No entanto, um dos aspectos mais ricos do livro está justamente na maneira como Scout e Jem observam esse mundo adulto. Conforme crescem, eles percebem que as regras ensinadas pela sociedade nem sempre correspondem à justiça. Pessoas respeitáveis podem agir de maneira covarde; instituições criadas para proteger a verdade podem reproduzir preconceitos; e uma comunidade que se considera civilizada pode tolerar profundas injustiças.

Nesse sentido, O Sol é Para Todos é também um romance sobre a perda da inocência. Scout e Jem passam gradualmente de uma visão infantil relativamente simples para uma compreensão muito mais amarga da sociedade. Crescer significa descobrir que o mundo não funciona necessariamente de acordo com aquilo que deveria ser correto. Mas Harper Lee não transforma essa descoberta em puro pessimismo. Ao lado da intolerância e da violência, existem também dignidade, solidariedade e pessoas dispostas a agir de acordo com a própria consciência.

O simbolismo do título é fundamental para compreender a obra. O título original, To Kill a Mockingbird, remete à ideia de que seria um pecado matar um pássaro que não causa mal e apenas oferece seu canto. Ao longo do livro, essa imagem passa a representar aqueles que são inocentes, frágeis ou injustamente atingidos pela crueldade dos outros. Tom Robinson é a associação mais evidente, mas não a única.

Outro personagem essencial é Boo Radley. Durante boa parte da narrativa, ele existe principalmente na imaginação das crianças, cercado por histórias assustadoras e rumores. A forma como Scout passa a enxergá-lo ao longo do romance funciona quase como um espelho do tema principal da obra: muitas vezes, criamos imagens sobre as pessoas sem realmente conhecê-las. Aprender a enxergar o mundo pela perspectiva do outro é uma das principais lições que Atticus tenta transmitir aos filhos.

Talvez o aspecto mais impressionante de O Sol é Para Todos seja a simplicidade com que coloca questões morais muito profundas. O livro não precisa transformar seus personagens em conceitos ou recorrer a longas reflexões filosóficas. As grandes perguntas aparecem naturalmente na vida cotidiana de Maycomb: o que significa ser justo quando a maioria não é? Até que ponto devemos respeitar uma sociedade cujas regras consideramos erradas? É possível manter a integridade diante da pressão coletiva? E como evitar que nossos próprios preconceitos determinem a maneira como enxergamos os outros?

Harper Lee construiu um romance ao mesmo tempo acessível e profundamente humano. A perspectiva infantil torna a leitura leve em diversos momentos, mas também torna a injustiça ainda mais perturbadora. Quando Scout não consegue compreender determinadas atitudes dos adultos, o leitor é levado a perceber o quanto aquilo que parece absurdo para uma criança pode ter sido naturalizado pela sociedade.

O Sol é Para Todos é, portanto, muito mais do que um romance sobre racismo no sul dos Estados Unidos. É uma obra sobre consciência, empatia e coragem moral. Sobre aprender a olhar para o outro sem os filtros impostos pela comunidade. E, principalmente, sobre a dificuldade de permanecer justo em um mundo no qual a injustiça muitas vezes se apresenta como tradição, costume ou senso comum.

É uma leitura que permanece relevante justamente porque nos obriga a fazer uma pergunta desconfortável: quantas injustiças nós também aprendemos a considerar normais simplesmente porque todos ao nosso redor as aceitam?

terça-feira, julho 28, 2026

A História da Cerveja no Brasil


A História da Cerveja no Brasil: O Legado de Stupakoff e Künning (2024), de Rogério Furtado e Henri Kistler, publicado pela Ateliê Editorial, é daqueles livros cujo título parece dizer exatamente o que encontraremos em suas páginas, mas que, ao final, revela ter contado uma história muito maior. A cerveja é o fio condutor, mas por trás dela surge um amplo retrato da formação da indústria brasileira, da imigração europeia e das profundas transformações econômicas e sociais ocorridas no país entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX.

O grande mérito da obra está justamente em retirar do anonimato personagens que tiveram participação importante nesse processo, particularmente Heinrich Stupakoff e Johann Künning. Ao acompanhar suas trajetórias, percebemos que a história da cerveja brasileira não pode ser reduzida simplesmente ao surgimento das grandes marcas que posteriormente dominaram o mercado. Antes delas existiram empresários, imigrantes, técnicos e comerciantes que precisaram lidar com dificuldades de produção, importação de equipamentos e matérias-primas, tributação, transporte e com um mercado consumidor ainda em formação.

Stupakoff aparece como figura fundamental da indústria cervejeira paulista, especialmente por sua ligação com a Cervejaria Bavaria, posteriormente adquirida pela Antarctica. Künning, por sua vez, tornou-se personagem importante da Brahma e também da própria organização institucional da indústria brasileira, participando de debates empresariais e políticos relacionados à tributação e às condições necessárias ao desenvolvimento industrial do país.

É justamente nesses momentos que o livro se torna particularmente interessante. Aos poucos, percebemos que contar a história de uma cervejaria significa inevitavelmente contar também a história do Brasil. Questões aparentemente prosaicas — como produzir gelo, transportar garrafas, importar cevada, conseguir máquinas ou pagar impostos — revelam os enormes desafios enfrentados por quem pretendia estabelecer uma atividade industrial em um país que ainda construía sua infraestrutura e passava da economia predominantemente agrária para uma sociedade cada vez mais urbana e industrializada.

Outro aspecto interessante é perceber como o hábito brasileiro de consumir cerveja foi sendo construído. A bebida que hoje parece completamente incorporada à cultura nacional atravessou diferentes fases, desde a predominância das cervejas importadas até o estabelecimento da produção nacional em escala industrial. A influência dos imigrantes, especialmente alemães, as mudanças tecnológicas e a crescente preferência pelas cervejas de baixa fermentação ajudam a explicar a transformação não apenas da indústria, mas também do próprio gosto dos consumidores brasileiros.

O trabalho de pesquisa realizado pelos autores merece destaque. Fotografias, documentos, anúncios, registros empresariais e personagens pouco conhecidos ajudam a reconstruir um universo que poderia facilmente ter desaparecido da memória. Esse caráter documental é uma das maiores qualidades do livro e provavelmente será especialmente apreciado por quem gosta de história econômica, empresarial ou da própria formação de São Paulo e do Rio de Janeiro.

Por outro lado, essa mesma riqueza de informações pode tornar alguns trechos mais densos. Quem procurar uma narrativa leve ou uma história geral e cronológica de todas as cervejarias brasileiras talvez encontre uma obra diferente da imaginada. O subtítulo — “O legado de Stupakoff e Künning” — é importante para compreender sua proposta: trata-se menos de uma enciclopédia completa da cerveja brasileira e mais de uma investigação histórica conduzida principalmente a partir desses dois personagens e das empresas e instituições que gravitaram ao seu redor.

E talvez seja exatamente essa escolha que dê personalidade ao livro. Em vez de repetir apenas a história das marcas que sobreviveram, os autores voltam sua atenção para pessoas, empresas e acontecimentos que acabaram obscurecidos pelo tempo. Com isso, mostram que as grandes companhias que conhecemos hoje não surgiram prontas: foram resultado de uma longa sucessão de iniciativas empresariais, incorporações, disputas comerciais, avanços tecnológicos e mudanças econômicas.

Para quem aprecia cerveja, é uma leitura especialmente prazerosa porque acrescenta uma dimensão histórica àquilo que encontramos hoje em uma simples garrafa ou copo. Depois da leitura, nomes como Brahma, Antarctica e Bavaria deixam de ser apenas marcas e passam a representar capítulos de uma história muito mais ampla de empreendedorismo, imigração, industrialização e transformação dos hábitos brasileiros.

Mas considero que o maior mérito de A História da Cerveja no Brasil seja justamente conseguir interessar mesmo além do universo cervejeiro. No fundo, é um livro sobre pessoas tentando construir empresas e instituições em um país que também estava tentando construir a si próprio.

A cerveja está em praticamente todas as páginas, mas, quando fechamos o livro, percebemos que aprendemos muito mais sobre o Brasil do que apenas sobre cerveja.

domingo, julho 26, 2026

Catedral Metropolitana Nossa Senhora Aparecida


Durante minha passagem por Cascavel/PR tive a oportunidade de participar de uma celebração de missa na Catedral Metropolitana Nossa Senhora Aparecida, localizada no centro da cidade. Além da experiência religiosa, a visita despertou minha curiosidade sobre a história daquele templo de arquitetura tão peculiar e sobre sua importância para a formação de Cascavel.

Ao pesquisar um pouco mais, descobri que a história da Catedral está profundamente ligada ao próprio desenvolvimento da cidade e da Igreja Católica no Oeste do Paraná.

A história da comunidade católica que daria origem à atual Catedral remonta ao início da década de 1950. A Paróquia Nossa Senhora Aparecida foi criada em 10 de junho de 1952, justamente no período em que Cascavel consolidava sua organização como município. A emancipação política da cidade também ocorreu naquele ano, o que mostra como a trajetória da paróquia praticamente acompanhou o nascimento e o crescimento da própria Cascavel.

A primeira sede paroquial não correspondia, entretanto, ao edifício que vemos atualmente. Nos primeiros anos, a comunidade funcionou em outro ponto da cidade e passou por diferentes estruturas até que, em 1959, a sede paroquial fosse transferida para o terreno onde hoje se encontra a Catedral.

O primeiro responsável pela comunidade paroquial foi padre Luis Luíze, que esteve à frente da paróquia entre 1952 e 1953.

Anos depois, em 1962, Nossa Senhora Aparecida foi oficialmente reconhecida como padroeira do município de Cascavel.

Um dos aspectos mais interessantes da história da Catedral é perceber que sua importância não ficou restrita à dimensão religiosa.

Na época em que se discutia a localização da nova Igreja Matriz, Cascavel ainda estava em processo acelerado de expansão urbana. A região escolhida para a nova sede paroquial integrava o chamado “Patrimônio Novo”, uma área que começava a ganhar importância em relação ao antigo núcleo da cidade.

A instalação da igreja naquele ponto contribuiu para atrair movimento e consolidar aquela região como um novo centro urbano.

Dessa forma, a história da Paróquia Nossa Senhora Aparecida e a própria história do desenvolvimento de Cascavel acabaram caminhando juntas. A igreja tornou-se não apenas um lugar de culto, mas também um importante ponto de referência para a população.

O edifício que atualmente abriga a Catedral começou a tomar forma na década de 1960. Em 1966, o arquiteto Gustavo Gama Monteiro foi responsável pelo projeto da nova Igreja Matriz.

Diferentemente de muitas igrejas históricas brasileiras construídas diretamente por ordens religiosas, como franciscanos, carmelitas ou jesuítas, a atual Catedral de Cascavel não está vinculada à construção por uma congregação religiosa específica.

Religiosos de diferentes congregações participaram da vida pastoral da comunidade ao longo dos anos, inclusive padres da Congregação do Verbo Divino, mas a construção da atual igreja deve ser compreendida principalmente como uma iniciativa da Igreja local, de seus sacerdotes e da própria comunidade cascavelense.

A participação da população foi, inclusive, fundamental para viabilizar a obra.

Há registros de que madeireiras da região doaram madeira, posteriormente comercializada para ajudar na arrecadação dos recursos destinados à construção. Esse aspecto revela muito sobre Cascavel daquele período, quando a atividade madeireira ainda desempenhava papel importante na economia regional.

A cronologia da construção possui algumas pequenas diferenças entre as fontes históricas, principalmente porque há datas distintas relacionadas ao projeto, ao início das obras, às primeiras celebrações e à inauguração definitiva.

De forma geral, é possível estabelecer os seguintes marcos:

  • O projeto arquitetônico foi elaborado em 1966.
  • Na década seguinte, em 1974, as obras do novo templo já estavam em andamento e ocorreu a primeira celebração de missa no edifício ainda em construção.
  • A inauguração oficial aconteceu em 1976, quando o templo ainda possuía a condição de Igreja Matriz Nossa Senhora Aparecida.

A arquitetura é certamente um dos elementos que mais chamam atenção de quem visita a Catedral. O edifício rompe bastante com o modelo tradicional das igrejas brasileiras, especialmente aquelas marcadas por torres, fachadas ornamentadas e elementos coloniais ou neogóticos.

A Catedral de Cascavel apresenta uma arquitetura moderna, fortemente baseada no uso do concreto armado. Sua cobertura é formada por 18 grandes gomos de concreto apoiados em 18 colunas, criando uma estrutura que se abre em diferentes direções.

A concepção arquitetônica está diretamente relacionada à padroeira. O formato procura representar simbolicamente o manto e a coroa de Nossa Senhora Aparecida.

Há inclusive um relato relacionado à concepção do projeto segundo o qual Dom Armando Círio teria colocado uma imagem de Nossa Senhora Aparecida sobre uma mesa e solicitado que o arquiteto utilizasse aquela forma como inspiração para o desenho do novo templo.

Observada principalmente de cima, essa referência ao manto da Virgem torna-se ainda mais perceptível.

Quando foi inaugurada, em 1976, a igreja ainda era oficialmente a Matriz Nossa Senhora Aparecida. Isso mudaria apenas dois anos depois.

Em 5 de maio de 1978, o Papa Paulo VI criou oficialmente a Diocese de Cascavel. Com isso, a antiga Igreja Matriz passou à condição de Catedral, tornando-se a igreja onde está localizada a cátedra do bispo. O primeiro bispo da nova Diocese foi Dom Armando Círio, que tomou posse naquele mesmo ano.

Em 16 de outubro de 1979, durante o pontificado do Papa João Paulo II, Cascavel foi elevada à condição de Arquidiocese Metropolitana.

A igreja passou então a ser oficialmente denominada Catedral Metropolitana Nossa Senhora Aparecida, enquanto Dom Armando Círio tornou-se o primeiro arcebispo metropolitano de Cascavel.

A partir daquele momento, a Catedral passou a ocupar uma posição ainda mais relevante na estrutura da Igreja Católica no Oeste do Paraná.

A Catedral Nossa Senhora Aparecida possui importância que ultrapassa os limites da própria cidade de Cascavel. Como sede da Arquidiocese, ela ocupa uma posição central na organização da Igreja Católica em uma ampla região do Paraná.

Além do próprio templo, o conjunto possui importantes elementos artísticos e religiosos. Entre eles está a representação das grandes mãos que oferecem a imagem de Nossa Senhora Aparecida diante da Catedral, além de esculturas associadas ao artista cascavelense Dirceu Rosa.

O interior da igreja também chama atenção pelo contraste entre a força estrutural do concreto e os elementos que compõem o espaço litúrgico, como os vitrais, o altar e as representações religiosas.

Conhecer previamente ou posteriormente a história de uma igreja acaba transformando também a maneira como enxergamos aquele espaço.

Participar de uma missa na Catedral Metropolitana Nossa Senhora Aparecida foi, para mim, não apenas uma experiência religiosa, mas também uma oportunidade de estar em um lugar profundamente ligado à memória de Cascavel.

Aquela grande estrutura de concreto no centro da cidade representa mais do que um projeto arquitetônico incomum. Ela reúne a história de uma comunidade, o crescimento de uma cidade e a consolidação da presença da Igreja Católica no Oeste do Paraná.

É interessante pensar que a paróquia surgiu praticamente junto com o município e que, ao longo de poucas décadas, aquela pequena comunidade se transformaria na sede de uma Arquidiocese Metropolitana.

Assim, ao entrar na Catedral para participar de uma celebração, estamos também entrando em um espaço que testemunhou boa parte da própria história de Cascavel.

E talvez seja justamente essa união entre fé, arquitetura, memória e identidade local que torne a Catedral Nossa Senhora Aparecida um lugar tão especial para a cidade e para toda a região.

sexta-feira, julho 17, 2026

Senhora


Publicado em 1875, Senhora, de José de Alencar (1829-1877), é um dos grandes romances urbanos do romantismo brasileiro. Mais conhecido por obras indianistas como O Guarani e Iracema, Alencar mostra aqui outra face de seu projeto literário: a observação da sociedade carioca do século XIX, com seus salões, bailes, convenções, casamentos arranjados e jogos de aparência.

A protagonista, Aurélia Camargo, é uma das personagens femininas mais marcantes da literatura brasileira. Órfã e inicialmente pobre, ela conhece o desprezo de uma sociedade que mede as pessoas pelo dinheiro e pela posição. Quando recebe uma grande herança, sua condição muda radicalmente. Rica, admirada e disputada, Aurélia decide usar o próprio mecanismo que a feriu: transforma o casamento em uma negociação e “compra” Fernando Seixas, o homem que a havia abandonado por interesse financeiro.

A grande força do romance está justamente nessa inversão. Em uma sociedade na qual as mulheres frequentemente eram tratadas como peças de troca em acordos familiares e econômicos, Aurélia assume o papel de quem negocia, decide e impõe condições. Sua atitude, ao mesmo tempo corajosa e cruel, revela a hipocrisia do mundo em que vive. Se todos tratam o casamento como negócio, ela apenas escancara essa lógica até suas últimas consequências.

Fernando Seixas, por sua vez, é um personagem moralmente ambíguo. Não é simplesmente um vilão, mas um homem fraco diante das pressões sociais. Vaidoso, elegante e preocupado com a aparência, ele se deixa seduzir por um mundo em que prestígio e dinheiro parecem valer mais do que sentimento e dignidade. Sua trajetória no romance é também uma tentativa de reconquista de si mesmo.

A estrutura da obra reforça sua crítica social. As partes do livro recebem títulos como “O Preço”, “Quitação”, “Posse” e “Resgate”, termos que pertencem ao universo econômico. Alencar constrói, assim, uma metáfora clara: naquela sociedade, até o amor parece submetido às regras do mercado. O casamento, que deveria ser expressão de afeto e compromisso, aparece contaminado por cálculo, orgulho, interesse e vaidade.

Embora seja uma obra romântica, Senhora não se limita ao sentimentalismo. Há idealização, há drama amoroso e há redenção moral, elementos típicos do romantismo. Mas há também uma observação crítica bastante aguda da sociedade brasileira do Segundo Reinado. O romance expõe o modo como a aparência social, o patrimônio e a reputação determinavam destinos, especialmente no caso das mulheres.

Aurélia é uma personagem fascinante justamente por suas contradições. Ela é inteligente, altiva, generosa, ferida, orgulhosa e vingativa. Seu sofrimento não a torna passiva; ao contrário, ela reage. Mas sua reação também a aprisiona, pois transforma o amor em disputa de poder. O drama de Aurélia está em descobrir que vencer socialmente não significa necessariamente alcançar paz interior.

Ler Senhora hoje é perceber como certas questões continuam atuais. Ainda vivemos em uma sociedade na qual relações afetivas podem ser atravessadas por interesse, status, poder econômico e expectativas externas. A pergunta central do romance permanece viva: é possível amar verdadeiramente quando o outro é tratado como posse, conquista ou compensação para uma ferida antiga?

José de Alencar talvez não tenha escrito um romance perfeito. Em alguns momentos, a linguagem pode soar excessivamente ornamentada ao leitor contemporâneo, e a solução final carrega marcas evidentes do ideal romântico de redenção. Ainda assim, a força simbólica da obra permanece. Senhora continua importante porque coloca o amor diante de seu maior inimigo: a transformação dos sentimentos em mercadoria.

Ao final, o romance deixa uma impressão poderosa. Mais do que uma história de amor entre Aurélia e Seixas, Senhora é uma crítica à sociedade que atribui preço às pessoas e depois se surpreende quando os sentimentos também passam a ser negociados. É uma leitura fundamental para quem deseja compreender o romantismo brasileiro, mas também para quem se interessa por personagens femininas fortes, relações humanas complexas e pela tensão permanente entre amor, orgulho e dinheiro.

segunda-feira, julho 13, 2026

Samsung Galaxy S24


Quando comprei o meu Galaxy S23 Ultra em 18 de agosto de 2023, escrevi aqui no blog que pretendia ficar com ele por uns quatro ou cinco anos. Pois é... os planos mudaram!

Na verdade, nesses últimos três anos passaram pelas minhas mãos dois Galaxy S23 Ultra. O primeiro foi aquele que comprei em 2023, depois de quase dois anos utilizando o Galaxy Z Fold 3 e decidido a voltar para um celular de formato convencional.

Cerca de um ano atrás, o Banco também me forneceu um S23 Ultra para utilização profissional e, desde então, esse passou a ser o meu aparelho do dia a dia (com isso pude passar o meu S23 Ultra para a minha esposa).

Gostei bastante do S23 Ultra. Foi um celular que me atendeu muito bem e que, se dependesse apenas da minha vontade, provavelmente ainda ficaria comigo por bastante tempo. Depois das experiências com os dobráveis, voltei a gostar da praticidade de um aparelho convencional e a linha Ultra entregava praticamente tudo que eu precisava.

Só que acidentes acontecem!

A tela do S23 Ultra do Banco acabou quebrando e, como o aparelho precisava ser substituído, recebi um novo celular corporativo. Dessa vez, porém, houve uma mudança de modelo: sai o Galaxy S23 Ultra e entra o Samsung Galaxy S24.

É curioso olhar para trás e perceber como a Samsung acabou se tornando uma presença constante na minha história com celulares. Em 2017 abandonei o iPhone e entrei no Android com o Galaxy S8+. Depois vieram o Note 9, o Z Fold 3 e os dois S23 Ultra. Agora é a vez do Galaxy S24 continuar essa sequência.

Diferentemente de várias trocas que registrei aqui no blog, desta vez não houve pesquisa durante semanas, ansiedade pelo lançamento ou aquela vontade de experimentar alguma grande novidade tecnológica. Foi uma troca circunstancial, provocada pela quebra do aparelho anterior. Tanto é que nem tive poder de escolha, pois esse é o modelo que o banco pratica para o cargo que ocupo.

Um downgrade que tive que aceitar foi o tamanho da tela. Esse S24 possui uma tela de 6,2" e desde o Samsung Galaxy S8+ em 2017 eu não tinha uma tela desse tamanho.

Mesmo assim, como faço desde os primeiros anos deste blog, fica registrado mais um capítulo da minha história com os celulares que me acompanham diariamente.

Agora é configurar tudo novamente, acostumar com o novo aparelho e ver por quanto tempo o Galaxy S24 irá me acompanhar!

E que, desta vez, a tela dure bastante!


quarta-feira, julho 08, 2026

As Moradas do Castelo Interior


Há livros que nos conquistam imediatamente. Outros nos desafiam. E há aqueles que, mesmo reconhecendo sua importância, atravessamos com certa dificuldade. Para mim, As Moradas do Castelo Interior (1588), de Santa Teresa d’Ávila (1515-1582), pertence a essa terceira categoria.

Trata-se de uma das grandes obras da espiritualidade cristã, escrita por uma das figuras mais importantes da mística católica. Santa Teresa d’Ávila apresenta a alma humana como um castelo interior, composto por várias moradas, em cujo centro habita Deus. A vida espiritual, nesse sentido, é descrita como uma caminhada para dentro: um percurso de purificação, oração, autoconhecimento e união com Deus.

A imagem é belíssima. A ideia de que a alma possui profundidades desconhecidas, e de que Deus habita no centro mais íntimo do ser humano, é uma das grandes forças do livro. Teresa não trata a fé apenas como prática exterior, cumprimento de deveres ou devoção superficial. Para ela, a verdadeira vida espiritual exige transformação interior, humildade, perseverança e amor concreto.

Ainda assim, confesso que a leitura não me envolveu como eu esperava.

Talvez a dificuldade esteja justamente na profundidade da obra. As Moradas do Castelo Interior não é um livro de leitura simples, nem de compreensão imediata. É uma obra densa, contemplativa, marcada por uma experiência espiritual muito elevada. Em vários momentos, senti que o texto exigia de mim uma maturidade interior, uma familiaridade com a oração mística e uma disposição contemplativa que talvez eu ainda não tivesse no momento da leitura.

Isso não significa que o livro não seja bom. Pelo contrário: sua grandeza é evidente. O problema talvez seja que sua grandeza não se entrega facilmente. Santa Teresa escreve a partir de uma experiência muito íntima com Deus, e nem sempre é simples acompanhar os movimentos espirituais que ela descreve. Algumas passagens são belas e iluminadoras; outras, porém, podem parecer repetitivas, difíceis ou distantes da experiência comum do leitor.

Um dos aspectos mais interessantes da obra é a forma como Teresa associa vida espiritual e autoconhecimento. Para ela, conhecer a Deus e conhecer a si mesmo não são caminhos separados. A alma precisa reconhecer suas misérias, seus enganos, suas distrações e seus apegos para avançar rumo ao centro do castelo. Essa percepção é muito forte e permanece atual. Em uma época tão voltada para o exterior, para a aparência e para a pressa, Teresa nos lembra que existe uma vida interior que precisa ser cultivada.

Outro ponto importante é que a autora não confunde espiritualidade com fuga do mundo. Quanto mais a alma se aproxima de Deus, mais deve crescer em humildade, caridade e serviço. A união com Deus não produz isolamento vaidoso, mas amor concreto. Essa talvez seja uma das mensagens mais bonitas do livro: a oração verdadeira se prova na vida.

Apesar disso, minha experiência pessoal foi de certo distanciamento. Admirei a obra mais do que gostei dela. Reconheci sua importância, mas não consegui criar com o texto uma relação de entusiasmo. Em muitos momentos, tive a sensação de estar diante de uma montanha espiritual muito alta, bela e imponente, mas difícil de escalar.

Talvez As Moradas do Castelo Interior seja um livro para ser lido em outro ritmo, sem pressa, como meditação e não como leitura comum. Talvez seja também uma obra para a qual o leitor precise retornar em outro momento da vida. Há livros que não se esgotam numa primeira leitura — e talvez este seja um deles. Pode ser que, futuramente, com outra disposição interior, eu encontre nele aquilo que agora apenas consegui perceber de longe.

Mesmo não tendo gostado tanto da leitura, considero que vale a pena conhecer a obra. Sua importância espiritual, literária e histórica é inegável. Santa Teresa d’Ávila foi uma mulher extraordinária, capaz de unir profundidade mística, inteligência prática e coragem reformadora em um tempo no qual a voz feminina raramente tinha espaço de autoridade.

As Moradas do Castelo Interior não foi, para mim, uma leitura prazerosa. Foi uma leitura exigente, por vezes árida, mas também respeitável. Talvez eu não tenha entrado tão fundo no castelo quanto gostaria. Ainda assim, saio da leitura com a impressão de ter passado por uma obra maior do que a minha capacidade atual de assimilá-la.

E isso, de certo modo, também diz algo sobre os grandes livros: nem sempre eles existem para nos agradar de imediato. Às vezes, existem para nos mostrar que ainda há profundidades que não alcançamos.

sábado, julho 04, 2026

O Conto da Ilha Desconhecida


Há livros que parecem pequenos apenas no número de páginas. O Conto da Ilha Desconhecida (1997), de José Saramago (1922-2010), é um desses casos: uma narrativa breve, quase uma fábula, mas que carrega dentro de si uma reflexão imensa sobre desejo, coragem, liberdade e autoconhecimento.

A história parte de uma situação simples e simbólica. Um homem vai ao palácio pedir ao rei um barco. Seu objetivo é encontrar uma ilha desconhecida. O rei, representante do poder e da ordem estabelecida, estranha o pedido, pois acredita que todas as ilhas já foram descobertas e registradas nos mapas. Mas o homem insiste. Para ele, ainda existem ilhas desconhecidas ou, ao menos, deve existir uma que valha a pena procurar.

A partir desse ponto, Saramago constrói uma parábola delicada sobre a necessidade humana de buscar aquilo que ainda não foi nomeado. A ilha desconhecida não é apenas um lugar geográfico. Ela representa o sonho, a vocação, a identidade, o amor, a liberdade ou mesmo a parte de nós mesmos que ainda não conhecemos. Procurar a ilha é, no fundo, procurar uma possibilidade de vida que ultrapasse o conforto das certezas prontas.

Como é característico em Saramago, a narrativa tem uma forte dimensão crítica. O palácio, o rei e os funcionários representam uma sociedade burocrática, presa aos protocolos, às autorizações e às verdades oficiais. O homem que pede o barco, por sua vez, desafia essa lógica. Ele não aceita que o mundo esteja definitivamente explicado. Seu gesto é simples, mas profundamente revolucionário: pedir um barco é afirmar que ainda há algo a descobrir.

Outro aspecto muito bonito do conto é a presença da mulher da limpeza. Inicialmente uma figura quase invisível dentro da estrutura do palácio, ela se torna essencial à história. Ao decidir acompanhar o homem, ela também abandona seu lugar determinado e escolhe participar da aventura. Sua presença transforma a busca individual em travessia compartilhada. Saramago parece sugerir que certas descobertas só se tornam verdadeiramente humanas quando encontram companhia, cumplicidade e amor.

A linguagem do conto é ao mesmo tempo simples e sofisticada. Saramago escreve com sua pontuação característica, seus diálogos incorporados ao fluxo do texto e sua ironia sutil. É uma excelente porta de entrada para quem deseja conhecer o autor, pois reúne, em poucas páginas, muitos de seus temas centrais: a crítica ao poder, a valorização dos anônimos, a desconfiança diante das verdades oficiais e a busca por uma existência mais livre.

O grande mérito de O Conto da Ilha Desconhecida está em sua capacidade de permanecer ecoando depois da leitura. O livro não entrega respostas fechadas. Ao contrário, ele nos devolve perguntas: qual é a nossa ilha desconhecida? O que ainda desejamos procurar? Que mapas aceitamos como definitivos? Que portas precisamos bater? Que barco precisamos pedir?

A frase mais marcante da obra — “É necessário sair da ilha para ver a ilha” — resume sua força poética e filosófica. Muitas vezes, só conseguimos compreender quem somos quando nos deslocamos, quando nos afastamos do lugar conhecido, quando ousamos partir. A viagem em direção ao desconhecido é também uma viagem em direção a nós mesmos.

O Conto da Ilha Desconhecida é, portanto, uma obra curta, bela e profunda. Um livro sobre a coragem de desejar algo que o mundo considera impossível; sobre a importância de não aceitar que tudo já esteja mapeado; e sobre a esperança de que, mesmo em uma vida cercada de burocracias e certezas, ainda exista uma ilha à espera de ser descoberta.

Em poucas páginas, Saramago nos lembra que viver é também navegar. E que talvez a maior descoberta não esteja no destino final, mas no gesto de partir.

sexta-feira, julho 03, 2026

Carta aos Jovens Sobre a Utilidade da Literatura Paga


Há livros que surpreendem não pelo tamanho, mas pela permanência de sua pergunta. Carta aos Jovens Sobre a Utilidade da Literatura Pagã (375), de São Basílio (329-379), é uma dessas obras breves que continuam falando ao leitor moderno porque tratam de um problema que atravessa os séculos: como devemos ler aquilo que não nasceu dentro do nosso universo moral, religioso ou intelectual, mas que ainda assim pode nos ensinar algo?

São Basílio, um dos grandes Padres da Igreja do século IV, escreve a jovens cristãos que viviam em contato direto com a cultura clássica greco-romana. A formação intelectual da época passava necessariamente pelos poetas, filósofos, oradores e historiadores pagãos. Era impossível receber uma educação sólida sem atravessar esse patrimônio cultural. Mas surgia daí uma tensão evidente: como um cristão deveria lidar com textos que muitas vezes traziam mitos, valores e comportamentos distantes da fé cristã?

A resposta de Basílio é marcada por equilíbrio e sabedoria. Ele não propõe a rejeição pura e simples da literatura pagã, mas também não recomenda uma leitura ingênua. Seu conselho é que os jovens aprendam a ler com discernimento, recolhendo nos autores antigos aquilo que contribui para a virtude e deixando de lado aquilo que conduz ao vício, à vaidade ou à desordem da alma.

A imagem mais bonita e conhecida do texto é a das abelhas. Assim como elas não pousam em todas as flores nem retiram de todas elas a mesma coisa, o leitor deve saber colher nos livros aquilo que pode ser transformado em alimento interior. Essa comparação resume muito bem o espírito da obra: a leitura não é apenas acúmulo de conhecimento, mas exercício de seleção, formação e amadurecimento.

O que mais chama atenção na obra é a forma como Basílio compreende a literatura. Para ele, os livros não são neutros. Eles educam a imaginação, oferecem modelos de conduta, despertam desejos, moldam critérios e influenciam a maneira como vemos o mundo. Por isso, ler bem é também aprender a viver melhor. A literatura pagã pode ser útil quando apresenta exemplos de coragem, domínio de si, justiça, desprezo pelas riquezas e amor à virtude. Mas deve ser lida com cuidado quando glorifica paixões desordenadas ou oferece modelos incompatíveis com uma vida orientada para o bem.

Essa postura torna o texto surpreendentemente atual. Em um tempo em que somos expostos a uma quantidade imensa de conteúdos, opiniões, narrativas e imagens, a pergunta de Basílio continua necessária: o que estamos permitindo que forme nossa alma? Nem tudo deve ser absorvido. Nem tudo deve ser rejeitado. Entre a censura imediata e o consumo acrítico, existe o caminho mais exigente do discernimento.

A obra também revela algo importante sobre a relação entre cristianismo e cultura clássica. Basílio não trata os autores pagãos como inimigos absolutos, mas como fontes que podem, em certos aspectos, preparar o espírito para verdades mais altas. A fé cristã, para ele, não precisa temer a cultura, desde que saiba julgá-la a partir de um critério superior. Há aqui uma inteligência pedagógica muito fina: antes de condenar ou aceitar tudo, é preciso aprender a distinguir.

Por ser um texto curto, a leitura pode parecer simples à primeira vista. No entanto, sua densidade aparece justamente na capacidade de condensar uma verdadeira teoria cristã da leitura. Basílio nos lembra que ler não é apenas passar os olhos por palavras, nem apenas admirar a beleza de uma obra. Ler é colocar-se diante de exemplos, ideias e imagens que podem contribuir para nossa formação ou para nossa dispersão.

Para quem gosta de literatura clássica, filosofia, cristianismo antigo ou educação moral, Carta aos Jovens Sobre a Utilidade da Literatura Pagã é uma leitura muito valiosa. Não se trata de uma obra grandiosa em extensão, mas de um pequeno tratado de sabedoria. Seu valor está em ensinar uma atitude diante dos livros: ler com abertura, mas também com prudência; admirar a beleza, mas sem perder o juízo; colher o que é bom, mas sem confundir tudo com alimento verdadeiro.

Ao final, São Basílio nos oferece uma lição que ultrapassa seu próprio tempo: o bom leitor não é aquele que lê tudo sem critério, nem aquele que se fecha por medo do mundo. O bom leitor é aquele que, como a abelha, sabe transformar em mel aquilo que encontra de melhor pelo caminho.

quarta-feira, julho 01, 2026

O Encontro Marcado


Há livros que acompanham a trajetória de um personagem. Outros acompanham a formação de uma consciência. O Encontro Marcado, de Fernando Sabino (1923-2004), pertence a essa segunda categoria. Publicado em 1956, o romance narra a vida de Eduardo Marciano, desde a infância em Belo Horizonte até a vida adulta, em um percurso marcado por inquietações, amizades, ambições literárias, conflitos afetivos e uma permanente busca por sentido.

Embora seja frequentemente associado à experiência pessoal do próprio Fernando Sabino, o livro ultrapassa a dimensão autobiográfica. Eduardo Marciano não é apenas um alter ego do autor; é também o retrato de uma geração urbana, intelectualizada e inquieta, formada entre o desejo de grandeza e a dificuldade de amadurecer. Seu drama não está apenas nos acontecimentos exteriores, mas sobretudo na forma como ele os vive: com intensidade, vaidade, culpa, esperança e desencanto.

O romance acompanha Eduardo em sua passagem da infância para a juventude e, depois, para a vida adulta. Desde cedo, ele demonstra sensibilidade, inteligência e desejo de afirmação. Ao lado dos amigos Mauro e Hugo, vive a juventude como uma promessa de excepcionalidade. Há entre eles humor, cumplicidade, debates literários, provocações e uma espécie de fé na própria grandeza futura. Mas essa amizade, ao mesmo tempo em que ilumina o caminho de Eduardo, também reforça suas ilusões.

Um dos aspectos mais interessantes da obra é justamente a maneira como Fernando Sabino trabalha a formação do protagonista sem transformá-lo em herói. Eduardo é talentoso, mas também vaidoso; é sensível, mas muitas vezes autocentrado; deseja profundidade, mas nem sempre consegue distinguir autenticidade de pose. Essa ambiguidade torna o personagem profundamente humano. O leitor pode se irritar com ele, julgá-lo, compreendê-lo e, em certos momentos, reconhecer nele algo de si mesmo.

A literatura ocupa um lugar central no romance. Para Eduardo, escrever não é apenas uma atividade: é vocação, destino, promessa de salvação e também tentação de vaidade. Ele quer ser escritor, mas nem sempre parece disposto a pagar o preço interior dessa vocação.

Outro eixo importante é o conflito entre idealização e realidade. As relações afetivas, especialmente com Antonieta, colocam Eduardo diante da concretude da vida. O amor, o casamento, a responsabilidade e a convivência exigem dele algo que suas abstrações juvenis não conseguem resolver. Se na juventude ele podia viver entre sonhos, frases brilhantes e ambições literárias, a vida adulta cobra escolhas, renúncias e consequências.

O título do livro é um dos seus grandes achados. Afinal, qual é o “encontro marcado”? Com a vocação? Com Deus? Com a maturidade? Com a verdade sobre si mesmo? Com o fracasso? O romance não oferece uma resposta simples. Talvez o encontro seja justamente com aquilo de que Eduardo tenta fugir durante boa parte da vida: a necessidade de se reconhecer sem máscaras, sem poses e sem a proteção das ilusões juvenis.

A força de Fernando Sabino está em escrever sobre temas profundos com uma linguagem clara, fluente e elegante. A prosa não pesa, mas também não é superficial. Há humor, ironia e leveza, mas por baixo dessa aparente simplicidade corre uma inquietação existencial bastante intensa. Sabino consegue construir um romance acessível e, ao mesmo tempo, cheio de camadas.

O grande mérito do romance está em tratar a juventude sem romantizá-la completamente. Sabino mostra seu encanto, sua energia e sua promessa, mas também sua arrogância, sua irresponsabilidade e sua tendência à teatralização da própria dor. Eduardo Marciano é um personagem em busca de grandeza, mas o livro parece sugerir que a verdadeira maturidade começa quando a pessoa abandona a necessidade de parecer extraordinária e aceita a responsabilidade de viver com mais verdade.

O Encontro Marcado é, portanto, uma obra sobre vocação, amizade, culpa, amor, literatura e amadurecimento. Mas, acima de tudo, é um romance sobre a difícil tarefa de tornar-se alguém. Não alguém admirado, celebrado ou excepcional, mas alguém capaz de encarar a própria vida sem fugir dela.

É uma leitura que vale muito a pena, especialmente para quem gosta de romances de formação e de obras que investigam os impasses da alma. Fernando Sabino escreveu um livro profundamente brasileiro e, ao mesmo tempo, universal: a história de um jovem que deseja encontrar seu destino, mas precisa antes enfrentar a si mesmo.

sexta-feira, junho 26, 2026

Excalibur


Todo grande mito precisa de um fim. Mas Bernard Cornwell compreende que o fim de Artur não poderia ser simplesmente a morte de um homem. Precisava ser o desaparecimento de um mundo.

Excalibur (1999), terceiro e último volume de As Crônicas de Artur, encerra uma das mais fascinantes releituras modernas da lenda arturiana. Depois da ascensão apresentada em O Rei do Inverno e das profundas fissuras políticas, religiosas e pessoais de O Inimigo de Deus, chegamos a uma Bretanha ameaçada não apenas pelos saxões, mas pelas consequências de tudo aquilo que seus personagens fizeram ao longo dos livros anteriores.

É o volume mais melancólico da trilogia.

Artur chega ao último livro como um homem diferente daquele que conhecemos inicialmente. Seu grande sonho sempre foi relativamente simples: pacificar os reinos britânicos, garantir o trono de Mordred e construir uma sociedade governada por leis, juramentos e justiça.

Ele conseguiu muitas dessas coisas... e quase todas fracassaram.

Essa talvez seja a maior tragédia de Artur na interpretação de Cornwell: ele não fracassa porque seus ideais sejam desprezíveis, mas porque acredita que homens imperfeitos conseguirão viver de acordo com eles.

Artur é extraordinário no campo de batalha. Consegue inspirar homens, criar estratégias improváveis e conquistar a lealdade daqueles que lutam ao seu lado. Entretanto, sua capacidade militar nunca é suficiente para controlar ambições, paixões, ressentimentos e fanatismos.

Em Excalibur, essa contradição finalmente cobra seu preço.

E é por isso que a grandeza do Artur de Cornwell está justamente em sua humanidade. Não estamos diante de um rei predestinado, protegido pelos deuses e portador de uma espada mágica. Estamos diante de um homem tentando impor alguma ordem a um mundo que parece condenado ao caos.

Ao seu lado continua Derfel Cadarn, talvez o verdadeiro coração de toda a trilogia.

Desde o primeiro livro sabemos que Derfel sobreviverá. O velho monge que escreve secretamente suas memórias já nos revelou isso. Mesmo assim, Cornwell consegue produzir enorme tensão porque aquilo que realmente importa não é saber se Derfel viverá, mas descobrir o que ele perderá para chegar até aquele mosteiro.

E ele perde muito.

É em Excalibur que percebemos plenamente a importância da estrutura narrativa escolhida por Cornwell. O velho Derfel não está apenas contando aventuras de juventude. Está tentando salvar da morte aqueles que amou: Artur, Merlim, Nimue, Ceinwyn e seus companheiros de batalha.

Enquanto escreve seus nomes, eles continuam existindo. A escrita transforma-se, assim, em resistência contra o esquecimento. Isso se conecta diretamente a um dos grandes temas da trilogia: a diferença entre aquilo que aconteceu e aquilo que será lembrado.

Lancelot talvez seja o exemplo mais irônico. Ao longo dos livros acompanhamos um homem cuja reputação frequentemente supera sua coragem. Mas sabemos que a tradição futura o transformará em um dos maiores cavaleiros da história.

Derfel, ao contrário, realizou feitos extraordinários e praticamente desapareceu do imaginário popular.

Cornwell parece nos lembrar que a História não pertence necessariamente àqueles que fizeram grandes coisas. Pertence muitas vezes àqueles cuja história foi contada.

Merlim também encontra neste volume a conclusão de sua grande obsessão: restaurar os antigos deuses da Bretanha.

Desde o início da trilogia ele percebe algo que os outros personagens demoram a compreender. A guerra mais importante talvez não seja entre britânicos e saxões, mas entre dois mundos.

O paganismo está desaparecendo.

O cristianismo está crescendo.

Os antigos rituais, lugares sagrados e deuses pertencem a uma sociedade que está chegando ao fim. Merlim luta contra essa transformação com tudo o que possui e talvez seja justamente por isso que sua trajetória seja tão triste.

Artur luta pelo futuro.

Merlim luta pelo passado.

Derfel fica preso entre os dois.

A religião, aliás, permanece como uma das maiores forças de Excalibur. Cornwell não apresenta simplesmente cristãos maus contra pagãos bons, ou o contrário. O que ele mostra é o perigo que surge quando alguém acredita possuir uma verdade tão absoluta que qualquer violência pode ser justificada para defendê-la.

Nimue representa a face mais extrema dessa transformação.

A menina ferida e determinada que conhecemos em O Rei do Inverno percorre um dos caminhos mais perturbadores da trilogia. Sua devoção aos deuses cresce até ocupar praticamente todo o espaço de sua humanidade.

Sua trajetória levanta uma das perguntas mais desconfortáveis do romance: quanto de nós mesmos podemos sacrificar por aquilo em que acreditamos antes que a própria crença nos destrua?

Enquanto tudo isso acontece, a ameaça saxônica finalmente atinge seu ponto decisivo.

E então chegamos a um dos grandes momentos de toda a trilogia: a batalha de Mynydd Baddon.

Cornwell sempre foi extraordinário escrevendo batalhas, mas aqui ele alcança um de seus melhores resultados. A luta não funciona apenas como espetáculo militar. Tudo o que acompanhamos durante três livros converge para aquele momento.

A política.

As alianças.

As traições.

As amizades.

Os juramentos.

O talento militar de Artur.

A lealdade de Derfel.

A sobrevivência da própria Bretanha.

A batalha é brutal, confusa e desesperadora, exatamente como foram os melhores combates dos livros anteriores. Mas agora existe algo diferente: sabemos que estamos assistindo ao último grande momento de um mundo.

É uma vitória que carrega gosto de despedida.

Essa sensação domina todo o romance.

Excalibur fala constantemente sobre coisas que terminam: amizades, amores, religiões, reinos, sonhos e épocas históricas.

Por isso o livro possui uma tristeza que não existia com a mesma intensidade em O Rei do Inverno. Naquele primeiro volume ainda parecia possível construir alguma coisa. Agora, mesmo quando os personagens vencem, percebemos que determinadas derrotas são inevitáveis.

Roma não voltará.

Os antigos deuses provavelmente não voltarão.

A Bretanha que Artur tentou construir não durará para sempre.

E os homens que viveram aqueles acontecimentos serão substituídos pelas lendas criadas sobre eles.

É justamente nesse ponto que Bernard Cornwell realiza seu maior feito.

Durante três livros, ele retirou de Artur praticamente tudo aquilo que associamos ao mito.

Não há Camelot resplandecente.

Não há cavaleiros em armaduras medievais.

Não há magia incontestável.

Não há um rei perfeito governando uma sociedade ideal.

E, paradoxalmente, ao retirar a lenda, Cornwell faz Artur parecer ainda maior.

Porque seu Artur não precisa ser escolhido pelos deuses. Ele escolhe tentar ser um homem justo.

Não precisa possuir poderes sobrenaturais. Sua capacidade de inspirar outros homens já é extraordinária.

Não precisa construir um reino eterno. Basta que aqueles que lutaram ao seu lado continuem acreditando no que ele tentou construir.

O final de Excalibur preserva ainda uma última e belíssima ambiguidade. Cornwell sabe que explicar completamente o destino de Artur destruiria parte daquilo que torna sua história eterna.

Por isso, depois de centenas de páginas tentando transformar mito em História, ele permite que a História volte a se transformar em mito.

É o encerramento perfeito para a proposta da trilogia.

Quando terminamos Excalibur, finalmente entendemos por que o velho Derfel precisava escrever.

Ele não estava apenas contando a história de Artur.

Estava testemunhando o desaparecimento de seu mundo.

E talvez seja essa a razão pela qual As Crônicas de Artur permaneçam tão marcantes depois da última página. Bernard Cornwell começa perguntando como poderia ter sido o Artur histórico e termina mostrando como um homem histórico poderia ter se tornado lenda.

quinta-feira, junho 18, 2026

Basílica Nossa Senhora do Carmo


Durante uma passagem por São Paulo, tive a oportunidade de participar de uma celebração de missa na Basílica Nossa Senhora do Carmo, localizada no bairro da Bela Vista. Além da experiência religiosa, a visita despertou minha curiosidade sobre a história daquele templo, especialmente pela imponência de sua arquitetura e pela forte presença da tradição carmelita em seu interior.

Ao pesquisar um pouco mais, descobri que a história da basílica é muito mais antiga do que o próprio edifício atual. Ela está diretamente ligada à presença dos frades carmelitas em São Paulo desde o final do século XVI, atravessando diferentes fases da formação e do crescimento da cidade.

A origem histórica da Basílica Nossa Senhora do Carmo remonta ao ano de 1594, quando os carmelitas se estabeleceram em São Paulo.

Naquele período, a cidade ainda era uma pequena povoação colonial. Os religiosos construíram uma igreja e um convento na região central, próximos à atual área da Sé, iniciando uma presença que se estenderia por séculos.

Por isso, embora o edifício que hoje encontramos na Bela Vista seja do século XX, a comunidade religiosa que o originou possui raízes muito mais antigas. Essa ligação com 1594 é tão importante que a própria decoração da atual basílica faz referência ao ano, preservando a memória da chegada dos carmelitas à cidade.

Durante mais de trezentos anos, os carmelitas permaneceram instalados na região central de São Paulo.

Entretanto, nas primeiras décadas do século XX, a cidade passava por profundas transformações urbanas. Em 1926, o antigo imóvel ocupado pela ordem foi desapropriado, obrigando os religiosos a buscar um novo local para estabelecer seu convento e sua igreja.

A área escolhida foi um terreno na Rua Martiniano de Carvalho, no bairro da Bela Vista, onde anteriormente existia uma chácara de flores.

Em 15 de abril de 1928, ocorreu a transferência simbólica para o novo espaço. A antiga imagem de Nossa Senhora do Carmo foi levada em procissão até a Bela Vista e, na mesma ocasião, foi realizada a bênção da pedra fundamental da nova igreja.

Começava, assim, a construção do templo que hoje conhecemos.

O projeto arquitetônico da nova igreja ficou sob responsabilidade do arquiteto Georg Przyrembel, de origem polonesa e figura importante da arquitetura paulista do início do século XX.

O templo foi concebido dentro de uma linguagem inspirada na arquitetura colonial brasileira, característica do chamado estilo neocolonial, bastante valorizado naquele período.

A construção também procurou preservar a continuidade entre a antiga igreja carmelita e a nova. Diversos objetos e elementos religiosos do antigo templo foram aproveitados no edifício da Bela Vista, incluindo altares, lustres, candelabros e outros elementos decorativos.

Depois de aproximadamente seis anos de obras, a nova Igreja de Nossa Senhora do Carmo foi solenemente inaugurada em 1º de abril de 1934, Domingo de Páscoa, pelo então arcebispo de São Paulo, Dom Duarte Leopoldo e Silva.

Portanto, embora a tradição carmelita em São Paulo remonte a 1594, o edifício atual da Bela Vista foi inaugurado em 1934.

A igreja passou a desempenhar um papel cada vez mais importante na vida religiosa da Bela Vista.

Em 1940, foi oficialmente criada a Paróquia Nossa Senhora do Carmo, consolidando o templo não apenas como igreja dos religiosos carmelitas, mas também como referência pastoral para os moradores da região.

Em 10 de dezembro de 1949, a igreja foi solenemente consagrada.

Pouco depois, em 1950, recebeu do Papa Pio XII o título de Basílica Menor, reconhecimento concedido pela Igreja Católica a determinados templos que possuem especial importância histórica, espiritual ou litúrgica.

É importante destacar que uma basílica não é necessariamente uma catedral. A catedral é a igreja onde se encontra a cátedra do bispo de uma diocese, enquanto o título de basílica é uma distinção concedida pelo Papa.

Além de sua relevância histórica e religiosa, a Basílica Nossa Senhora do Carmo possui um rico patrimônio artístico.

As grandes pinturas existentes no interior do templo foram realizadas por Tullio Mugnaini e representam diversos episódios ligados à espiritualidade carmelita, incluindo referências ao profeta Elias, ao Monte Carmelo e à tradição do escapulário de Nossa Senhora do Carmo.

A Via-Sacra é obra de Carlos Oswald, importante artista brasileiro ligado à produção de arte sacra no século XX.

Outro destaque é o grande órgão de tubos instalado na igreja. Construído originalmente na Alemanha pela empresa E. P. Walker, o instrumento chegou ao templo na década de 1930 e tornou-se mais um dos elementos marcantes de seu patrimônio.

O conjunto arquitetônico também chama atenção por sua localização elevada, pela grande escadaria de acesso e pela imponência da fachada, fazendo com que o templo tenha presença marcante na paisagem da Bela Vista.

Talvez o aspecto que mais tenha me chamado atenção ao conhecer a história da Basílica Nossa Senhora do Carmo seja justamente sua capacidade de conectar períodos tão diferentes da história paulistana.

A tradição carmelita começou em 1594, quando São Paulo ainda era uma pequena vila colonial. Mais de três séculos depois, o crescimento e a modernização da cidade obrigaram os religiosos a deixar sua antiga igreja e construir um novo templo na Bela Vista.

A basílica inaugurada em 1934 representa, portanto, não apenas uma nova construção, mas a continuidade de uma história religiosa que atravessa mais de quatro séculos.

Participar de uma missa naquele espaço acabou ganhando, para mim, um significado ainda maior depois de conhecer essa trajetória. Por trás do altar, das pinturas, das imagens e da arquitetura existe uma longa história de fé e de presença carmelita que acompanha o próprio desenvolvimento da cidade de São Paulo.

Conhecer essas histórias é também uma forma de perceber como determinados templos ultrapassam sua função exclusivamente religiosa. Eles se transformam em testemunhos da formação das cidades, das mudanças urbanas e das tradições de comunidades que permanecem vivas ao longo dos séculos.

E a Basílica Nossa Senhora do Carmo, na Bela Vista, é certamente um desses lugares.

terça-feira, junho 16, 2026

O Inimigo de Deus


Se O Rei do Inverno é o romance da ascensão de Artur e da tentativa de construir uma Bretanha unificada, O Inimigo de Deus (1996) é o livro em que Bernard Cornwell (1944-) começa a mostrar o preço desse sonho.

Segundo volume de As Crônicas de Artur, o romance retoma as memórias de Derfel Cadarn, agora um velho monge encarregado de registrar uma história muito diferente daquela que os homens de seu tempo aprenderam a contar. Mais uma vez, Cornwell parte das lendas arturianas para realizar um exercício fascinante: imaginar quais acontecimentos históricos poderiam ter dado origem aos mitos de Artur, Merlim, Guinevere, Lancelot, Excalibur e da Távola Redonda.

Mas há uma diferença importante em relação ao primeiro livro. Se O Rei do Inverno apresentava um mundo ainda aberto a possibilidades, O Inimigo de Deus é muito mais sombrio.

Artur conseguiu aquilo que parecia impossível. Depois de anos de guerras entre os próprios britânicos, existe finalmente a possibilidade de paz. Os antigos inimigos podem voltar sua atenção para a ameaça saxônica, e o sonho de uma Bretanha unificada parece mais próximo.

É justamente quando Artur vence que começam seus maiores problemas.

Essa talvez seja a grande ideia do romance: conquistar a paz pode ser mais fácil do que preservá-la.

Artur continua sendo um dos personagens mais fascinantes da trilogia. Ele não é rei, embora possua mais autoridade que muitos reis. Não busca construir uma dinastia nem deseja uma coroa. Seu projeto é criar uma sociedade mais justa, na qual as leis sejam respeitadas, os juramentos tenham valor e os diferentes reinos britânicos consigam coexistir.

É um projeto admirável...e talvez impossível...

Quanto mais Artur tenta governar racionalmente, mais percebemos que ele vive em um mundo movido por forças que não consegue controlar: religião, vingança, ambição, desejo e medo.

Nesse aspecto, O Inimigo de Deus é ainda mais interessante politicamente que seu antecessor. Artur sabe vencer batalhas, mas descobre que não existe formação de escudos capaz de protegê-lo da intolerância religiosa, das conspirações políticas ou das fraquezas daqueles que ama.

E é justamente a religião que assume uma importância extraordinária neste segundo volume.

O conflito entre cristãos e seguidores dos antigos deuses deixa de ser apenas parte do cenário para se transformar em uma das principais forças da narrativa. O cristianismo cresce rapidamente e alguns de seus seguidores passam a enxergar Artur como obstáculo à construção de uma Bretanha verdadeiramente cristã.

Surge então a pergunta que dá sentido ao próprio título do livro: Quem é o inimigo de Deus?

Para determinados cristãos, é Artur, que tolera pagãos e procura manter a religião afastada do governo. Para os seguidores dos antigos deuses, são os cristãos que destroem templos, tradições e costumes ancestrais. Para Merlim, talvez o verdadeiro inimigo seja simplesmente o tempo, pois cada ano que passa torna mais distante a possibilidade de restaurar o mundo em que acredita.

Cornwell evita oferecer respostas fáceis. Existem cristãos fanáticos e cristãos honestos. Existem pagãos sábios e pagãos cruéis. A fé pode inspirar coragem, compaixão e esperança, mas também pode justificar violência e intolerância. É nessa ambiguidade que o romance encontra boa parte de sua força.

Merlim, por sua vez, ganha ainda mais importância. Sua busca pelos antigos tesouros da Bretanha é muito mais do que uma aventura. Ele tenta realizar algo desesperado: devolver os deuses à ilha antes que seja tarde demais.

Há algo profundamente melancólico nesse personagem. Merlim sabe que talvez esteja lutando por um mundo condenado a desaparecer. Enquanto Artur tenta construir o futuro, Merlim luta para recuperar o passado.

Entre os dois está Derfel. E talvez seja Derfel quem torne toda essa história verdadeiramente humana.

Sua lealdade a Artur continua sendo um dos pilares do romance, mas sua relação com Merlim, Nimue e os antigos deuses coloca-o constantemente entre mundos diferentes. Guerreiro, amigo, amante e testemunha, Derfel participa de acontecimentos extraordinários sem jamais deixar de parecer um homem comum diante deles.

O fato de conhecermos desde o início seu destino como velho monge acrescenta uma camada particularmente interessante à narrativa. O guerreiro pagão que testemunhou o auge do sonho de Artur escreve suas memórias dentro de um mosteiro cristão. A religião que parecia ameaçar desaparecer acabou sobrevivendo; aquela pela qual Merlim e Nimue lutaram transformou-se em lembrança.

O próprio narrador é, portanto, uma prova viva da passagem do tempo.

Outro personagem que se torna ainda mais interessante é Lancelot. Cornwell continua sua deliciosa desconstrução de um dos maiores heróis da tradição arturiana. Existe uma distância enorme entre o homem que Derfel conhece e o herói que as gerações futuras celebrarão.

Essa diferença entre memória e História, verdade e lenda permanece como um dos temas mais inteligentes da trilogia.

Cornwell parece perguntar constantemente: quem decide quais homens serão lembrados como heróis?

Talvez não sejam necessariamente os mais corajosos.

Talvez sejam aqueles cuja versão da história sobrevive.

Também é neste volume que alguns dos elementos mais famosos do imaginário arturiano começam a assumir formas reconhecíveis. A Távola Redonda, o Santo Graal e outras imagens conhecidas da tradição aparecem reinterpretadas de maneira coerente com o mundo brutal e historicamente plausível criado pelo autor.

Até mesmo a magia continua envolvida em dúvida. Os rituais de Merlim e Nimue são descritos pelos olhos de pessoas que acreditam profundamente nos deuses. Algumas coincidências parecem sobrenaturais; outras podem ser explicadas racionalmente. Cornwell jamais destrói completamente nenhuma das possibilidades. A magia existe para quem acredita nela — e talvez isso seja suficiente.

As batalhas continuam excelentes, mas curiosamente não são o que mais impressiona em O Inimigo de Deus. Bernard Cornwell permanece um extraordinário escritor de combates, porém os momentos mais fortes do romance surgem frequentemente longe dos campos de batalha: São traições, juramentos quebrados, fanatismo, desejos, amizades colocadas à prova e principalmente as consequências das escolhas feitas anteriormente.

No fundo, O Inimigo de Deus é um livro sobre o fracasso dos grandes projetos diante da natureza humana.

Artur deseja razão.

Merlim deseja tradição.

Os cristãos desejam Deus.

Os reis desejam poder.

Os homens desejam vingança.

E todos esses desejos precisam coexistir na mesma Bretanha.

É difícil imaginar que isso termine bem.

Ao final, Bernard Cornwell deixa uma sensação inquietante. A ameaça saxônica continua existindo, mas talvez ela nem seja o maior perigo para o sonho de Artur. O verdadeiro inimigo pode estar dentro da própria sociedade que ele tenta preservar.

Se O Rei do Inverno me conquistou ao transformar a lenda em História, O Inimigo de Deus aprofunda essa proposta ao transformá-la em tragédia.

Já não estamos apenas assistindo ao nascimento da lenda do rei Artur.

Estamos começando a compreender por que ela precisará ser uma lenda.

sábado, junho 06, 2026

O Rei do Inverno


Poucos personagens atravessaram os séculos com tanta força quanto o Rei Artur. Camelot, Excalibur, Merlim, Guinevere, Lancelot e os Cavaleiros da Távola Redonda fazem parte de um imaginário construído e reconstruído durante quase mil anos. Em O Rei do Inverno (1995), primeiro volume da trilogia As Crônicas de Artur, Bernard Cornwell (1944-) realiza uma operação fascinante: retira boa parte do brilho medieval da lenda e tenta imaginar o homem que poderia ter existido por trás do mito.

A história se passa na Bretanha dos séculos V e VI, após o fim do domínio romano. É um mundo fragmentado, violento e instável. Pequenos reinos britânicos lutam entre si enquanto os saxões avançam sobre a ilha. O cristianismo cresce, as antigas religiões pagãs resistem e os vestígios da civilização romana permanecem como lembranças de uma ordem que desapareceu. É nesse cenário que Cornwell coloca seu Artur.

Mas Artur não é rei.

Ele surge como guerreiro, comandante e líder político, comprometido com a defesa do jovem Mordred, herdeiro do trono da Dumnônia. Seu grande projeto é aparentemente simples e ao mesmo tempo quase impossível: unir os britânicos para que deixem de lutar entre si e enfrentem o verdadeiro inimigo, os saxões.

A grande escolha narrativa de Cornwell, porém, está em não entregar a história ao próprio Artur. Quem nos conta os acontecimentos é Derfel Cadarn, antigo guerreiro e companheiro de Artur que, já idoso e vivendo como monge, registra suas memórias. Por meio dele conhecemos não apenas o grande líder, mas o homem por trás da lenda.

Essa perspectiva é fundamental para o romance. Estamos lendo a lembrança de alguém que viu nascer aquilo que posteriormente se transformaria em mito. Cornwell pode, assim, brincar constantemente com a distância entre aquilo que aconteceu e aquilo que será lembrado.

Talvez nenhum personagem represente melhor essa ideia do que Lancelot. A reputação, percebe-se ao longo da narrativa, nem sempre corresponde aos feitos. Alguns homens realizam grandes coisas e são esquecidos; outros dominam a maneira como suas histórias serão contadas. É uma das reflexões mais interessantes do livro sobre a própria construção da História.

Artur, por sua vez, é uma das grandes realizações do romance.

Cornwell não o apresenta como governante perfeito nem como herói sem falhas. Seu Artur é carismático, inteligente, extraordinário comandante militar e genuinamente comprometido com uma ideia de justiça. Ao mesmo tempo, pode ser ingênuo, obstinado e incapaz de perceber que seus próprios desejos colocam em risco os projetos que procura defender.

E é justamente aí que reside sua dimensão trágica.

Artur deseja construir um mundo governado por juramentos, justiça e racionalidade, mas vive em uma sociedade dominada por lealdades pessoais, vinganças, religião e ambição. Sua grandeza está em tentar transformar esse mundo; sua fraqueza está em acreditar que sua vontade será suficiente para fazê-lo.

O casamento com Guinevere evidencia essa contradição. Artur é capaz de exigir sacrifícios enormes dos outros em nome da estabilidade política, mas, quando confrontado com o próprio desejo, também coloca seus sentimentos acima das necessidades do reino. Cornwell transforma assim o herói lendário em algo muito mais interessante: um homem extraordinário, porém profundamente humano.

Outro dos grandes méritos de O Rei do Inverno está na maneira como trata a religião.

A Bretanha de Cornwell encontra-se dividida entre o cristianismo crescente e as antigas crenças pagãs. Merlim e Nimue enxergam o avanço cristão quase como o desaparecimento de seu próprio mundo. Para eles, preservar os antigos deuses significa preservar a própria identidade da Bretanha.

Merlim, aliás, está entre os melhores personagens do romance. É excêntrico, irônico, manipulador e misterioso. Cornwell preserva cuidadosamente a dúvida sobre seus poderes. Nunca sabemos completamente se estamos diante de magia verdadeira, coincidência, superstição ou extraordinária capacidade de compreender e manipular as pessoas.

Essa ambiguidade é brilhante porque permite que o sobrenatural permaneça presente sem romper o realismo histórico da narrativa.

Derfel também merece destaque. Sua trajetória de menino sem importância a guerreiro respeitado fornece o elemento humano que sustenta toda a história. Por meio dele experimentamos amizade, amor, violência, medo e lealdade. E sua devoção a Artur nunca impede que reconheça as falhas daquele que admira.

As batalhas são excelentes. Não existe nelas a beleza romântica dos torneios medievais. O combate é confuso, brutal e assustador. Lanças, escudos, lama, sangue e medo substituem a imagem idealizada dos cavaleiros reluzentes. A guerra de Cornwell não é uma aventura gloriosa: é uma experiência física e terrível.

Mas seria um erro reduzir O Rei do Inverno a um grande romance de batalhas.

Por trás das guerras existe uma história sobre o desaparecimento de um mundo.

Os personagens caminham entre ruínas romanas, reutilizam estradas construídas por uma civilização que já não existe e observam estruturas que não sabem mais reproduzir. Ao mesmo tempo, as antigas religiões desaparecem, os saxões avançam e uma nova ordem começa lentamente a nascer.

Talvez seja justamente essa melancolia que torne o livro tão especial.

Sabemos que o mundo que Derfel descreve desaparecerá. Sabemos também que Artur sobreviverá — mas como lenda. O homem será esquecido para que o mito possa nascer.

É por isso que O Rei do Inverno funciona tão bem mesmo para quem conhece pouco das histórias arturianas. Cornwell não depende da nostalgia. Ele reconstrói seus personagens a partir do zero e faz com que figuras quase míticas pareçam homens e mulheres que realmente poderiam ter vivido naquele período obscuro da história britânica.

Ao terminar o livro, a sensação não é a de termos acompanhado simplesmente mais uma versão da lenda do rei Artur. É quase o contrário: parece que ouvimos de uma testemunha aquilo que "realmente aconteceu" antes que poetas, monges e escritores transformassem aqueles acontecimentos em lenda.

E talvez esse seja o maior elogio que se possa fazer ao romance.

domingo, maio 24, 2026

Não Verás País Nenhum


Publicado em 1981, Não Verás País Nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão (1936-), é uma daquelas obras que parecem envelhecer ao contrário. Quanto mais o tempo passa, mais perturbadora se torna sua leitura.

O romance nos apresenta Souza, um homem comum que vive em uma São Paulo sufocada pelo calor, pela escassez de água, pela poluição e por um regime autoritário que controla a circulação, a informação e até os pequenos hábitos cotidianos. A cidade já não é apenas um espaço degradado: tornou-se um ambiente quase incompatível com a própria vida.

Mas reduzir o livro a uma distopia ecológica seria pouco. Loyola Brandão utiliza o futuro para falar do Brasil de seu próprio tempo — um país que, no início da década de 1980, ainda carregava as marcas da ditadura militar, da censura, da concentração de poder e das promessas frustradas de modernização. Ao exagerar esses elementos, o autor constrói um mundo absurdo, mas reconhecível.

E é justamente aí que reside uma das maiores forças do romance.

O terror de Não Verás País Nenhum não nasce de grandes máquinas futuristas nem de tecnologias extraordinárias. Ele surge de coisas muito próximas: filas, calor, falta de água, burocracia, desigualdade, vigilância, indiferença e acomodação. O colapso acontece lentamente, até que aquilo que antes seria intolerável passa a ser aceito como parte da rotina.

Souza é um protagonista especialmente adequado para esse universo. Ele não é um herói revolucionário. É um homem cansado, inseguro e, durante boa parte da narrativa, resignado. Sua trajetória é justamente a de alguém que começa a perceber que a normalidade na qual vive talvez não seja normal.

Essa escolha torna o romance ainda mais inquietante.

A pergunta central deixa de ser apenas “como essa sociedade chegou a esse ponto?” e passa a ser também “quanto um indivíduo consegue suportar antes de perceber que algo precisa mudar?”.

Há, portanto, uma reflexão profunda sobre conformismo. O autor mostra como regimes autoritários e sociedades degradadas não dependem apenas da força. Dependem também do hábito, do medo, da desinformação e da capacidade humana de se adaptar até mesmo ao absurdo.

Outro aspecto impressionante é a dimensão ambiental da obra. Escrita há mais de quatro décadas, a narrativa apresenta calor extremo, destruição das áreas verdes, escassez de recursos naturais e uma cidade praticamente inviável do ponto de vista ecológico. Lida hoje, em meio às discussões sobre mudanças climáticas, crises hídricas e crescimento urbano desordenado, essa dimensão do romance ganha uma atualidade desconcertante.

Não significa que Loyola Brandão tenha “previsto o futuro”. Sua grande percepção foi compreender tendências já presentes na sociedade e levá-las às últimas consequências literárias.

Também é impossível ignorar a dimensão profundamente brasileira da obra. Embora seja possível aproximá-la de clássicos como 1984 Admirável Mundo Novo, Não Verás País Nenhum possui identidade própria. Sua distopia nasce do calor, da burocracia, da desigualdade, da improvisação, da violência institucional e das contradições brasileiras.

O próprio título carrega essa sensação de desaparecimento. O país não deixa necessariamente de existir no mapa, mas parece perder sua identidade, sua memória e sua capacidade de imaginar outro futuro.

Talvez seja essa a ideia mais incômoda do romance: sociedades não desaparecem apenas quando são destruídas fisicamente. Elas também podem desaparecer quando seus habitantes deixam de reconhecer aquilo que perderam.

Ao terminar a leitura, talvez a pergunta mais perturbadora não seja se o futuro imaginado por Ignácio de Loyola Brandão poderia acontecer. É perceber quantas partes dele já conseguimos reconhecer ao nosso redor.

domingo, maio 17, 2026

O Apanhador no Campo de Centeio


Publicado em 1951, O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger (1919-2010), tornou-se um dos romances mais conhecidos da literatura norte-americana do século XX. Frequentemente apresentado como um símbolo da rebeldia juvenil, o livro é, na verdade, muito mais doloroso e complexo do que essa definição sugere. Por trás da irreverência de Holden Caulfield, de suas críticas constantes e de seu desprezo pelas convenções sociais, encontra-se um adolescente profundamente ferido, incapaz de compreender plenamente o próprio sofrimento.

O romance acompanha alguns dias da vida de Holden, um jovem de dezesseis anos que acaba de ser expulso de mais uma escola. Antes de voltar para casa e enfrentar os pais, ele decide passar algum tempo sozinho em Nova York. A narrativa, conduzida em primeira pessoa, apresenta uma sucessão de encontros, lembranças, frustrações e tentativas malsucedidas de estabelecer contato verdadeiro com outras pessoas.

Entretanto, o principal acontecimento do livro não está propriamente nas ruas, nos hotéis, nos bares ou nas escolas frequentadas pelo protagonista. O centro da obra é a própria consciência de Holden: contraditória, inquieta, sarcástica e emocionalmente desordenada. Mais do que acompanhar uma aventura juvenil, o leitor é convidado a permanecer dentro da mente de alguém que tenta desesperadamente dar sentido a um mundo que lhe parece falso.

A palavra que melhor resume o olhar de Holden sobre a sociedade é “falsidade”. Para ele, quase todos são artificiais: os colegas, os professores, os adultos, os artistas e as pessoas bem-sucedidas. Holden demonstra uma aversão quase obsessiva a tudo o que considera afetado, convencional ou hipócrita. Sua revolta nasce do desejo de encontrar alguma forma de autenticidade em uma sociedade organizada em torno das aparências, do prestígio e do sucesso.

Há, porém, uma ironia fundamental: Holden também mente, exagera, encena comportamentos e esconde seus sentimentos. Ele condena nos outros aquilo que, em alguma medida, também pratica. Essa contradição não enfraquece o personagem; pelo contrário, torna-o mais humano. Holden deseja uma sinceridade absoluta, mas não sabe como se revelar sinceramente. Quer proximidade, porém frequentemente afasta aqueles que tentam se aproximar. Sente-se terrivelmente sozinho, mas quase nunca consegue permanecer emocionalmente disponível.

É por isso que sua rebeldia não deve ser confundida com simples arrogância adolescente. Holden é irritante em muitos momentos, mas sua irritação funciona como uma defesa. Seu sarcasmo é uma maneira de esconder a fragilidade, assim como seu desprezo pelos outros frequentemente encobre um profundo desejo de ser compreendido.

Um dos aspectos mais importantes da obra é a relação do protagonista com a infância. Holden contempla as crianças como representantes de uma pureza ainda não corrompida pelas convenções do mundo adulto. O título do livro nasce justamente de sua fantasia de permanecer em um campo de centeio, impedindo que crianças caiam de um precipício. Ele gostaria de ser aquele que as protege da queda.

Essa imagem revela sua dificuldade de aceitar o amadurecimento. Crescer, para Holden, significa perder a inocência, aprender a representar papéis sociais, aceitar compromissos e entrar em um mundo marcado pela hipocrisia. Sua vontade de proteger as crianças esconde também o desejo impossível de deter o tempo e de impedir que a vida transforme aquilo que ele ama.

A infância, entretanto, não aparece apenas como uma fase idealizada. Ela está ligada às experiências mais profundas de afeto, perda e vulnerabilidade do protagonista. As figuras de seus irmãos, especialmente Allie e Phoebe, ajudam a compreender que o comportamento de Holden não nasce apenas de uma revolta abstrata contra a sociedade. Há nele uma dor que nunca foi devidamente elaborada.

Sob esse aspecto, O Apanhador no Campo de Centeio pode ser lido como um romance sobre o luto. A instabilidade emocional do protagonista, sua dificuldade de estabelecer vínculos e sua necessidade de preservar a inocência estão relacionadas a uma experiência de perda que continua presente em sua vida. Holden não está apenas recusando o mundo adulto; ele está tentando sobreviver a uma realidade que já lhe mostrou, de maneira brutal, que tudo pode desaparecer.

A voz narrativa criada por Salinger é um dos grandes méritos do romance. Holden fala de maneira repetitiva, informal e cheia de digressões. Suas expressões, reclamações e mudanças repentinas de assunto podem inicialmente parecer cansativas, mas reproduzem com grande eficácia a mente de um adolescente que não consegue organizar aquilo que sente.

O leitor precisa aprender a desconfiar das palavras do narrador. Frequentemente, o que Holden diz não corresponde exatamente ao que demonstra. Ele afirma não se importar, quando claramente está magoado; ridiculariza pessoas cuja aprovação deseja; declara odiar situações que, na verdade, despertam nele medo ou insegurança. O livro exige, portanto, uma leitura atenta às hesitações, às repetições e aos silêncios.

Nova York também ocupa um papel importante. A cidade, cheia de movimento, luzes, pessoas e possibilidades, torna-se paradoxalmente um espaço de solidão. Holden circula por ambientes movimentados, encontra diversas pessoas e tenta iniciar conversas, mas permanece emocionalmente isolado. A metrópole funciona como uma representação externa de seu estado interior: tudo se movimenta, mas ele não sabe para onde ir.

Embora o romance trate de temas pesados, também há nele muito humor. Holden possui um olhar agudo para os absurdos do comportamento humano. Suas descrições exageradas, seus julgamentos impiedosos e seu modo peculiar de interpretar as situações são frequentemente engraçados. Esse humor, porém, quase sempre está acompanhado de melancolia. Rimos de suas observações, mas aos poucos percebemos que elas também são uma maneira de pedir ajuda.

Alguns leitores podem considerar Holden excessivamente negativo ou repetitivo. Essa reação é compreensível, pois Salinger não constrói um protagonista idealizado ou facilmente admirável. Holden não é um herói convencional, nem um porta-voz confiável de grandes verdades. Ele é um jovem confuso, contraditório e emocionalmente fragilizado.

É justamente essa imperfeição que sustenta a força do livro. O romance não pede que o leitor concorde com Holden, mas que tente enxergar a dor escondida por trás de seu comportamento. A pergunta mais importante não é se suas críticas estão certas, mas por que ele precisa criticar tudo para continuar funcionando.

Lido atualmente, o livro conserva sua atualidade por tratar de questões que ultrapassam o contexto dos Estados Unidos do pós-guerra. A pressão para se adaptar, o medo de crescer, a solidão em meio à multidão, a busca por autenticidade e a dificuldade de comunicar o sofrimento continuam presentes na experiência juvenil — e também na vida adulta.

Ao mesmo tempo, algumas características da obra pertencem claramente ao ambiente social em que foi escrita. Holden é um jovem branco de família economicamente privilegiada, com acesso a escolas particulares, dinheiro e oportunidades. Seu sofrimento é real, mas ocorre dentro de uma posição social protegida.

O Apanhador no Campo de Centeio não é um romance de grandes acontecimentos, mas de pequenos gestos, memórias e tentativas de aproximação. Sua importância está na maneira como Salinger transforma a voz de um adolescente desorientado em uma reflexão sobre a perda da inocência, o medo da mudança e a necessidade humana de encontrar alguém que realmente nos escute.

Mais do que um livro sobre rebeldia, é um livro sobre fragilidade. Holden Caulfield não deseja simplesmente rejeitar a sociedade; ele deseja encontrar algo verdadeiro dentro dela. Sua tragédia é não saber como fazer isso sem se ferir ou ferir os outros.

Ao final, a imagem do apanhador no campo de centeio revela-se bela e impossível. Não podemos impedir para sempre que as crianças cresçam, que a inocência se transforme ou que as pessoas enfrentem quedas. Talvez amadurecer signifique justamente aprender que não é possível salvar todos — e que, em determinados momentos, somos nós que precisamos ser amparados antes de cair.

O Apanhador no Campo de Centeio permanece como um clássico porque dá voz a uma experiência difícil de admitir: o momento em que percebemos que o mundo não é tão puro quanto desejávamos, mas ainda não descobrimos como viver nele sem abandonar completamente aquilo que amamos.