Todo grande mito precisa de um fim. Mas Bernard Cornwell compreende que o fim de Artur não poderia ser simplesmente a morte de um homem. Precisava ser o desaparecimento de um mundo.
Excalibur (1999), terceiro e último volume de As Crônicas de Artur, encerra uma das mais fascinantes releituras modernas da lenda arturiana. Depois da ascensão apresentada em O Rei do Inverno e das profundas fissuras políticas, religiosas e pessoais de O Inimigo de Deus, chegamos a uma Bretanha ameaçada não apenas pelos saxões, mas pelas consequências de tudo aquilo que seus personagens fizeram ao longo dos livros anteriores.
É o volume mais melancólico da trilogia.
Artur chega ao último livro como um homem diferente daquele que conhecemos inicialmente. Seu grande sonho sempre foi relativamente simples: pacificar os reinos britânicos, garantir o trono de Mordred e construir uma sociedade governada por leis, juramentos e justiça.
Ele conseguiu muitas dessas coisas... e quase todas fracassaram.
Essa talvez seja a maior tragédia de Artur na interpretação de Cornwell: ele não fracassa porque seus ideais sejam desprezíveis, mas porque acredita que homens imperfeitos conseguirão viver de acordo com eles.
Artur é extraordinário no campo de batalha. Consegue inspirar homens, criar estratégias improváveis e conquistar a lealdade daqueles que lutam ao seu lado. Entretanto, sua capacidade militar nunca é suficiente para controlar ambições, paixões, ressentimentos e fanatismos.
Em Excalibur, essa contradição finalmente cobra seu preço.
E é por isso que a grandeza do Artur de Cornwell está justamente em sua humanidade. Não estamos diante de um rei predestinado, protegido pelos deuses e portador de uma espada mágica. Estamos diante de um homem tentando impor alguma ordem a um mundo que parece condenado ao caos.
Ao seu lado continua Derfel Cadarn, talvez o verdadeiro coração de toda a trilogia.
Desde o primeiro livro sabemos que Derfel sobreviverá. O velho monge que escreve secretamente suas memórias já nos revelou isso. Mesmo assim, Cornwell consegue produzir enorme tensão porque aquilo que realmente importa não é saber se Derfel viverá, mas descobrir o que ele perderá para chegar até aquele mosteiro.
E ele perde muito.
É em Excalibur que percebemos plenamente a importância da estrutura narrativa escolhida por Cornwell. O velho Derfel não está apenas contando aventuras de juventude. Está tentando salvar da morte aqueles que amou: Artur, Merlim, Nimue, Ceinwyn e seus companheiros de batalha.
Enquanto escreve seus nomes, eles continuam existindo. A escrita transforma-se, assim, em resistência contra o esquecimento. Isso se conecta diretamente a um dos grandes temas da trilogia: a diferença entre aquilo que aconteceu e aquilo que será lembrado.
Lancelot talvez seja o exemplo mais irônico. Ao longo dos livros acompanhamos um homem cuja reputação frequentemente supera sua coragem. Mas sabemos que a tradição futura o transformará em um dos maiores cavaleiros da história.
Derfel, ao contrário, realizou feitos extraordinários e praticamente desapareceu do imaginário popular.
Cornwell parece nos lembrar que a História não pertence necessariamente àqueles que fizeram grandes coisas. Pertence muitas vezes àqueles cuja história foi contada.
Merlim também encontra neste volume a conclusão de sua grande obsessão: restaurar os antigos deuses da Bretanha.
Desde o início da trilogia ele percebe algo que os outros personagens demoram a compreender. A guerra mais importante talvez não seja entre britânicos e saxões, mas entre dois mundos.
O paganismo está desaparecendo.
O cristianismo está crescendo.
Os antigos rituais, lugares sagrados e deuses pertencem a uma sociedade que está chegando ao fim. Merlim luta contra essa transformação com tudo o que possui e talvez seja justamente por isso que sua trajetória seja tão triste.
Artur luta pelo futuro.
Merlim luta pelo passado.
Derfel fica preso entre os dois.
A religião, aliás, permanece como uma das maiores forças de Excalibur. Cornwell não apresenta simplesmente cristãos maus contra pagãos bons, ou o contrário. O que ele mostra é o perigo que surge quando alguém acredita possuir uma verdade tão absoluta que qualquer violência pode ser justificada para defendê-la.
Nimue representa a face mais extrema dessa transformação.
A menina ferida e determinada que conhecemos em O Rei do Inverno percorre um dos caminhos mais perturbadores da trilogia. Sua devoção aos deuses cresce até ocupar praticamente todo o espaço de sua humanidade.
Sua trajetória levanta uma das perguntas mais desconfortáveis do romance: quanto de nós mesmos podemos sacrificar por aquilo em que acreditamos antes que a própria crença nos destrua?
Enquanto tudo isso acontece, a ameaça saxônica finalmente atinge seu ponto decisivo.
E então chegamos a um dos grandes momentos de toda a trilogia: a batalha de Mynydd Baddon.
Cornwell sempre foi extraordinário escrevendo batalhas, mas aqui ele alcança um de seus melhores resultados. A luta não funciona apenas como espetáculo militar. Tudo o que acompanhamos durante três livros converge para aquele momento.
A política.
As alianças.
As traições.
As amizades.
Os juramentos.
O talento militar de Artur.
A lealdade de Derfel.
A sobrevivência da própria Bretanha.
A batalha é brutal, confusa e desesperadora, exatamente como foram os melhores combates dos livros anteriores. Mas agora existe algo diferente: sabemos que estamos assistindo ao último grande momento de um mundo.
É uma vitória que carrega gosto de despedida.
Essa sensação domina todo o romance.
Excalibur fala constantemente sobre coisas que terminam: amizades, amores, religiões, reinos, sonhos e épocas históricas.
Por isso o livro possui uma tristeza que não existia com a mesma intensidade em O Rei do Inverno. Naquele primeiro volume ainda parecia possível construir alguma coisa. Agora, mesmo quando os personagens vencem, percebemos que determinadas derrotas são inevitáveis.
Roma não voltará.
Os antigos deuses provavelmente não voltarão.
A Bretanha que Artur tentou construir não durará para sempre.
E os homens que viveram aqueles acontecimentos serão substituídos pelas lendas criadas sobre eles.
É justamente nesse ponto que Bernard Cornwell realiza seu maior feito.
Durante três livros, ele retirou de Artur praticamente tudo aquilo que associamos ao mito.
Não há Camelot resplandecente.
Não há cavaleiros em armaduras medievais.
Não há magia incontestável.
Não há um rei perfeito governando uma sociedade ideal.
E, paradoxalmente, ao retirar a lenda, Cornwell faz Artur parecer ainda maior.
Porque seu Artur não precisa ser escolhido pelos deuses. Ele escolhe tentar ser um homem justo.
Não precisa possuir poderes sobrenaturais. Sua capacidade de inspirar outros homens já é extraordinária.
Não precisa construir um reino eterno. Basta que aqueles que lutaram ao seu lado continuem acreditando no que ele tentou construir.
O final de Excalibur preserva ainda uma última e belíssima ambiguidade. Cornwell sabe que explicar completamente o destino de Artur destruiria parte daquilo que torna sua história eterna.
Por isso, depois de centenas de páginas tentando transformar mito em História, ele permite que a História volte a se transformar em mito.
É o encerramento perfeito para a proposta da trilogia.
Quando terminamos Excalibur, finalmente entendemos por que o velho Derfel precisava escrever.
Ele não estava apenas contando a história de Artur.
Estava testemunhando o desaparecimento de seu mundo.
E talvez seja essa a razão pela qual As Crônicas de Artur permaneçam tão marcantes depois da última página. Bernard Cornwell começa perguntando como poderia ter sido o Artur histórico e termina mostrando como um homem histórico poderia ter se tornado lenda.