segunda-feira, agosto 24, 2026

Flush


Flush: uma biografia, publicado por Virginia Woolf (1882-1941) em 1933, é um daqueles livros cuja aparência simples pode enganar o leitor. À primeira vista, trata-se da biografia de Flush, o cocker spaniel da poetisa inglesa Elizabeth Barrett Browning (1806-1861). Mas, nas mãos de Woolf, a vida de um cachorro se transforma em instrumento para refletir sobre liberdade, classe social, amor, posse, percepção e até sobre os limites da própria literatura.

O ponto de partida já é bastante original. Virginia Woolf utiliza documentos e cartas de Elizabeth Barrett Browning para reconstruir, com grande liberdade imaginativa, a trajetória de Flush. O resultado não é exatamente um romance tradicional, tampouco uma biografia convencional. É uma obra híbrida, irônica e delicada, na qual o leitor acompanha o mundo em boa medida a partir da perspectiva de um animal.

E talvez esteja aí o principal encanto do livro.

Flush não percebe a realidade como os seres humanos. Seu universo é formado principalmente por cheiros, sons, sensações e instintos. Woolf tenta traduzir literariamente essa experiência, criando passagens em que Londres, uma casa ou uma rua deixam de ser apenas lugares e passam a ser uma sucessão de estímulos sensoriais. Isso produz um interessante deslocamento de perspectiva: por alguns momentos, somos convidados a abandonar a nossa maneira habitual de perceber o mundo.

Ao mesmo tempo, a história de Flush está profundamente ligada à de sua dona. Elizabeth Barrett Browning vivia praticamente confinada na casa paterna, limitada pela doença e pela rígida autoridade do pai. Nesse sentido, há um paralelismo evidente entre a mulher e o cachorro: ambos vivem protegidos, mas também aprisionados.

A chegada de Robert Browning altera esse equilíbrio. O romance entre os dois poetas representa não apenas uma relação amorosa, mas uma possibilidade de libertação para Elizabeth. Flush, por sua vez, reage inicialmente com ciúme e desconforto, como se percebesse que aquele novo homem ameaçava o pequeno universo que ele compartilhava com sua dona.

Esse aspecto da narrativa permite uma leitura muito interessante sobre o amor. Woolf sugere, ainda que de maneira sutil, que amar alguém pode também significar desejar sua permanência, sua dependência e sua proximidade. A verdadeira liberdade do outro pode, portanto, tornar-se ameaçadora.

Outro elemento muito forte da obra é a crítica social.

A Inglaterra vitoriana era uma sociedade extremamente marcada pelas distinções de classe, e Woolf utiliza o próprio pedigree de Flush para ironizar esse sistema. Há cães de raça, cães comuns, cães valorizados e cães desprezados, assim como existem famílias aristocráticas, trabalhadores e pessoas marginalizadas.

Em determinados momentos, Flush atravessa fronteiras sociais que Elizabeth dificilmente conheceria diretamente. A Londres elegante e respeitável dá lugar a regiões pobres, violentas e insalubres, revelando uma cidade profundamente desigual.

Essa dimensão social ganha ainda mais força quando comparada à vida confortável de Wimpole Street. A poucos quarteirões de distância coexistiam realidades completamente diferentes.

A mudança posterior para a Itália possui também um significado simbólico evidente. Se a Inglaterra representa contenção, hierarquia e clausura, a Itália aparece associada ao movimento, à luz e à liberdade. A transformação de Elizabeth é acompanhada por uma mudança semelhante na experiência de Flush.

Virginia Woolf escreve com ironia, humor e certa ternura, especialmente quando trata das pretensões humanas à superioridade. A escolha de escrever uma “biografia” de um cachorro é, por si só, uma brincadeira com o gênero biográfico tradicional, normalmente reservado às vidas de grandes personagens históricos.

Ao tratar Flush com a solenidade normalmente dedicada a estadistas, escritores ou generais, Woolf parece perguntar: afinal, o que torna uma vida digna de ser narrada?

Minha leitura também ganhou uma camada adicional por ter vindo logo depois de A Ilha do Doutor Moreau, de H. G. Wells.

Nos dois livros, a relação entre homens e animais ocupa posição central, mas de maneiras quase opostas.

Wells observa o animal tentando transformá-lo em homem. Woolf observa o animal tentando imaginar como seria perceber o mundo sem ser humano.

Em Wells, a fronteira entre humanidade e animalidade é perturbadora e violenta. Em Woolf, ela é contemplativa e filosófica.

Talvez essa seja uma das maiores qualidades de Flush: fazer o leitor perceber que a perspectiva humana não é necessariamente a única maneira possível de experimentar a realidade.

É um livro pequeno e aparentemente despretensioso, mas que contém muito mais do que sua premissa inicialmente sugere.

Ao final, Flush continua sendo apenas um cachorro.

E talvez seja justamente isso que torna sua história tão interessante.

domingo, agosto 23, 2026

Novo Ar Condicionado para o Quarto: Hitachi


Em março/2017 escrevi aqui no Blog que estava colocando um novo ar condicionado no quarto de 18.000 BTUs e agora, quase 10 anos depois, está na hora dele ir para outro quarto e comprar um novo pro nosso quarto.

Compramos o Ar Condicionado Split Inverter Hitachi 18000 BTU Frio Wi-Fi R-32 para no nosso quarto e o da LG que estava aqui foi para o quarto da frente, que era o único que não tinha ar condicionado.

Como iremos aumentar o quarto da frente no futuro, esse da LG irá servir bem para o tamanho que ele ficará no futuro.

sábado, agosto 22, 2026

A Ilha do Doutor Moreau


Publicado em 1896, A Ilha do Doutor Moreau é um daqueles livros que ultrapassam com facilidade a categoria em que costumam ser colocados. Embora seja frequentemente apresentado como um clássico da ficção científica, o romance de H. G. Wells (1866-1946) é também uma obra de horror, uma reflexão sobre os limites da ciência e, principalmente, uma investigação incômoda sobre aquilo que chamamos de humanidade.

A história acompanha Edward Prendick, um homem que, depois de sobreviver a um naufrágio, acaba em uma ilha isolada habitada pelo misterioso doutor Moreau, um cientista que havia sido afastado da sociedade inglesa por causa de suas experiências com animais. Aos poucos, Prendick descobre que a ilha funciona como um grande laboratório, no qual Moreau tenta alterar fisicamente animais para aproximá-los da forma e do comportamento humanos.

A premissa, por si só, já seria suficiente para sustentar um bom romance de horror. Mas Wells vai muito além. O que realmente impressiona no livro não é apenas a crueldade dos experimentos, mas a naturalidade com que Moreau os justifica. Ele não age como um vilão movido pelo ódio ou pelo sadismo. Seu verdadeiro perigo está em outra coisa: numa razão científica que se considera acima da compaixão.

É justamente aí que o romance permanece tão atual. Moreau representa o cientista que já não se pergunta se deve fazer algo, mas apenas se consegue fazê-lo. A dor das criaturas deixa de ser uma questão moral e passa a ser tratada como um inconveniente do processo. Wells, portanto, transforma uma história de ficção científica em uma discussão que ainda hoje aparece em temas como bioética, experimentação animal, engenharia genética e manipulação da vida.

Outro aspecto que me chamou bastante atenção foi a presença da chamada “Lei”, um conjunto de regras repetidas pelos seres criados por Moreau para conter seus impulsos animais. A famosa pergunta “Não somos homens?” ganha um significado perturbador ao longo da narrativa. Quanto mais os personagens tentam estabelecer uma fronteira entre humanidade e animalidade, mais Wells mostra como essa separação pode ser frágil.

A grande força do romance está justamente nessa inversão. No início, sentimos estranhamento diante de criaturas animais que apresentam características humanas. No final, porém, a pergunta já é outra: quanto de animal existe nos próprios seres humanos?

O desfecho é especialmente eficaz porque leva essa inquietação para além da ilha. Prendick consegue deixar para trás Moreau e suas experiências, mas não consegue abandonar aquilo que aprendeu. Ao retornar à sociedade, passa a enxergar nos homens os mesmos impulsos, gestos e instintos que havia observado entre os seres da ilha. A experiência transforma para sempre sua visão da humanidade.

Também achei interessante perceber como o romance dialoga com Frankenstein, de Mary Shelley. Victor Frankenstein tenta criar vida; Moreau tenta remodelá-la. Ambos ultrapassam limites em nome do conhecimento, mas Moreau talvez seja ainda mais inquietante por demonstrar muito menos culpa. Seu problema não é apenas a ambição científica, mas a vontade de dominar a natureza e obrigá-la a assumir uma forma escolhida por ele.

Nesse ponto, também encontrei uma conexão interessante com Tolkien. Em sua obra, o mal frequentemente surge quando o desejo de criar degenera em desejo de controlar. Personagens como Melkor e Saruman não respeitam a natureza própria das coisas: querem deformá-las para que correspondam à sua vontade. Moreau faz algo semelhante. Ele não procura compreender os animais como são, mas transformá-los no que acredita que deveriam ser. É uma diferença de universo literário, naturalmente, mas a crítica ao poder exercido sobre a criação aproxima de maneira curiosa os dois autores.

A escrita de Wells é direta e relativamente simples, e o romance é curto, mas isso não significa que seja superficial. Pelo contrário: é uma dessas obras que continuam crescendo depois da última página. Quanto mais se pensa sobre Moreau, os Homens-Fera, a Lei e o destino de Prendick, mais incômodas se tornam as questões levantadas pelo livro.

A Ilha do Doutor Moreau foi uma leitura que gostei bastante justamente por isso. Não é apenas uma história de aventura e horror científico, mas um romance capaz de provocar uma discussão filosófica sobre ciência, moralidade, poder, sofrimento e natureza humana.

sábado, agosto 15, 2026

Nós


Nós, de Yevgeny Zamyatin (1884-1937), é uma daquelas obras cuja importância histórica quase corre o risco de eclipsar suas qualidades literárias. Escrito no início da década de 1920 e publicado pela 1ª vez em 1924, pouco depois da Revolução Russa, o romance é frequentemente lembrado como um dos grandes precursores da literatura distópica e como influência decisiva para obras posteriores, sobretudo 1984, de George Orwell. No entanto, reduzi-lo à condição de “antecessor das distopias modernas” seria injusto. Nós permanece uma obra inquietante por mérito próprio, especialmente por sua reflexão sobre liberdade, felicidade, individualidade e os perigos de uma sociedade que pretende transformar a vida humana em uma equação perfeita.

A narrativa é apresentada na forma do diário de D-503, engenheiro e matemático do Estado Único, uma sociedade futura em que praticamente todos os aspectos da existência são regulados. As pessoas não possuem nomes, mas números; vivem em edifícios de vidro; seguem horários rigidamente estabelecidos e estão submetidas a uma autoridade suprema representada pelo Benfeitor. D-503 não percebe inicialmente nada disso como opressão. Pelo contrário: acredita sinceramente viver no ápice da civilização, numa sociedade que finalmente conseguiu substituir a desordem da liberdade pela segurança de uma felicidade racionalmente organizada.

É justamente essa perspectiva que torna o livro tão interessante. Zamyatin não nos apresenta o Estado Único pelos olhos de um rebelde, mas pelos olhos de alguém que acredita profundamente nele. O leitor acompanha, assim, o lento desmoronamento das certezas de D-503 depois que ele conhece I-330, uma mulher misteriosa, provocadora e imprevisível que desperta nele sentimentos que sua lógica matemática é incapaz de explicar. O que começa como atração transforma-se numa verdadeira crise de identidade.

A partir desse ponto, o romance passa a acompanhar menos uma revolução política do que uma revolução interior. D-503 começa a experimentar ciúme, desejo, medo, paixão e imaginação. Em uma das ironias mais marcantes do livro, essas manifestações de interioridade são tratadas como sintomas de uma doença: ele teria desenvolvido uma “alma”. Para o Estado Único, ser plenamente humano é justamente o problema.

Esse é um dos aspectos que mais me impressionaram na leitura. Zamyatin constrói uma sociedade na qual a opressão não se apresenta como crueldade, mas como benevolência. O Estado não afirma querer tornar as pessoas infelizes; pretende fazer exatamente o contrário. Sua justificativa é simples e perturbadora: os seres humanos sofreram durante séculos porque eram livres. A liberdade permitia erros, crimes, conflitos, paixões e decisões equivocadas. A solução encontrada foi eliminar progressivamente a possibilidade de escolha.

O conflito central de Nós, portanto, não é apenas entre liberdade e tirania, mas entre liberdade e felicidade. Zamyatin nos força a considerar uma questão incômoda: se fosse possível construir uma sociedade segura, previsível e relativamente feliz, mas ao custo da individualidade e da autonomia, essa troca seria aceitável?

A matemática ocupa um papel central nessa oposição. Para D-503, linhas retas, números, equações e formas geométricas representam beleza e perfeição. Em contraposição aparecem a natureza, as curvas, o vento, o corpo, o desejo e a imprevisibilidade. Essa simbologia é reforçada pela arquitetura do Estado Único, sobretudo pelos edifícios de vidro, que representam simultaneamente transparência e vigilância. Nada deve permanecer oculto, porque possuir um espaço privado já significa possuir algo que não pertence ao Estado.

Outro símbolo especialmente interessante é o Muro Verde, que separa a cidade racionalizada do mundo exterior. Mais do que uma barreira física, ele divide duas concepções de humanidade: de um lado, ordem, disciplina e previsibilidade; do outro, natureza, instinto e desordem. Zamyatin não romantiza completamente esse mundo exterior, mas deixa claro que a tentativa de eliminar toda a desordem também elimina algo vital.

A própria estrutura do romance acompanha a transformação de D-503. No início, sua escrita é relativamente organizada e confiante. À medida que suas certezas começam a ruir, a prosa se torna cada vez mais fragmentada e nervosa. Em alguns momentos, essa característica torna a leitura deliberadamente confusa. Confesso que houve passagens em que precisei voltar algumas páginas para compreender exatamente o que havia acontecido. Contudo, depois de terminar o livro, percebi que essa dificuldade não é apenas um defeito narrativo: ela reflete o colapso psicológico do protagonista. A linguagem perde a ordem ao mesmo tempo em que D-503 perde sua antiga visão matemática do mundo.

Entre os personagens, I-330 é certamente a presença mais marcante. Mais do que uma simples figura romântica, ela funciona quase como uma força de ruptura. É por meio dela que D-503 entra em contato com o segredo, a desobediência, o desejo e a revolução. Ao mesmo tempo, permanece uma personagem ambígua: nunca sabemos completamente até que ponto seus sentimentos por D-503 são sinceros ou se ele é, em parte, um instrumento para seus objetivos políticos.

O-90, por outro lado, representa uma forma de rebeldia muito diferente. Seu desejo de ter um filho, numa sociedade em que até a reprodução é administrada pelo Estado, transforma uma aspiração íntima em ato político. Esse contraste entre I-330 e O-90 é um dos detalhes que mais enriquecem o romance: uma enfrenta o sistema por meio da revolução organizada; a outra, por meio de um desejo profundamente pessoal.

O desfecho é especialmente sombrio. O Estado percebe que a imaginação é a verdadeira origem da dissidência e desenvolve uma operação destinada a eliminá-la. O resultado é mais perturbador do que uma simples execução: o indivíduo permanece biologicamente vivo, mas aquilo que lhe permitia desejar, imaginar e questionar é destruído. O corpo continua existindo; a pessoa, de certa maneira, não.

Ainda assim, Zamyatin não encerra o livro afirmando simplesmente que o totalitarismo venceu. A resistência continua existindo, e a ordem permanece ameaçada. Essa abertura revela uma das ideias mais importantes do autor: não existe uma última revolução, assim como não existe uma sociedade capaz de encerrar definitivamente a história. Toda ordem que se declara perfeita começa, justamente por isso, a produzir novos dissidentes.

Por ser um dos primeiros grandes romances distópicos do século XX, Nós inevitavelmente lembra 1984 e Admirável Mundo Novo. Mas sua personalidade é bastante própria. Zamyatin é mais experimental, simbólico e filosófico. A obra exige do leitor alguma paciência, principalmente por sua narrativa fragmentada, mas recompensa essa dedicação com questões que continuam extremamente atuais.

O que mais permanece depois da leitura não é exatamente a descrição de um regime político específico, mas uma pergunta sobre a própria condição humana. Talvez uma sociedade pudesse eliminar grande parte da violência, do sofrimento, do risco e da incerteza. Mas, se para isso fosse necessário eliminar também o desejo, o segredo, a imaginação e a possibilidade de errar, ainda poderíamos chamar seus habitantes de verdadeiramente humanos?

Nós é, no fim das contas, um romance sobre o nascimento doloroso do “eu” dentro de uma sociedade que só admite o “nós”. E talvez seja justamente essa tensão — entre a necessidade de pertencer a uma comunidade e a necessidade de continuar sendo uma pessoa singular — que explique por que o livro continua tão provocador mais de um século depois de ter sido escrito.

quinta-feira, agosto 06, 2026

O Sol é Para Todos


Publicado em 1960, O Sol é Para Todos, de Harper Lee (1926-2016), é daqueles livros que conseguem tratar de temas pesados sem perder a delicadeza. Racismo, injustiça, preconceito, pobreza e intolerância atravessam a narrativa, mas tudo é visto, em grande parte, pelos olhos de uma criança. É justamente essa escolha que torna o romance tão poderoso: aquilo que os adultos aprenderam a aceitar como normal surge, para Scout Finch, como algo estranho, contraditório e muitas vezes incompreensível.

A história se passa na pequena cidade fictícia de Maycomb, no Alabama, durante os anos da Grande Depressão. Scout vive com o irmão Jem e com o pai, Atticus Finch, um advogado respeitado da comunidade. Nos primeiros capítulos, o romance parece se concentrar sobretudo nas experiências da infância: brincadeiras, medos, pequenas aventuras e a curiosidade das crianças em torno do misterioso vizinho Boo Radley. Aos poucos, porém, a narrativa muda de tom quando Atticus assume a defesa de Tom Robinson, um homem negro acusado de violentar uma mulher branca.

É a partir daí que Harper Lee revela as estruturas mais profundas de Maycomb. A cidade, aparentemente pacata e organizada, mostra-se sustentada por divisões sociais muito rígidas, preconceitos e uma hierarquia racial praticamente inquestionável. O julgamento de Tom Robinson não representa apenas um caso judicial: ele expõe uma sociedade na qual a verdade pode se tornar secundária quando entra em conflito com preconceitos profundamente arraigados.

Atticus Finch é, sem dúvida, uma das figuras mais marcantes do romance. Sua força não está em grandes discursos ou gestos heroicos, mas na coerência. Ele procura ensinar aos filhos que é necessário compreender as pessoas antes de julgá-las e que agir corretamente continua sendo importante mesmo quando a derrota parece inevitável. Sua concepção de coragem é particularmente interessante: coragem não é vencer, mas permanecer fiel ao que se considera justo mesmo quando todos parecem estar do lado contrário.

No entanto, um dos aspectos mais ricos do livro está justamente na maneira como Scout e Jem observam esse mundo adulto. Conforme crescem, eles percebem que as regras ensinadas pela sociedade nem sempre correspondem à justiça. Pessoas respeitáveis podem agir de maneira covarde; instituições criadas para proteger a verdade podem reproduzir preconceitos; e uma comunidade que se considera civilizada pode tolerar profundas injustiças.

Nesse sentido, O Sol é Para Todos é também um romance sobre a perda da inocência. Scout e Jem passam gradualmente de uma visão infantil relativamente simples para uma compreensão muito mais amarga da sociedade. Crescer significa descobrir que o mundo não funciona necessariamente de acordo com aquilo que deveria ser correto. Mas Harper Lee não transforma essa descoberta em puro pessimismo. Ao lado da intolerância e da violência, existem também dignidade, solidariedade e pessoas dispostas a agir de acordo com a própria consciência.

O simbolismo do título é fundamental para compreender a obra. O título original, To Kill a Mockingbird, remete à ideia de que seria um pecado matar um pássaro que não causa mal e apenas oferece seu canto. Ao longo do livro, essa imagem passa a representar aqueles que são inocentes, frágeis ou injustamente atingidos pela crueldade dos outros. Tom Robinson é a associação mais evidente, mas não a única.

Outro personagem essencial é Boo Radley. Durante boa parte da narrativa, ele existe principalmente na imaginação das crianças, cercado por histórias assustadoras e rumores. A forma como Scout passa a enxergá-lo ao longo do romance funciona quase como um espelho do tema principal da obra: muitas vezes, criamos imagens sobre as pessoas sem realmente conhecê-las. Aprender a enxergar o mundo pela perspectiva do outro é uma das principais lições que Atticus tenta transmitir aos filhos.

Talvez o aspecto mais impressionante de O Sol é Para Todos seja a simplicidade com que coloca questões morais muito profundas. O livro não precisa transformar seus personagens em conceitos ou recorrer a longas reflexões filosóficas. As grandes perguntas aparecem naturalmente na vida cotidiana de Maycomb: o que significa ser justo quando a maioria não é? Até que ponto devemos respeitar uma sociedade cujas regras consideramos erradas? É possível manter a integridade diante da pressão coletiva? E como evitar que nossos próprios preconceitos determinem a maneira como enxergamos os outros?

Harper Lee construiu um romance ao mesmo tempo acessível e profundamente humano. A perspectiva infantil torna a leitura leve em diversos momentos, mas também torna a injustiça ainda mais perturbadora. Quando Scout não consegue compreender determinadas atitudes dos adultos, o leitor é levado a perceber o quanto aquilo que parece absurdo para uma criança pode ter sido naturalizado pela sociedade.

O Sol é Para Todos é, portanto, muito mais do que um romance sobre racismo no sul dos Estados Unidos. É uma obra sobre consciência, empatia e coragem moral. Sobre aprender a olhar para o outro sem os filtros impostos pela comunidade. E, principalmente, sobre a dificuldade de permanecer justo em um mundo no qual a injustiça muitas vezes se apresenta como tradição, costume ou senso comum.

É uma leitura que permanece relevante justamente porque nos obriga a fazer uma pergunta desconfortável: quantas injustiças nós também aprendemos a considerar normais simplesmente porque todos ao nosso redor as aceitam?