quarta-feira, janeiro 21, 2026

Colapso


Colapso, publicado em 2023, é um romance pós-apocalíptico visceral e brutal sobre um mundo em que civilização, Estado e normas sociais simplesmente deixaram de existir, um cenário em que a sobrevivência reduziu as relações humanas às suas formas mais cruas e extremas. A narrativa apresenta um Brasil completamente arruinado, onde cidades tornaram-se ruínas e os sobreviventes lutam não só contra o ambiente inóspito, mas uns contra os outros, num estado de selvageria.

Esse ambiente desencadeia reflexões filosóficas profundas, que vão além da ficção: a obra coloca em xeque a ideia de moralidade quando não existe um Estado, uma lei ou uma estrutura social capaz de manter a ordem. Roberto Denser (1895-) se inspira claramente em uma perspectiva hobbesiana (a de que, sem contrato social, o “homem é lobo do homem”) e leva essa visão aos limites narrativos.

Narrativamente, o livro não é confortável. A violência, o horror, cenas perturbadoras e temas pesados aparecem de forma direta e sem filtro. Essa brutalidade não parece gratuita, mas deliberada, como forma de confrontar o leitor com o que acontece quando todas as camadas civilizatórias se desfazem.

Um dos pontos fortes da obra é como ela humaniza personagens em meio ao caos. Em vez de figuras monolíticas de sobreviventes, há pessoas com dilemas, fraquezas, traumas, motivações contraditórias. A narrativa expõe tanto a pior face da condição humana quanto instantes de ternura e conexão, sugerindo que até no pior cenário possível ainda podem existir elementos que nos tornam humanos.

Colapso pode ser visto tanto como um espelho perturbador da violência latente em nossa sociedade contemporânea quanto como uma peça de ficção que desafia o leitor a confrontar sua própria relação com moralidade, sobrevivência e empatia quando todos os dispositivos sociais comuns deixam de existir.

Essa mistura de crítica social, horror e filosofia existencial faz do livro uma obra impactante, capaz de reverberar na nossa cabeça muito depois da última página mas não é, de modo algum, uma leitura leve.

sábado, janeiro 17, 2026

Larousse da Cerveja


O Larousse da Cerveja, publicado em 2017, pertence àquela linhagem rara de livros que revelam como temas tidos como simples apenas aguardam o olhar certo para se tornarem vastos. Nas mãos de Ronaldo Morado (1956-), a cerveja deixa de ser apenas bebida e passa a ser linguagem: um meio pelo qual curiosidade, rigor e paixão fermentam conhecimento. Cervejeiro e pesquisador atento ao amadurecimento da cultura cervejeira brasileira desde os anos 1990, Morado constrói uma verdadeira enciclopédia em português, sólida e generosa, como se oferecesse ao leitor um mapa para navegar esse universo.

A narrativa recua às primeiras civilizações e avança até a presença global contemporânea da cerveja, costurando fatos históricos, práticas sociais e pequenas curiosidades que ampliam o horizonte do leitor. A bebida surge como testemunha silenciosa das transformações humanas: acompanha rituais, atravessa revoluções, adapta-se às mudanças culturais. Nesse movimento, o livro se aproxima de uma antropologia líquida, em que cada gole parece carregar vestígios da própria história da civilização.

Sem abandonar o lirismo, a obra também se ancora na técnica. Funciona como guia de estilos, ingredientes e processos produtivos, explicados com clareza e equilíbrio. Morado consegue o raro feito de falar ao iniciante sem simplificar em excesso e, ao mesmo tempo, oferecer densidade suficiente a quem deseja aprofundar o olhar como uma conversa que começa casual e termina intelectualmente estimulante.

O cuidado editorial reforça essa experiência. Ilustrações, fotografias de copos e mapas não são ornamentos, mas extensões do texto, ajudando a organizar visualmente um saber vasto. O alinhamento aos parâmetros do BJCP confere rigor e atualidade, conectando a obra brasileira a referências internacionais consolidadas.

Ao fim, o Larousse da Cerveja se afirma como mais do que um livro de consulta. Ele traduz, organiza e celebra uma visão ampla da cerveja como fenômeno cultural. Brilha como referência, mas também como convite: o de compreender que, por trás de algo tão cotidiano, existe uma história longa, complexa e profundamente humana sempre à espera de quem esteja disposto a ler o mundo através de um copo.

segunda-feira, janeiro 12, 2026

Vidas Secas

Vidas Secas é um daqueles livros aparentemente magros, mas de densidade geológica. Publicado em 1938, ele faz algo curioso: usa o sertão nordestino como cenário para falar menos de geografia e mais de condição humana. A seca, aliás, é menos um fenômeno climático e mais um princípio organizador da existência.

A narrativa acompanha a família de Fabiano — Sinhá Vitória, dois filhos sem nome e a cadela Baleia — em um movimento circular de fuga e retorno à miséria. Não há progresso, apenas deslocamento. Graciliano (1892-1953) constrói o romance em episódios quase autônomos, o que reforça a sensação de repetição e estagnação: a vida não avança, apenas insiste. Essa estrutura fragmentada não é um artifício estético gratuito; ela espelha uma realidade social em que o tempo histórico parece suspenso.

Fabiano é o centro trágico do livro. Ele não é um herói, nem um rebelde, nem sequer um sujeito plenamente consciente de sua opressão. É um homem embrutecido, reduzido à luta pela sobrevivência, incapaz de dominar a linguagem e, por isso mesmo, incapaz de se defender das estruturas que o esmagam. A famosa dificuldade de Fabiano com as palavras não é só psicológica: é política. Quem não nomeia o mundo não consegue transformá-lo.

Sinhá Vitória, por sua vez, introduz um fio tênue de desejo e projeto. O sonho da cama de couro é pequeno, quase ridículo à primeira vista, mas é justamente aí que Graciliano é implacável: o horizonte de aspirações é tão estreito quanto o mundo que lhes é permitido habitar. Ainda assim, esse sonho revela uma humanidade resistente, uma recusa silenciosa a aceitar a animalização completa.

E então há Baleia, talvez a personagem mais perturbadoramente humana do romance. A cadela pensa, sofre, sonha. Sua morte é um dos momentos mais duros da literatura brasileira, não por sentimentalismo, mas pela inversão cruel que propõe: o animal tem acesso a uma interioridade que os humanos, esmagados pela miséria, mal conseguem exercer. Graciliano não está romantizando o bicho; está denunciando o quanto a pobreza rouba até mesmo a possibilidade de pensar.

Vidas Secas evita tanto a idealização do povo quanto a caricatura miserabilista. Graciliano não oferece soluções, não aponta saídas fáceis, não transforma seus personagens em símbolos redentores. O que ele faz é mais desconfortável: expõe uma estrutura social que produz vidas reduzidas ao mínimo e segue funcionando normalmente. O incômodo do livro está justamente na ausência de catarse.

No fim, Vidas Secas não é apenas um romance sobre a seca nordestina. É uma investigação radical sobre o que acontece quando a sociedade falha de modo sistemático e prolongado. O resultado não é revolta épica nem tragédia grandiosa, mas algo talvez mais terrível: a normalização da desumanização. Ler Graciliano Ramos é encarar um espelho áspero e descobrir que, em muitos aspectos, ele ainda reflete o Brasil de hoje.

sexta-feira, janeiro 09, 2026

O Senso Religioso


Ler O Senso Religioso, publicado como livro em 1997, é entrar num território desconfortável para o leitor moderno: um lugar onde a razão não é reduzida a cálculo e a fé não é tratada como anestesia existencial. Luigi Giussani (1922-2005) escreve contra duas caricaturas muito persistentes: a da religião como irracionalidade e a da razão como algo que só opera no que é mensurável.

A tese central do livro é simples de enunciar e difícil de engolir: o senso religioso é uma dimensão constitutiva da experiência humana, não um acréscimo cultural nem um resíduo de ignorância pré-científica. Giussani não começa por Deus, pela Revelação ou pela Igreja. Ele começa pelo homem concreto, com seus desejos de felicidade, justiça, verdade e beleza — desejos que nenhuma resposta parcial consegue saciar. A aposta é clara: se somos intelectualmente honestos, esses desejos apontam para algo que transcende o finito.

O grande mérito do livro está no método. Giussani não argumenta por dedução abstrata, mas por verificação existencial. Ele convida o leitor a observar a própria experiência com rigor quase científico: o que acontece quando tentamos reduzir nossos anseios últimos a dinheiro, poder, prazer ou reconhecimento? O resultado, para ele, é sempre um déficit de sentido.

Há também uma crítica incisiva ao racionalismo moderno. Para Giussani, a modernidade não ampliou a razão; ela a mutilou, confinando-a ao que pode ser medido ou controlado. O efeito colateral é um homem tecnicamente poderoso, mas existencialmente empobrecido. O livro ganha força justamente por não rejeitar a razão, mas por exigir que ela seja levada até o fim — inclusive quando isso a obriga a reconhecer a abertura ao Mistério.

O Senso Religioso permanece uma obra notavelmente atual. Em uma época marcada por espiritualidades utilitárias e discursos que confundem tolerância com indiferença, Giussani propõe algo radicalmente contraintuitivo: levar o desejo humano a sério até o fim, sem censurá-lo e sem domesticá-lo. O livro não oferece conforto fácil, mas oferece um critério exigente para julgar a própria vida.

Em última análise, a força do livro não está em provar a existência de Deus, mas em tornar difícil a posição de quem afirma que a pergunta por Ele é irrelevante. Giussani não obriga o leitor a crer — obriga apenas a não mentir para si mesmo. E isso, para qualquer época, é uma provocação de alto risco intelectual.

quinta-feira, janeiro 01, 2026

Cervejas: Uma Nova Descoberta


Desde 2010, este blog funciona como uma espécie de diário líquido: um espaço onde registro minha relação com algumas bebidas, sobretudo o café. Uma relação, diga-se, nada simples.

Já escrevi aqui, mais de uma vez, sobre minha convivência conturbada com o café. Passei por diferentes métodos, máquinas e tentativas de sofisticação, mas, como acontece com tantas coisas da infância, sempre acabei retornando ao ponto de partida: café de pó simples, adoçado — antes com açúcar, hoje mais frequentemente com adoçante. Atualmente, confesso sem pudor, a forma que mais consumo café é a instantânea, misturada com leite. Os puristas que me perdoem (ou não).

Em março de 2021, este blog registrou outra virada: a descoberta do universo dos drinks. Tudo começou com a retomada do consumo de whisky e, a partir dali, passei a experimentar coquetéis variados, seja preparando em casa, seja degustando em restaurantes. Vieram novas garrafas, acessórios e até um aplicativo dedicado ao preparo de drinks.

Curiosamente, naquele mesmo texto de 2021, deixei registrado algo que hoje soa quase como uma profecia invertida: “Já tentei por diversas vezes gostar de cerveja, mas essa bebida realmente não é pra mim. Nunca gostei de tomar nenhuma cerveja ou chopp!”.

Corta para 2025, e uma nova relação com as bebidas se abriu diante de mim — de um jeito totalmente inesperado.

O ponto de partida foi prosaico: a compra de uma cervejeira, em outubro de 2024. A ideia era simples e funcional: utilizá-la em dias de festa, evitando a eterna disputa por espaço na geladeira e no freezer, soluções pouco eficientes para manter bebidas na temperatura ideal. Para não deixá-la vazia, abasteci com refrigerantes para consumo cotidiano e cervejas pensadas, inicialmente, apenas para as visitas.

Com o tempo, acabei tomando uma cerveja ou outra, mas ainda sem grande entusiasmo. Mantinha-me fiel ao refrigerante. Nessa fase, passaram pela cervejeira rótulos como Amstel e algumas da Eisenbahn, mais por conveniência do que por interesse genuíno.

Tudo mudou em 19 de junho de 2025. Nesse dia, aproveitando uma promoção de supermercado, comprei uma cerveja completamente diferente de tudo o que já havia experimentado: a Hoegaarden Wit/Blanche, uma cerveja belga de trigo. Ao provar, percebi algo novo — um sabor distante das tradicionais cervejas brasileiras, leve, aromático e surpreendentemente agradável ao meu paladar.

Pouco mais de um mês depois, em 26 de julho, durante um jantar no restaurante Dona Lenha, deparei-me com uma carta de cervejas artesanais. Pela primeira vez, troquei o drink habitual por uma cerveja: a Poderator Doppelbock, da Cervejaria Quatro Poderes, de Brasília. O impacto foi imediato. Havia ali sabores que eu jamais imaginei encontrar em uma cerveja.

Intrigado por essa diversidade recém-descoberta, comecei a procurar algo semelhante no mercado. Foi assim que encontrei a Wienbier 53 Stout, degustada no dia 3 de agosto. Mais uma surpresa positiva — talvez ainda melhor que a Doppelbock — o que me levou a compartilhar essas experiências com meu irmão e alguns amigos.

Em meio a essas conversas, surgiu o nome quase mítico da Guinness, apresentada como a “cerveja preta” mais tradicional. A marca já me era familiar de nome, mas a realidade foi menos romântica: a importação estava prejudicada e não encontrei nenhuma lata em Brasília. Restava a Amazon, onde o preço girava em torno de R$ 33,00 a lata de 440 ml. Desanimei e segui explorando outras cervejas escuras.

Foi nesse contexto que reencontrei a Caracu, conhecida de nome, mas até então nunca explorada por mim. Comprei uma no dia 17 de agosto e gostei tanto que logo adquiri dois fardos para manter na cervejeira. A dificuldade em encontrá-la — disponível em apenas um atacadão entre vários visitados — só aumentou seu valor simbólico. Em poucos dias, tornou-se minha cerveja favorita, relegando as claras ao segundo plano.

Seguindo na trilha das Stouts — estilo que descobri ser aquele que mais dialogava com meu paladar — fui, em 26 de agosto, ao pub Santuário, na 214 Norte. Lá provei a Stout da casa, da cervejaria Dona Maria, também de Brasília. Achei simplesmente excelente, superando inclusive a Caracu.

No dia seguinte, decidi que precisava experimentar a Guinness, custasse o que custasse. O acaso ajudou: a lata entrou em promoção na Amazon por R$ 29,90. Comprei três.

No dia 29 de agosto, provei pela primeira vez a Guinness Draught. Foi amor à primeira golada. O encaixe entre sabor, textura e aroma foi tão perfeito que não me lembro de ter sentido prazer semelhante com nenhuma outra bebida — alcoólica ou não. Fiquei genuinamente estupefato. A partir desse momento, mergulhei de vez no universo cervejeiro.

Outra grande surpresa aconteceu em São Paulo, durante uma viagem a trabalho. No dia 8 de outubro, experimentei o Chopp Black da Brahma e fui pego de surpresa ao perceber que ele conseguiu igualar o prazer que tive com a Guinness, ainda que partindo de uma proposta ligeiramente diferente — quase como parentes próximos que seguiram caminhos distintos.

Enquanto a Guinness é uma Dry Stout e o Chopp Black da Brahma se enquadra como uma Dark Lager, ambas compartilham características importantes: são cervejas escuras e utilizam nitrogênio na carbonatação, o que confere aquela textura macia e cremosa tão marcante. O sabor, naturalmente, não é idêntico, mas dialoga de forma evidente. O resultado foi imediato: o Chopp Black passou a figurar entre as minhas cervejas favoritas, lado a lado com a Guinness, com a vantagem de ser, ao menos em teoria, um pouco mais fácil de encontrar. Digo “em teoria” porque, na prática, ele está disponível em poucos estabelecimentos e nem sempre consta no cardápio, mesmo em bares tecnicamente preparados para servi-lo.

Além disso, passei a ler sobre estilos, processos e histórias; seguir sommeliers e influenciadores; ouvir podcasts e experimentar novos rótulos. Descobri também o Untappd, uma rede social dedicada a registrar cervejas degustadas e gerar estatísticas — algo que conversa diretamente com meu gosto por números e dados. Como meu cadastro foi feito apenas em 18 de dezembro, precisei reconstruir retroativamente boa parte do consumo do ano. As estatísticas de 2025, portanto, não são perfeitamente fidedignas, mas oferecem um retrato bastante honesto desse período de descoberta.







Olhar para trás e reler essa trajetória é perceber como gostos não são estáticos, mas processos vivos, moldados pelo tempo, pelas circunstâncias e, às vezes, pelo acaso mais banal — como uma promoção de supermercado ou a compra despretensiosa de uma cervejeira.

Em 2025, mais do que aprender a gostar de cerveja, aprendi a prestar atenção nas nuances, nos estilos e nas histórias que cabem dentro de um copo. Este texto não é apenas sobre bebidas; é sobre mudança, curiosidade e a alegria silenciosa de descobrir que ainda há sabores capazes de nos surpreender, mesmo quando achamos que já nos conhecemos bem.

Livros Lidos em 2025


Finalizo 2025 no auge do meu retorno ao hábito da leitura. Este foi o quarto ano consecutivo em que consegui manter uma rotina consistente, algo que, alguns anos atrás, parecia improvável. Ler voltou a ser um eixo estruturante do meu cotidiano — não apenas um passatempo eventual.

Até então, 2022 havia sido o meu melhor ano como leitor. Naquele período, li 63 livros e 5 contos curtos, com uma média de 34 páginas por dia, totalizando 12.484 páginas. Foi um marco importante, tanto em volume quanto em disciplina.

Em 2025, embora eu tenha lido menos livros (54 no total), o avanço foi significativo em profundidade. A média diária saltou para 45 páginas, resultando em 16.557 páginas lidas ao longo do ano.

O dado mais revelador está no tamanho das obras: se em 2022 cada livro tinha, em média, 184 páginas, em 2025 essa média subiu para 307 páginas por livro. Li menos títulos, mas enfrentei livros mais longos, densos e exigentes.

Os números dos últimos quatro anos ajudam a visualizar melhor esse percurso:


Em comparação com 2024, 2025 foi um ano de muito mais constância. O primeiro semestre concentrou cerca de 62% das páginas lidas, com uma média impressionante de 56 páginas por dia. No segundo semestre, houve desaceleração: a média caiu para 34 páginas diárias.


Esse cansaço ficou especialmente evidente a partir de setembro, culminando em um dezembro em que consegui concluir apenas um livro que foi Dom Quixote. Não por acaso, foi uma leitura longa, exigente e feita em ritmo bem mais lento.

Uma das metas que estabeleci para 2025 foi simples na formulação e difícil na execução: ler todos os dias. Em 2024, eu havia passado 138 dias sem ler uma única página, um verdadeiro “deserto literário”. Em 2025, consegui cumprir essa meta com sucesso. Houve apenas 15 dias em que li 10 páginas ou menos — mas nenhum dia completamente em branco.

Esse compromisso diário fez toda a diferença. A regularidade, mais do que picos de empolgação, foi o motor do ano.

Os gráficos ajudam a contar essa história visualmente. Até março, mantive um desempenho semelhante ao de 2022. A partir daí, acelerei o ritmo de forma consistente e, em 27 de agosto, já havia alcançado o mesmo total de páginas lidas naquele que ainda era o meu melhor ano.


Portanto, o segundo trimestre foi decisivo para que eu alcançasse esse desempenho. Já a partir de outubro, a curva mostra claramente a desaceleração.


Entre os livros mais extensos que li em 2025, alguns se destacam não apenas pelo tamanho, mas pelo ritmo e pela experiência de leitura:

  • Os Irmãos Karamázov — 861 páginas, lidas em 15 dias (média de 57 páginas/dia)

  • Dom Quixote — 850 páginas, lidas em 41 dias (média de 21 páginas/dia)

  • Os Sertões — 642 páginas, lidas em 12 dias (média de 54 páginas/dia)

  • As Cartas de J.R.R.Tolkien — 620 páginas, lidas em 10 dias (média de 62 páginas/dia)

  • Odisseia — 606 páginas, lidas em 10 dias (média de 61 páginas/dia)

Olhando para trás, 2025 não foi apenas um ano de bons números. Foi um ano de maturidade como leitor: mais disciplina, escolhas mais ambiciosas e uma relação mais consciente com o tempo dedicado à leitura. Menos ansiedade por metas artificiais e mais atenção ao processo.

Se 2022 foi o ano do entusiasmo recuperado, 2025 foi o ano da consolidação.

quarta-feira, dezembro 31, 2025

O Assunto do Céu


Para finalizar o ano, termino meu 54º livro. Este que me acompanhou desde o 1º dia de 2025.

O Assunto do Céu reúne ensaios e reflexões para serem lidos um por dia em que C.S.Lewis (1898-1963) enfrenta um problema recorrente da modernidade: a redução do real ao que pode ser medido. Para ele, o erro não está na ciência (que ele respeita profundamente), mas na pretensão de que o método científico esgote tudo o que existe. Lewis chama atenção para algo simples e incômodo: conhecer as causas físicas de um fenômeno não equivale a compreender seu significado. Explicar como o cérebro funciona não explica por que buscamos a verdade; descrever reações químicas não esgota o que é amar, sofrer ou esperar.

O grande mérito do livro está no estilo argumentativo. Lewis não grita, não caricatura o adversário e não se apoia em jargões teológicos. Ele raciocina como um professor paciente que conduz o leitor por analogias, paradoxos e exemplos cotidianos. Sua crítica ao materialismo é mais filosófica do que religiosa: se tudo o que pensamos é apenas produto de causas irracionais (choques químicos, impulsos evolutivos), então a própria ideia de verdade se dissolve. O pensamento deixa de ser confiável no exato momento em que tentamos usá-lo para negar qualquer transcendência.

Ao mesmo tempo, Lewis não oferece consolo fácil. O “céu” que ele descreve não é uma projeção sentimental nem uma recompensa simplista. Pelo contrário: ele insiste que o desejo humano pelo infinito é, em si, um sinal de que não fomos feitos apenas para este mundo. Aqui aparece um dos temas mais fortes do livro: a ideia de que nossos anseios mais profundos não são ilusões, mas indícios. Assim como a fome aponta para a existência de comida, o desejo de algo absoluto aponta para uma realidade que não cabe inteiramente na experiência terrena.

Ele não resolve o mistério do sentido da vida, mas recusa a ideia de que o mistério seja um defeito a ser eliminado. Lewis sugere algo mais ousado: talvez o mistério seja o traço mais fiel da realidade.

segunda-feira, dezembro 29, 2025

Dom Quixote


Depois de 41 dias, finalizo meu 53º livro do ano!

Ler Dom Quixote foi uma experiência curiosa: comecei achando que estava diante de uma paródia dos romances de cavalaria e terminei com a sensação de ter acompanhado um tratado melancólico sobre a condição humana, disfarçado de comédia. Miguel de Cervantes (1547-1616) ri, mas é um riso que, aos poucos, aprende a doer.

No Livro I (1605), o romance é uma sátira direta. Dom Quixote é um homem que enlouqueceu de tanto ler, e sua loucura tem uma forma precisa: ele tenta impor à realidade um código moral e narrativo que já não funciona. O mundo reage com escárnio, violência e pragmatismo brutal. Aqui, Cervantes desmonta os romances de cavalaria expondo seu artificialismo: gigantes são moinhos, castelos são vendas, princesas são camponesas. Sancho Pança, ainda rústico e interesseiro, funciona como contrapeso: o senso comum tentando sobreviver à fantasia.

Dom Quixote não é apenas ridículo; ele é eticamente superior ao mundo que o cerca. Sua loucura tem método: honra, justiça, proteção dos fracos. O problema não é o ideal, mas o descompasso histórico.

No Livro II (1615), o jogo se torna mais sofisticado e mais cruel. Os personagens já leram o Livro I. Dom Quixote virou personagem famoso dentro do próprio romance. A loucura deixa de ser espontânea e passa a ser encenada pelos outros. Duques, cortesãos e leitores dentro da narrativa manipulam Dom Quixote para rir dele. O cavaleiro já não cai em enganos por ingenuidade: ele é colocado em armadilhas conscientes.

Sancho Pança, por sua vez, cresce enormemente. Sua passagem pelo governo da “ilha” é um dos momentos mais interessantes do romance: o analfabeto governa com prudência, senso de justiça e equilíbrio moral. Sancho aprende; Dom Quixote, não.

Ao final a recuperação da lucidez de Dom Quixote não é uma vitória da razão, mas uma derrota da imaginação. Ao abandonar seus livros e morrer como Alonso Quijano, ele vence a loucura, mas perde o sentido.

No fim, Cervantes não zomba de Dom Quixote. Ele o lamenta. E, discretamente, nos pergunta se não somos todos um pouco quixotescos: leitores tentando impor sentido a um mundo que insiste em ser sem graça, quando tudo o que queremos é que ele seja épico, ao menos por um instante.

quarta-feira, novembro 19, 2025

O Romance de Amadis

O Romance de Amadis, publicado em1922 por Afonso Lopes Vieira (1878-1946), é uma daquelas obras em que o autor português decide brincar dentro de um castelo literário já existente, o lendário ciclo de Amadis de Gaula, que tem origem no século XIV na península ibérica. Ele reorganiza, reconta e reinterpreta esse imaginário cavaleiresco medieval com uma sensibilidade moderna.

A leitura deixa claro que Vieira não está preocupado em fazer arqueologia fiel do texto medieval. Ele assume a liberdade de poeta: estiliza, condensa e escolhe ênfases que dialogam muito mais com a sensibilidade do início do século XX do que com o medievalismo literal. O livro funciona quase como uma transfiguração lírica do mito de Amadis, trazendo para o primeiro plano aquilo que o autor julga essencial: a força do amor, a pureza do ideal heroico e a aura lendária que envolve o cavaleiro perfeito.

O efeito disso é curioso. Em vez de mergulharmos numa narrativa épica cheia de eventos, somos conduzidos por um clima emocional. Para leitores que buscam ação contínua, o livro pode soar distante, quase contemplativo demais. Para quem aprecia reelaborações poéticas e o jogo de recriar tradições, a obra ganha um brilho especial.

Escolhi essa leitura para preparar-me para adentrar em um dos maiores clássicos da literatura mundial que é Dom Quixote. O romance de Cervantes nasce justamente da colisão entre o ideal cavaleiresco empoeirado e a realidade corriqueira. Vieira, ao contrário de Cervantes, “leva a sério” o mito. Essa leitura combinada criará um contraste interessante: primeiro verei o mito enfeitado; depois verei Cervantes desmontar o mecanismo.

domingo, novembro 16, 2025

Capitães da Areia

Dessa vez quis relembrar se a memória afetiva que eu tinha na adolescência desse clássico brasileiro se manteria agora adulto.

Posso dizer que 30 anos depois de ter lido Capitães da Areia pela 1ª vez o encanto que essa obra traz permanece o mesmo! Jorge Amado (1912-2001) lança sobre seus moleques de rua um olhar que mistura ternura, fúria e um senso de absurdo diante de um mundo que fabrica seus próprios “inimigos”.

O romance funciona como um grande estudo de laboratório social, só que o laboratório é a própria cidade de Salvador, e os ratos de experimento são crianças vivas, vibrantes, muitas vezes ferozes, moldadas por um ambiente que lhes oferece pouco além de fome, violência policial e abandono. Amado não está interessado em fazer panfleto barato; ele faz algo mais complexo: expõe a estrutura que produz a marginalidade e, ao mesmo tempo, dá rosto, nome e poesia a quem costuma ser reduzido a estatística.

A narrativa acompanha Pedro Bala, Professor, Dora, João Grande e o bando que vive no trapiche, e a força do livro está no contraste entre a vida crua que eles levam (pequenos furtos, correrias, romances precários e amizades frágeis) e a profundidade existencial com que Amado os trata.

Cada personagem é quase um arquétipo móvel: Dora encarna o afeto impossível, Professor representa a imaginação que resiste ao real, Pedro Bala é a força política embrionária que um sistema injusto costuma ignorar até que tarde demais. A prosa de Amado, exuberante e cheia de movimentos, injeta dignidade literária naquilo que muita gente preferiria varrer para debaixo do tapete.

O romance não nos entrega uma solução, nem pretende. Prefere mostrar a metamorfose inevitável: do menino abandonado nasce o futuro líder sindical; do sonho nasce a tragédia; do afeto nasce uma cicatriz. Esse ciclo é o verdadeiro protagonista da obra. Quem lê sai com a incômoda impressão de que a sociedade brasileira continua, de certa forma, repetindo o experimento.

quinta-feira, novembro 13, 2025

Lana: 14 anos de companhia, alegria e histórias que ficam

Foram 14 anos e 2 meses de convivência conosco. Sabíamos que esse dia chegaria, mas nada nos prepara de verdade: hoje, a nossa Lana se foi.

Ela entrou em nossas vidas com 69 dias de idade, no dia 18/09/2011. Viveu momentos inteiros conosco, especialmente com minha esposa, que cuidou dela praticamente sozinha por quase dois anos, antes mesmo de nos casarmos.

A Lana colecionou histórias. Foi roubada e recuperada. Quase morreu por uma superdosagem de medicamento. Teve o episódio surreal de cruzar com um cachorro que estava preso na coleira. Morou na obra da nossa casa. Fugiu pelo condomínio. E, acima de tudo, fez aquilo que mais amava nesta vida: pedir comida e dormir.


Nos últimos anos, ela já dava sinais da idade: catarata em um dos olhos, o início da coprofagia — que, felizmente, só apareceu na velhice — e uma falta de ar persistente nos últimos meses. Mesmo assim, era a mesma presença doce, inquieta e barulhenta de sempre.

Hoje, ela faleceu no momento em que cheguei do trabalho, por volta das 19h. Entrei com as compras, chamei minha esposa para ajudar e, como de costume, os cachorros começaram aquela festa de latidos. Foram me recepcionar na porta do corredor, como faziam todos os dias. Nesse instante, a emoção foi demais para ela, e a Lana teve um ataque cardíaco. Ainda estava quente e molinha quando a peguei no colo. Tirei sua última foto já sem vida, para guardar o registro da despedida.

Sempre disse aos amigos que perderam seus cães e prometeram nunca mais ter outro por medo da dor: Toda a alegria desses 14 anos supera em muito a tristeza deste momento. Não há arrependimento algum. Ter a Lana conosco por tanto tempo foi um privilégio que guardaremos para sempre.

Este texto é uma forma de preservar o que a Lana significou para nós. Ela fez parte da formação da nossa família, acompanhou mudanças, obras, rotinas, alegrias e tropeços. Deixou silêncio pela casa, mas deixou também uma coleção enorme de lembranças boas — e é nelas que escolhemos ficar.