A História da Cerveja no Brasil: O Legado de Stupakoff e Künning (2024), de Rogério Furtado e Henri Kistler, publicado pela Ateliê Editorial, é daqueles livros cujo título parece dizer exatamente o que encontraremos em suas páginas, mas que, ao final, revela ter contado uma história muito maior. A cerveja é o fio condutor, mas por trás dela surge um amplo retrato da formação da indústria brasileira, da imigração europeia e das profundas transformações econômicas e sociais ocorridas no país entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX.
O grande mérito da obra está justamente em retirar do anonimato personagens que tiveram participação importante nesse processo, particularmente Heinrich Stupakoff e Johann Künning. Ao acompanhar suas trajetórias, percebemos que a história da cerveja brasileira não pode ser reduzida simplesmente ao surgimento das grandes marcas que posteriormente dominaram o mercado. Antes delas existiram empresários, imigrantes, técnicos e comerciantes que precisaram lidar com dificuldades de produção, importação de equipamentos e matérias-primas, tributação, transporte e com um mercado consumidor ainda em formação.
Stupakoff aparece como figura fundamental da indústria cervejeira paulista, especialmente por sua ligação com a Cervejaria Bavaria, posteriormente adquirida pela Antarctica. Künning, por sua vez, tornou-se personagem importante da Brahma e também da própria organização institucional da indústria brasileira, participando de debates empresariais e políticos relacionados à tributação e às condições necessárias ao desenvolvimento industrial do país.
É justamente nesses momentos que o livro se torna particularmente interessante. Aos poucos, percebemos que contar a história de uma cervejaria significa inevitavelmente contar também a história do Brasil. Questões aparentemente prosaicas — como produzir gelo, transportar garrafas, importar cevada, conseguir máquinas ou pagar impostos — revelam os enormes desafios enfrentados por quem pretendia estabelecer uma atividade industrial em um país que ainda construía sua infraestrutura e passava da economia predominantemente agrária para uma sociedade cada vez mais urbana e industrializada.
Outro aspecto interessante é perceber como o hábito brasileiro de consumir cerveja foi sendo construído. A bebida que hoje parece completamente incorporada à cultura nacional atravessou diferentes fases, desde a predominância das cervejas importadas até o estabelecimento da produção nacional em escala industrial. A influência dos imigrantes, especialmente alemães, as mudanças tecnológicas e a crescente preferência pelas cervejas de baixa fermentação ajudam a explicar a transformação não apenas da indústria, mas também do próprio gosto dos consumidores brasileiros.
O trabalho de pesquisa realizado pelos autores merece destaque. Fotografias, documentos, anúncios, registros empresariais e personagens pouco conhecidos ajudam a reconstruir um universo que poderia facilmente ter desaparecido da memória. Esse caráter documental é uma das maiores qualidades do livro e provavelmente será especialmente apreciado por quem gosta de história econômica, empresarial ou da própria formação de São Paulo e do Rio de Janeiro.
Por outro lado, essa mesma riqueza de informações pode tornar alguns trechos mais densos. Quem procurar uma narrativa leve ou uma história geral e cronológica de todas as cervejarias brasileiras talvez encontre uma obra diferente da imaginada. O subtítulo — “O legado de Stupakoff e Künning” — é importante para compreender sua proposta: trata-se menos de uma enciclopédia completa da cerveja brasileira e mais de uma investigação histórica conduzida principalmente a partir desses dois personagens e das empresas e instituições que gravitaram ao seu redor.
E talvez seja exatamente essa escolha que dê personalidade ao livro. Em vez de repetir apenas a história das marcas que sobreviveram, os autores voltam sua atenção para pessoas, empresas e acontecimentos que acabaram obscurecidos pelo tempo. Com isso, mostram que as grandes companhias que conhecemos hoje não surgiram prontas: foram resultado de uma longa sucessão de iniciativas empresariais, incorporações, disputas comerciais, avanços tecnológicos e mudanças econômicas.
Para quem aprecia cerveja, é uma leitura especialmente prazerosa porque acrescenta uma dimensão histórica àquilo que encontramos hoje em uma simples garrafa ou copo. Depois da leitura, nomes como Brahma, Antarctica e Bavaria deixam de ser apenas marcas e passam a representar capítulos de uma história muito mais ampla de empreendedorismo, imigração, industrialização e transformação dos hábitos brasileiros.
Mas considero que o maior mérito de A História da Cerveja no Brasil seja justamente conseguir interessar mesmo além do universo cervejeiro. No fundo, é um livro sobre pessoas tentando construir empresas e instituições em um país que também estava tentando construir a si próprio.
A cerveja está em praticamente todas as páginas, mas, quando fechamos o livro, percebemos que aprendemos muito mais sobre o Brasil do que apenas sobre cerveja.
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