Se O Rei do Inverno é o romance da ascensão de Artur e da tentativa de construir uma Bretanha unificada, O Inimigo de Deus (1996) é o livro em que Bernard Cornwell (1944-) começa a mostrar o preço desse sonho.
Segundo volume de As Crônicas de Artur, o romance retoma as memórias de Derfel Cadarn, agora um velho monge encarregado de registrar uma história muito diferente daquela que os homens de seu tempo aprenderam a contar. Mais uma vez, Cornwell parte das lendas arturianas para realizar um exercício fascinante: imaginar quais acontecimentos históricos poderiam ter dado origem aos mitos de Artur, Merlim, Guinevere, Lancelot, Excalibur e da Távola Redonda.
Mas há uma diferença importante em relação ao primeiro livro. Se O Rei do Inverno apresentava um mundo ainda aberto a possibilidades, O Inimigo de Deus é muito mais sombrio.
Artur conseguiu aquilo que parecia impossível. Depois de anos de guerras entre os próprios britânicos, existe finalmente a possibilidade de paz. Os antigos inimigos podem voltar sua atenção para a ameaça saxônica, e o sonho de uma Bretanha unificada parece mais próximo.
É justamente quando Artur vence que começam seus maiores problemas.
Essa talvez seja a grande ideia do romance: conquistar a paz pode ser mais fácil do que preservá-la.
Artur continua sendo um dos personagens mais fascinantes da trilogia. Ele não é rei, embora possua mais autoridade que muitos reis. Não busca construir uma dinastia nem deseja uma coroa. Seu projeto é criar uma sociedade mais justa, na qual as leis sejam respeitadas, os juramentos tenham valor e os diferentes reinos britânicos consigam coexistir.
É um projeto admirável...e talvez impossível...
Quanto mais Artur tenta governar racionalmente, mais percebemos que ele vive em um mundo movido por forças que não consegue controlar: religião, vingança, ambição, desejo e medo.
Nesse aspecto, O Inimigo de Deus é ainda mais interessante politicamente que seu antecessor. Artur sabe vencer batalhas, mas descobre que não existe formação de escudos capaz de protegê-lo da intolerância religiosa, das conspirações políticas ou das fraquezas daqueles que ama.
E é justamente a religião que assume uma importância extraordinária neste segundo volume.
O conflito entre cristãos e seguidores dos antigos deuses deixa de ser apenas parte do cenário para se transformar em uma das principais forças da narrativa. O cristianismo cresce rapidamente e alguns de seus seguidores passam a enxergar Artur como obstáculo à construção de uma Bretanha verdadeiramente cristã.
Surge então a pergunta que dá sentido ao próprio título do livro: Quem é o inimigo de Deus?
Para determinados cristãos, é Artur, que tolera pagãos e procura manter a religião afastada do governo. Para os seguidores dos antigos deuses, são os cristãos que destroem templos, tradições e costumes ancestrais. Para Merlim, talvez o verdadeiro inimigo seja simplesmente o tempo, pois cada ano que passa torna mais distante a possibilidade de restaurar o mundo em que acredita.
Cornwell evita oferecer respostas fáceis. Existem cristãos fanáticos e cristãos honestos. Existem pagãos sábios e pagãos cruéis. A fé pode inspirar coragem, compaixão e esperança, mas também pode justificar violência e intolerância. É nessa ambiguidade que o romance encontra boa parte de sua força.
Merlim, por sua vez, ganha ainda mais importância. Sua busca pelos antigos tesouros da Bretanha é muito mais do que uma aventura. Ele tenta realizar algo desesperado: devolver os deuses à ilha antes que seja tarde demais.
Há algo profundamente melancólico nesse personagem. Merlim sabe que talvez esteja lutando por um mundo condenado a desaparecer. Enquanto Artur tenta construir o futuro, Merlim luta para recuperar o passado.
Entre os dois está Derfel. E talvez seja Derfel quem torne toda essa história verdadeiramente humana.
Sua lealdade a Artur continua sendo um dos pilares do romance, mas sua relação com Merlim, Nimue e os antigos deuses coloca-o constantemente entre mundos diferentes. Guerreiro, amigo, amante e testemunha, Derfel participa de acontecimentos extraordinários sem jamais deixar de parecer um homem comum diante deles.
O fato de conhecermos desde o início seu destino como velho monge acrescenta uma camada particularmente interessante à narrativa. O guerreiro pagão que testemunhou o auge do sonho de Artur escreve suas memórias dentro de um mosteiro cristão. A religião que parecia ameaçar desaparecer acabou sobrevivendo; aquela pela qual Merlim e Nimue lutaram transformou-se em lembrança.
O próprio narrador é, portanto, uma prova viva da passagem do tempo.
Outro personagem que se torna ainda mais interessante é Lancelot. Cornwell continua sua deliciosa desconstrução de um dos maiores heróis da tradição arturiana. Existe uma distância enorme entre o homem que Derfel conhece e o herói que as gerações futuras celebrarão.
Essa diferença entre memória e História, verdade e lenda permanece como um dos temas mais inteligentes da trilogia.
Cornwell parece perguntar constantemente: quem decide quais homens serão lembrados como heróis?
Talvez não sejam necessariamente os mais corajosos.
Talvez sejam aqueles cuja versão da história sobrevive.
Também é neste volume que alguns dos elementos mais famosos do imaginário arturiano começam a assumir formas reconhecíveis. A Távola Redonda, o Santo Graal e outras imagens conhecidas da tradição aparecem reinterpretadas de maneira coerente com o mundo brutal e historicamente plausível criado pelo autor.
Até mesmo a magia continua envolvida em dúvida. Os rituais de Merlim e Nimue são descritos pelos olhos de pessoas que acreditam profundamente nos deuses. Algumas coincidências parecem sobrenaturais; outras podem ser explicadas racionalmente. Cornwell jamais destrói completamente nenhuma das possibilidades. A magia existe para quem acredita nela — e talvez isso seja suficiente.
As batalhas continuam excelentes, mas curiosamente não são o que mais impressiona em O Inimigo de Deus. Bernard Cornwell permanece um extraordinário escritor de combates, porém os momentos mais fortes do romance surgem frequentemente longe dos campos de batalha: São traições, juramentos quebrados, fanatismo, desejos, amizades colocadas à prova e principalmente as consequências das escolhas feitas anteriormente.
No fundo, O Inimigo de Deus é um livro sobre o fracasso dos grandes projetos diante da natureza humana.
Artur deseja razão.
Merlim deseja tradição.
Os cristãos desejam Deus.
Os reis desejam poder.
Os homens desejam vingança.
E todos esses desejos precisam coexistir na mesma Bretanha.
É difícil imaginar que isso termine bem.
Ao final, Bernard Cornwell deixa uma sensação inquietante. A ameaça saxônica continua existindo, mas talvez ela nem seja o maior perigo para o sonho de Artur. O verdadeiro inimigo pode estar dentro da própria sociedade que ele tenta preservar.
Se O Rei do Inverno me conquistou ao transformar a lenda em História, O Inimigo de Deus aprofunda essa proposta ao transformá-la em tragédia.
Já não estamos apenas assistindo ao nascimento da lenda do rei Artur.
Estamos começando a compreender por que ela precisará ser uma lenda.
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