sábado, agosto 15, 2026

Nós


Nós, de Yevgeny Zamyatin (1884-1937), é uma daquelas obras cuja importância histórica quase corre o risco de eclipsar suas qualidades literárias. Escrito no início da década de 1920 e publicado pela 1ª vez em 1924, pouco depois da Revolução Russa, o romance é frequentemente lembrado como um dos grandes precursores da literatura distópica e como influência decisiva para obras posteriores, sobretudo 1984, de George Orwell. No entanto, reduzi-lo à condição de “antecessor das distopias modernas” seria injusto. Nós permanece uma obra inquietante por mérito próprio, especialmente por sua reflexão sobre liberdade, felicidade, individualidade e os perigos de uma sociedade que pretende transformar a vida humana em uma equação perfeita.

A narrativa é apresentada na forma do diário de D-503, engenheiro e matemático do Estado Único, uma sociedade futura em que praticamente todos os aspectos da existência são regulados. As pessoas não possuem nomes, mas números; vivem em edifícios de vidro; seguem horários rigidamente estabelecidos e estão submetidas a uma autoridade suprema representada pelo Benfeitor. D-503 não percebe inicialmente nada disso como opressão. Pelo contrário: acredita sinceramente viver no ápice da civilização, numa sociedade que finalmente conseguiu substituir a desordem da liberdade pela segurança de uma felicidade racionalmente organizada.

É justamente essa perspectiva que torna o livro tão interessante. Zamyatin não nos apresenta o Estado Único pelos olhos de um rebelde, mas pelos olhos de alguém que acredita profundamente nele. O leitor acompanha, assim, o lento desmoronamento das certezas de D-503 depois que ele conhece I-330, uma mulher misteriosa, provocadora e imprevisível que desperta nele sentimentos que sua lógica matemática é incapaz de explicar. O que começa como atração transforma-se numa verdadeira crise de identidade.

A partir desse ponto, o romance passa a acompanhar menos uma revolução política do que uma revolução interior. D-503 começa a experimentar ciúme, desejo, medo, paixão e imaginação. Em uma das ironias mais marcantes do livro, essas manifestações de interioridade são tratadas como sintomas de uma doença: ele teria desenvolvido uma “alma”. Para o Estado Único, ser plenamente humano é justamente o problema.

Esse é um dos aspectos que mais me impressionaram na leitura. Zamyatin constrói uma sociedade na qual a opressão não se apresenta como crueldade, mas como benevolência. O Estado não afirma querer tornar as pessoas infelizes; pretende fazer exatamente o contrário. Sua justificativa é simples e perturbadora: os seres humanos sofreram durante séculos porque eram livres. A liberdade permitia erros, crimes, conflitos, paixões e decisões equivocadas. A solução encontrada foi eliminar progressivamente a possibilidade de escolha.

O conflito central de Nós, portanto, não é apenas entre liberdade e tirania, mas entre liberdade e felicidade. Zamyatin nos força a considerar uma questão incômoda: se fosse possível construir uma sociedade segura, previsível e relativamente feliz, mas ao custo da individualidade e da autonomia, essa troca seria aceitável?

A matemática ocupa um papel central nessa oposição. Para D-503, linhas retas, números, equações e formas geométricas representam beleza e perfeição. Em contraposição aparecem a natureza, as curvas, o vento, o corpo, o desejo e a imprevisibilidade. Essa simbologia é reforçada pela arquitetura do Estado Único, sobretudo pelos edifícios de vidro, que representam simultaneamente transparência e vigilância. Nada deve permanecer oculto, porque possuir um espaço privado já significa possuir algo que não pertence ao Estado.

Outro símbolo especialmente interessante é o Muro Verde, que separa a cidade racionalizada do mundo exterior. Mais do que uma barreira física, ele divide duas concepções de humanidade: de um lado, ordem, disciplina e previsibilidade; do outro, natureza, instinto e desordem. Zamyatin não romantiza completamente esse mundo exterior, mas deixa claro que a tentativa de eliminar toda a desordem também elimina algo vital.

A própria estrutura do romance acompanha a transformação de D-503. No início, sua escrita é relativamente organizada e confiante. À medida que suas certezas começam a ruir, a prosa se torna cada vez mais fragmentada e nervosa. Em alguns momentos, essa característica torna a leitura deliberadamente confusa. Confesso que houve passagens em que precisei voltar algumas páginas para compreender exatamente o que havia acontecido. Contudo, depois de terminar o livro, percebi que essa dificuldade não é apenas um defeito narrativo: ela reflete o colapso psicológico do protagonista. A linguagem perde a ordem ao mesmo tempo em que D-503 perde sua antiga visão matemática do mundo.

Entre os personagens, I-330 é certamente a presença mais marcante. Mais do que uma simples figura romântica, ela funciona quase como uma força de ruptura. É por meio dela que D-503 entra em contato com o segredo, a desobediência, o desejo e a revolução. Ao mesmo tempo, permanece uma personagem ambígua: nunca sabemos completamente até que ponto seus sentimentos por D-503 são sinceros ou se ele é, em parte, um instrumento para seus objetivos políticos.

O-90, por outro lado, representa uma forma de rebeldia muito diferente. Seu desejo de ter um filho, numa sociedade em que até a reprodução é administrada pelo Estado, transforma uma aspiração íntima em ato político. Esse contraste entre I-330 e O-90 é um dos detalhes que mais enriquecem o romance: uma enfrenta o sistema por meio da revolução organizada; a outra, por meio de um desejo profundamente pessoal.

O desfecho é especialmente sombrio. O Estado percebe que a imaginação é a verdadeira origem da dissidência e desenvolve uma operação destinada a eliminá-la. O resultado é mais perturbador do que uma simples execução: o indivíduo permanece biologicamente vivo, mas aquilo que lhe permitia desejar, imaginar e questionar é destruído. O corpo continua existindo; a pessoa, de certa maneira, não.

Ainda assim, Zamyatin não encerra o livro afirmando simplesmente que o totalitarismo venceu. A resistência continua existindo, e a ordem permanece ameaçada. Essa abertura revela uma das ideias mais importantes do autor: não existe uma última revolução, assim como não existe uma sociedade capaz de encerrar definitivamente a história. Toda ordem que se declara perfeita começa, justamente por isso, a produzir novos dissidentes.

Por ser um dos primeiros grandes romances distópicos do século XX, Nós inevitavelmente lembra 1984 e Admirável Mundo Novo. Mas sua personalidade é bastante própria. Zamyatin é mais experimental, simbólico e filosófico. A obra exige do leitor alguma paciência, principalmente por sua narrativa fragmentada, mas recompensa essa dedicação com questões que continuam extremamente atuais.

O que mais permanece depois da leitura não é exatamente a descrição de um regime político específico, mas uma pergunta sobre a própria condição humana. Talvez uma sociedade pudesse eliminar grande parte da violência, do sofrimento, do risco e da incerteza. Mas, se para isso fosse necessário eliminar também o desejo, o segredo, a imaginação e a possibilidade de errar, ainda poderíamos chamar seus habitantes de verdadeiramente humanos?

Nós é, no fim das contas, um romance sobre o nascimento doloroso do “eu” dentro de uma sociedade que só admite o “nós”. E talvez seja justamente essa tensão — entre a necessidade de pertencer a uma comunidade e a necessidade de continuar sendo uma pessoa singular — que explique por que o livro continua tão provocador mais de um século depois de ter sido escrito.

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