sábado, fevereiro 28, 2026

O Apocalipse Explicado


O último livro da Bíblia não pretende tanto anunciar o fim do mundo quanto tirar o véu da história para mostrar o sentido espiritual dos acontecimentos. É exatamente nessa chave que o francês Henri‑Marie Féret (1904-1992) lê o texto em O Apocalipse Explicado, livro publicado em 1946. Começando pelo detalhe curioso sobre a palavra Apocalipse: ao contrário do uso popular da palavra — que virou sinônimo de catástrofe — o termo grego apokálypsis significa simplesmente “revelação”, “desvelamento”.

A obra é uma tentativa de devolver o livro do Apocalipse de João ao seu lugar original: não um código secreto sobre eventos futuros, mas uma grande meditação teológica sobre a história da Igreja e o destino do mundo.

Seu objetivo central é interpretar o Apocalipse sem cair em dois extremos comuns:

  • O literalismo apocalipticista, que tenta identificar cada símbolo com eventos históricos específicos;

  • A leitura puramente alegórica, que esvazia o texto de seu drama histórico.

Féret propõe uma terceira via: ler o Apocalipse como teologia simbólica da história.

Os símbolos não descrevem acontecimentos pontuais, mas forças espirituais permanentes que atuam na história humana.

Assim, as bestas, selos, trombetas e catástrofes representam:

  • Conflitos entre o Reino de Deus e os poderes do mundo;

  • Crises que atravessam todas as épocas;

  • A luta permanente entre fidelidade e idolatria.

O livro segue uma abordagem exegética progressiva, comentando as principais seções do Apocalipse:

  1. Cartas às sete igrejas – interpretadas como diagnósticos espirituais da Igreja em qualquer época.

  2. Visões do trono e do Cordeiro – onde aparece o centro da teologia do livro: Cristo como Senhor da história.

  3. Selos, trombetas e taças – ciclos simbólicos de julgamento e purificação.

  4. A batalha final e a nova Jerusalém – a consumação escatológica.

O eixo interpretativo do autor pode ser resumido numa ideia forte:

O Apocalipse não descreve o fim do mundo; ele descreve o sentido da história.

Para Féret, o livro revela três verdades fundamentais:

  1. Cristo governa a história, mesmo quando o mundo parece dominado pelo mal.

  2. O mal tem poder real, mas é sempre provisório.

  3. A história caminha para uma transfiguração final, simbolizada pela Nova Jerusalém.

Assim, os monstros apocalípticos representam impérios, ideologias e poderes políticos que absolutizam a si mesmos.

Féret mostra com clareza que o livro está saturado de referências ao Antigo Testamento. Quase todas as imagens — bestas, números, trombetas — vêm de textos como Daniel, Ezequiel e Isaías. Essa observação desmonta muitas leituras modernas que tratam o Apocalipse como um quebra-cabeça futurista.

O autor interpreta o texto à luz das perseguições do Império Romano, mas sem reduzir a obra a esse contexto. Para ele, Roma é apenas o primeiro exemplo de um padrão histórico recorrente.

O livro reconhece o drama do mal na história — guerras, opressões, idolatrias — mas insiste que o último capítulo pertence ao Cordeiro. Essa tensão dá à obra uma força espiritual considerável.

O Apocalipse Explicado é uma obra que cumpre um papel importante: desmistificar o Apocalipse sem esvaziar sua potência espiritual.

Henri-Marie Féret mostra que o livro de João não é um manual de previsões, mas uma visão teológica da história humana vista do ponto de vista de Deus.

No fim das contas, o livro lembra algo que a modernidade frequentemente esquece: o Apocalipse não fala sobre o pânico do fim do mundo, mas sobre a promessa de que a história tem sentido.

Uma curiosidade fascinante fecha bem essa reflexão. O Apocalipse termina com a imagem da Nova Jerusalém descendo do céu. Não é a humanidade escapando da Terra — é o divino descendo para transformar a realidade.

Essa inversão é profundamente subversiva: a esperança cristã não está em fugir do mundo, mas em sua transfiguração. Um final que parece ficção científica mística, mas que, na lógica do livro, é simplesmente o destino último da história.

domingo, fevereiro 22, 2026

Viagem aos Biomas do Brasil


Viagem aos Biomas do Brasil, publicado em 2025 e organizado por Pedro Alencastro, reúne textos de quatro viajantes-naturalistas de épocas distintas — Henry Walter Bates, George Gardner, Theodore Roosevelt e Auguste de Saint-Hilaire — e cria uma espécie de diálogo através do tempo sobre a natureza brasileira.

O livro parte de uma ideia editorial muito inteligente: em vez de produzir um ensaio contemporâneo sobre os biomas brasileiros, o organizador reúne narrativas históricas de exploradores que percorreram o Brasil entre o século XIX e início do XX. Cada um deles observa o território com olhos estrangeiros, científicos e, muitas vezes, maravilhados. O leitor passa a enxergar o país como se estivesse redescobrindo-o.

Henry Walter Bates (1825-1892), famoso naturalista inglês que estudou a Amazônia por mais de uma década traz descrições detalhadas da floresta amazônica. Seus relatos impressionam pela minúcia: insetos, rios, comunidades humanas e paisagens surgem quase como um inventário da biodiversidade. O texto mistura observação científica e narrativa de aventura, lembrando que grande parte da ciência do século XIX nasceu justamente desse tipo de exploração.

Já o escocês George Gardner (1812-1849) um oferece um olhar botânico mais sistemático sobre o interior do Brasil. Suas descrições do Cerrado e de regiões semiáridas revelam o esforço de catalogação científica típico do período. Há menos dramatização do que em outros viajantes, mas mais atenção à classificação das plantas e à organização dos ecossistemas.

O caso do francês Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853) é particularmente interessante. Ele percorreu vastas áreas do interior brasileiro e deixou um registro riquíssimo sobre o Cerrado, a Mata Atlântica e o modo de vida das populações locais. Seu olhar é ao mesmo tempo científico e etnográfico: a paisagem natural nunca aparece isolada, mas sempre ligada às formas de ocupação humana.

Por fim, aparece norte-americano Theodore Roosevelt (1858-1919) — mais conhecido como presidente dos Estados Unidos do que como explorador — relatando sua famosa expedição amazônica no início do século XX. O contraste com os naturalistas do século XIX é evidente: seu relato tem um tom mais aventureiro, quase épico, refletindo o espírito exploratório da época.

O principal mérito do livro está em mostrar como a natureza brasileira foi observada ao longo do tempo. Esses viajantes não apenas descrevem paisagens; eles registram um país ainda em formação, com ecossistemas vastos e relativamente intactos. Ler esses textos hoje produz um efeito curioso: muitas vezes percebemos que o Brasil que eles descrevem já não existe da mesma forma.

Além disso, a obra oferece um panorama histórico da própria ciência natural. No século XIX, antes de satélites, drones ou sensores remotos, compreender um bioma significava caminhar por ele durante anos, coletando espécimes e anotando cada detalhe em cadernos de campo.

O livro funciona quase como uma máquina do tempo ambiental. Ao reunir relatos de naturalistas e exploradores, o livro permite observar o território brasileiro antes de muitas das transformações que marcaram os últimos dois séculos.

O valor da obra não está apenas na beleza das descrições ou no fascínio das aventuras científicas, mas no contraste que ela provoca: ao ler esses viajantes, percebemos com mais clareza o que foi preservado, o que foi transformado e o que talvez já tenha se perdido. Nesse sentido, o livro não é apenas um registro histórico — é também um convite à reflexão sobre a relação entre sociedade, ciência e natureza no Brasil.

Há um detalhe curioso nisso tudo: boa parte do que hoje chamamos de “biomas brasileiros” foi primeiro percebido por pessoas caminhando com cadernos, redes de coleta e uma curiosidade quase obsessiva. A ciência, nesse caso, nasceu literalmente do ato de andar pelo mato e prestar atenção. E essa talvez seja a lição mais silenciosa do livro: compreender a natureza começa sempre com a observação paciente do mundo real.

quarta-feira, fevereiro 18, 2026

Viva o Povo Brasileiro

Ler Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro (1941-2014), é como atravessar um longo rio da história nacional: às vezes calmo, às vezes turbulento, mas sempre carregado de memórias, contradições e vozes que raramente aparecem nos livros de história. Publicado em 1984, o romance surge no momento em que o Brasil começava a sair da ditadura militar e a revisitar criticamente sua própria identidade. Não é coincidência que João Ubaldo tenha escolhido justamente esse momento para escrever um livro que desmonta as narrativas heroicas sobre a formação do país.

A obra acompanha mais de três séculos da história brasileira, sobretudo na Bahia, e mistura acontecimentos históricos, personagens fictícios e lendas populares. Em vez de apresentar uma cronologia organizada, o autor constrói uma narrativa cheia de interrupções, saltos temporais e mudanças de foco. O resultado é um romance que parece menos interessado em contar uma história linear e mais empenhado em mostrar como a própria ideia de “história oficial” é construída — e muitas vezes manipulada.

No centro do livro está uma pergunta implícita: quem realmente construiu o Brasil? Ao longo das páginas, João Ubaldo desloca o protagonismo tradicional dos grandes heróis e líderes políticos para o chamado “povo”. Escravizados, soldados rasos, trabalhadores pobres, mulheres invisibilizadas e figuras marginalizadas ganham voz e presença. O romance sugere que a identidade brasileira não nasce das decisões das elites, mas da sobrevivência e da inventividade daqueles que sempre estiveram à margem do poder.

A linguagem desempenha papel fundamental nessa construção. João Ubaldo utiliza uma prosa rica, cheia de digressões e comentários irônicos do narrador. Ao mesmo tempo, incorpora elementos da oralidade popular, aproximando o texto da tradição narrativa do povo. Essa mistura estilística reforça a própria tese do romance: a cultura brasileira não é homogênea, mas formada pelo encontro — muitas vezes conflituoso — entre diferentes vozes e experiências.

Outro aspecto marcante da obra é sua visão profundamente crítica das elites brasileiras. Os grandes proprietários, militares, religiosos e políticos aparecem frequentemente como figuras ridículas, violentas ou moralmente frágeis. Em vez de líderes iluminados, eles surgem como personagens movidos por interesses pessoais, preconceitos e ignorância. Ao expor essas contradições, o romance questiona diretamente o discurso histórico que costuma glorificar essas figuras.

A escravidão, a violência social e a desigualdade estrutural aparecem como forças permanentes ao longo da narrativa. No entanto, João Ubaldo evita transformar o povo em vítima passiva. Pelo contrário, o romance enfatiza a capacidade de adaptação, resistência e criatividade das pessoas comuns diante de um sistema profundamente injusto.

Ao final da leitura, fica a impressão de que João Ubaldo escreveu não apenas um romance histórico, mas uma espécie de grande alegoria nacional. Viva o Povo Brasileiro é, ao mesmo tempo, uma celebração da força cultural do povo e uma crítica feroz às estruturas de poder que moldaram o país.

Mais do que uma narrativa sobre o passado, o romance funciona como um espelho. Ao revisitar a formação do Brasil com humor, ironia e lucidez, João Ubaldo nos obriga a olhar para as continuidades entre aquela história e o país que ainda estamos tentando entender.

quarta-feira, janeiro 21, 2026

Colapso


Colapso, publicado em 2023, é um romance pós-apocalíptico visceral e brutal sobre um mundo em que civilização, Estado e normas sociais simplesmente deixaram de existir, um cenário em que a sobrevivência reduziu as relações humanas às suas formas mais cruas e extremas. A narrativa apresenta um Brasil completamente arruinado, onde cidades tornaram-se ruínas e os sobreviventes lutam não só contra o ambiente inóspito, mas uns contra os outros, num estado de selvageria.

Esse ambiente desencadeia reflexões filosóficas profundas, que vão além da ficção: a obra coloca em xeque a ideia de moralidade quando não existe um Estado, uma lei ou uma estrutura social capaz de manter a ordem. Roberto Denser (1895-) se inspira claramente em uma perspectiva hobbesiana (a de que, sem contrato social, o “homem é lobo do homem”) e leva essa visão aos limites narrativos.

Narrativamente, o livro não é confortável. A violência, o horror, cenas perturbadoras e temas pesados aparecem de forma direta e sem filtro. Essa brutalidade não parece gratuita, mas deliberada, como forma de confrontar o leitor com o que acontece quando todas as camadas civilizatórias se desfazem.

Um dos pontos fortes da obra é como ela humaniza personagens em meio ao caos. Em vez de figuras monolíticas de sobreviventes, há pessoas com dilemas, fraquezas, traumas, motivações contraditórias. A narrativa expõe tanto a pior face da condição humana quanto instantes de ternura e conexão, sugerindo que até no pior cenário possível ainda podem existir elementos que nos tornam humanos.

Colapso pode ser visto tanto como um espelho perturbador da violência latente em nossa sociedade contemporânea quanto como uma peça de ficção que desafia o leitor a confrontar sua própria relação com moralidade, sobrevivência e empatia quando todos os dispositivos sociais comuns deixam de existir.

Essa mistura de crítica social, horror e filosofia existencial faz do livro uma obra impactante, capaz de reverberar na nossa cabeça muito depois da última página mas não é, de modo algum, uma leitura leve.

sábado, janeiro 17, 2026

Larousse da Cerveja


O Larousse da Cerveja, publicado em 2017, pertence àquela linhagem rara de livros que revelam como temas tidos como simples apenas aguardam o olhar certo para se tornarem vastos. Nas mãos de Ronaldo Morado (1956-), a cerveja deixa de ser apenas bebida e passa a ser linguagem: um meio pelo qual curiosidade, rigor e paixão fermentam conhecimento. Cervejeiro e pesquisador atento ao amadurecimento da cultura cervejeira brasileira desde os anos 1990, Morado constrói uma verdadeira enciclopédia em português, sólida e generosa, como se oferecesse ao leitor um mapa para navegar esse universo.

A narrativa recua às primeiras civilizações e avança até a presença global contemporânea da cerveja, costurando fatos históricos, práticas sociais e pequenas curiosidades que ampliam o horizonte do leitor. A bebida surge como testemunha silenciosa das transformações humanas: acompanha rituais, atravessa revoluções, adapta-se às mudanças culturais. Nesse movimento, o livro se aproxima de uma antropologia líquida, em que cada gole parece carregar vestígios da própria história da civilização.

Sem abandonar o lirismo, a obra também se ancora na técnica. Funciona como guia de estilos, ingredientes e processos produtivos, explicados com clareza e equilíbrio. Morado consegue o raro feito de falar ao iniciante sem simplificar em excesso e, ao mesmo tempo, oferecer densidade suficiente a quem deseja aprofundar o olhar como uma conversa que começa casual e termina intelectualmente estimulante.

O cuidado editorial reforça essa experiência. Ilustrações, fotografias de copos e mapas não são ornamentos, mas extensões do texto, ajudando a organizar visualmente um saber vasto. O alinhamento aos parâmetros do BJCP confere rigor e atualidade, conectando a obra brasileira a referências internacionais consolidadas.

Ao fim, o Larousse da Cerveja se afirma como mais do que um livro de consulta. Ele traduz, organiza e celebra uma visão ampla da cerveja como fenômeno cultural. Brilha como referência, mas também como convite: o de compreender que, por trás de algo tão cotidiano, existe uma história longa, complexa e profundamente humana sempre à espera de quem esteja disposto a ler o mundo através de um copo.

segunda-feira, janeiro 12, 2026

Vidas Secas

Vidas Secas é um daqueles livros aparentemente magros, mas de densidade geológica. Publicado em 1938, ele faz algo curioso: usa o sertão nordestino como cenário para falar menos de geografia e mais de condição humana. A seca, aliás, é menos um fenômeno climático e mais um princípio organizador da existência.

A narrativa acompanha a família de Fabiano — Sinhá Vitória, dois filhos sem nome e a cadela Baleia — em um movimento circular de fuga e retorno à miséria. Não há progresso, apenas deslocamento. Graciliano (1892-1953) constrói o romance em episódios quase autônomos, o que reforça a sensação de repetição e estagnação: a vida não avança, apenas insiste. Essa estrutura fragmentada não é um artifício estético gratuito; ela espelha uma realidade social em que o tempo histórico parece suspenso.

Fabiano é o centro trágico do livro. Ele não é um herói, nem um rebelde, nem sequer um sujeito plenamente consciente de sua opressão. É um homem embrutecido, reduzido à luta pela sobrevivência, incapaz de dominar a linguagem e, por isso mesmo, incapaz de se defender das estruturas que o esmagam. A famosa dificuldade de Fabiano com as palavras não é só psicológica: é política. Quem não nomeia o mundo não consegue transformá-lo.

Sinhá Vitória, por sua vez, introduz um fio tênue de desejo e projeto. O sonho da cama de couro é pequeno, quase ridículo à primeira vista, mas é justamente aí que Graciliano é implacável: o horizonte de aspirações é tão estreito quanto o mundo que lhes é permitido habitar. Ainda assim, esse sonho revela uma humanidade resistente, uma recusa silenciosa a aceitar a animalização completa.

E então há Baleia, talvez a personagem mais perturbadoramente humana do romance. A cadela pensa, sofre, sonha. Sua morte é um dos momentos mais duros da literatura brasileira, não por sentimentalismo, mas pela inversão cruel que propõe: o animal tem acesso a uma interioridade que os humanos, esmagados pela miséria, mal conseguem exercer. Graciliano não está romantizando o bicho; está denunciando o quanto a pobreza rouba até mesmo a possibilidade de pensar.

Vidas Secas evita tanto a idealização do povo quanto a caricatura miserabilista. Graciliano não oferece soluções, não aponta saídas fáceis, não transforma seus personagens em símbolos redentores. O que ele faz é mais desconfortável: expõe uma estrutura social que produz vidas reduzidas ao mínimo e segue funcionando normalmente. O incômodo do livro está justamente na ausência de catarse.

No fim, Vidas Secas não é apenas um romance sobre a seca nordestina. É uma investigação radical sobre o que acontece quando a sociedade falha de modo sistemático e prolongado. O resultado não é revolta épica nem tragédia grandiosa, mas algo talvez mais terrível: a normalização da desumanização. Ler Graciliano Ramos é encarar um espelho áspero e descobrir que, em muitos aspectos, ele ainda reflete o Brasil de hoje.

sexta-feira, janeiro 09, 2026

O Senso Religioso


Ler O Senso Religioso, publicado como livro em 1997, é entrar num território desconfortável para o leitor moderno: um lugar onde a razão não é reduzida a cálculo e a fé não é tratada como anestesia existencial. Luigi Giussani (1922-2005) escreve contra duas caricaturas muito persistentes: a da religião como irracionalidade e a da razão como algo que só opera no que é mensurável.

A tese central do livro é simples de enunciar e difícil de engolir: o senso religioso é uma dimensão constitutiva da experiência humana, não um acréscimo cultural nem um resíduo de ignorância pré-científica. Giussani não começa por Deus, pela Revelação ou pela Igreja. Ele começa pelo homem concreto, com seus desejos de felicidade, justiça, verdade e beleza — desejos que nenhuma resposta parcial consegue saciar. A aposta é clara: se somos intelectualmente honestos, esses desejos apontam para algo que transcende o finito.

O grande mérito do livro está no método. Giussani não argumenta por dedução abstrata, mas por verificação existencial. Ele convida o leitor a observar a própria experiência com rigor quase científico: o que acontece quando tentamos reduzir nossos anseios últimos a dinheiro, poder, prazer ou reconhecimento? O resultado, para ele, é sempre um déficit de sentido.

Há também uma crítica incisiva ao racionalismo moderno. Para Giussani, a modernidade não ampliou a razão; ela a mutilou, confinando-a ao que pode ser medido ou controlado. O efeito colateral é um homem tecnicamente poderoso, mas existencialmente empobrecido. O livro ganha força justamente por não rejeitar a razão, mas por exigir que ela seja levada até o fim — inclusive quando isso a obriga a reconhecer a abertura ao Mistério.

O Senso Religioso permanece uma obra notavelmente atual. Em uma época marcada por espiritualidades utilitárias e discursos que confundem tolerância com indiferença, Giussani propõe algo radicalmente contraintuitivo: levar o desejo humano a sério até o fim, sem censurá-lo e sem domesticá-lo. O livro não oferece conforto fácil, mas oferece um critério exigente para julgar a própria vida.

Em última análise, a força do livro não está em provar a existência de Deus, mas em tornar difícil a posição de quem afirma que a pergunta por Ele é irrelevante. Giussani não obriga o leitor a crer — obriga apenas a não mentir para si mesmo. E isso, para qualquer época, é uma provocação de alto risco intelectual.

quinta-feira, janeiro 01, 2026

Cervejas: Uma Nova Descoberta


Desde 2010, este blog funciona como uma espécie de diário líquido: um espaço onde registro minha relação com algumas bebidas, sobretudo o café. Uma relação, diga-se, nada simples.

Já escrevi aqui, mais de uma vez, sobre minha convivência conturbada com o café. Passei por diferentes métodos, máquinas e tentativas de sofisticação, mas, como acontece com tantas coisas da infância, sempre acabei retornando ao ponto de partida: café de pó simples, adoçado — antes com açúcar, hoje mais frequentemente com adoçante. Atualmente, confesso sem pudor, a forma que mais consumo café é a instantânea, misturada com leite. Os puristas que me perdoem (ou não).

Em março de 2021, este blog registrou outra virada: a descoberta do universo dos drinks. Tudo começou com a retomada do consumo de whisky e, a partir dali, passei a experimentar coquetéis variados, seja preparando em casa, seja degustando em restaurantes. Vieram novas garrafas, acessórios e até um aplicativo dedicado ao preparo de drinks.

Curiosamente, naquele mesmo texto de 2021, deixei registrado algo que hoje soa quase como uma profecia invertida: “Já tentei por diversas vezes gostar de cerveja, mas essa bebida realmente não é pra mim. Nunca gostei de tomar nenhuma cerveja ou chopp!”.

Corta para 2025, e uma nova relação com as bebidas se abriu diante de mim — de um jeito totalmente inesperado.

O ponto de partida foi prosaico: a compra de uma cervejeira, em outubro de 2024. A ideia era simples e funcional: utilizá-la em dias de festa, evitando a eterna disputa por espaço na geladeira e no freezer, soluções pouco eficientes para manter bebidas na temperatura ideal. Para não deixá-la vazia, abasteci com refrigerantes para consumo cotidiano e cervejas pensadas, inicialmente, apenas para as visitas.

Com o tempo, acabei tomando uma cerveja ou outra, mas ainda sem grande entusiasmo. Mantinha-me fiel ao refrigerante. Nessa fase, passaram pela cervejeira rótulos como Amstel e algumas da Eisenbahn, mais por conveniência do que por interesse genuíno.

Tudo mudou em 19 de junho de 2025. Nesse dia, aproveitando uma promoção de supermercado, comprei uma cerveja completamente diferente de tudo o que já havia experimentado: a Hoegaarden Wit/Blanche, uma cerveja belga de trigo. Ao provar, percebi algo novo — um sabor distante das tradicionais cervejas brasileiras, leve, aromático e surpreendentemente agradável ao meu paladar.

Pouco mais de um mês depois, em 26 de julho, durante um jantar no restaurante Dona Lenha, deparei-me com uma carta de cervejas artesanais. Pela primeira vez, troquei o drink habitual por uma cerveja: a Poderator Doppelbock, da Cervejaria Quatro Poderes, de Brasília. O impacto foi imediato. Havia ali sabores que eu jamais imaginei encontrar em uma cerveja.

Intrigado por essa diversidade recém-descoberta, comecei a procurar algo semelhante no mercado. Foi assim que encontrei a Wienbier 53 Stout, degustada no dia 3 de agosto. Mais uma surpresa positiva — talvez ainda melhor que a Doppelbock — o que me levou a compartilhar essas experiências com meu irmão e alguns amigos.

Em meio a essas conversas, surgiu o nome quase mítico da Guinness, apresentada como a “cerveja preta” mais tradicional. A marca já me era familiar de nome, mas a realidade foi menos romântica: a importação estava prejudicada e não encontrei nenhuma lata em Brasília. Restava a Amazon, onde o preço girava em torno de R$ 33,00 a lata de 440 ml. Desanimei e segui explorando outras cervejas escuras.

Foi nesse contexto que reencontrei a Caracu, conhecida de nome, mas até então nunca explorada por mim. Comprei uma no dia 17 de agosto e gostei tanto que logo adquiri dois fardos para manter na cervejeira. A dificuldade em encontrá-la — disponível em apenas um atacadão entre vários visitados — só aumentou seu valor simbólico. Em poucos dias, tornou-se minha cerveja favorita, relegando as claras ao segundo plano.

Seguindo na trilha das Stouts — estilo que descobri ser aquele que mais dialogava com meu paladar — fui, em 26 de agosto, ao pub Santuário, na 214 Norte. Lá provei a Stout da casa, da cervejaria Dona Maria, também de Brasília. Achei simplesmente excelente, superando inclusive a Caracu.

No dia seguinte, decidi que precisava experimentar a Guinness, custasse o que custasse. O acaso ajudou: a lata entrou em promoção na Amazon por R$ 29,90. Comprei três.

No dia 29 de agosto, provei pela primeira vez a Guinness Draught. Foi amor à primeira golada. O encaixe entre sabor, textura e aroma foi tão perfeito que não me lembro de ter sentido prazer semelhante com nenhuma outra bebida — alcoólica ou não. Fiquei genuinamente estupefato. A partir desse momento, mergulhei de vez no universo cervejeiro.

Outra grande surpresa aconteceu em São Paulo, durante uma viagem a trabalho. No dia 8 de outubro, experimentei o Chopp Black da Brahma e fui pego de surpresa ao perceber que ele conseguiu igualar o prazer que tive com a Guinness, ainda que partindo de uma proposta ligeiramente diferente — quase como parentes próximos que seguiram caminhos distintos.

Enquanto a Guinness é uma Dry Stout e o Chopp Black da Brahma se enquadra como uma Dark Lager, ambas compartilham características importantes: são cervejas escuras e utilizam nitrogênio na carbonatação, o que confere aquela textura macia e cremosa tão marcante. O sabor, naturalmente, não é idêntico, mas dialoga de forma evidente. O resultado foi imediato: o Chopp Black passou a figurar entre as minhas cervejas favoritas, lado a lado com a Guinness, com a vantagem de ser, ao menos em teoria, um pouco mais fácil de encontrar. Digo “em teoria” porque, na prática, ele está disponível em poucos estabelecimentos e nem sempre consta no cardápio, mesmo em bares tecnicamente preparados para servi-lo.

Além disso, passei a ler sobre estilos, processos e histórias; seguir sommeliers e influenciadores; ouvir podcasts e experimentar novos rótulos. Descobri também o Untappd, uma rede social dedicada a registrar cervejas degustadas e gerar estatísticas — algo que conversa diretamente com meu gosto por números e dados. Como meu cadastro foi feito apenas em 18 de dezembro, precisei reconstruir retroativamente boa parte do consumo do ano. As estatísticas de 2025, portanto, não são perfeitamente fidedignas, mas oferecem um retrato bastante honesto desse período de descoberta.







Olhar para trás e reler essa trajetória é perceber como gostos não são estáticos, mas processos vivos, moldados pelo tempo, pelas circunstâncias e, às vezes, pelo acaso mais banal — como uma promoção de supermercado ou a compra despretensiosa de uma cervejeira.

Em 2025, mais do que aprender a gostar de cerveja, aprendi a prestar atenção nas nuances, nos estilos e nas histórias que cabem dentro de um copo. Este texto não é apenas sobre bebidas; é sobre mudança, curiosidade e a alegria silenciosa de descobrir que ainda há sabores capazes de nos surpreender, mesmo quando achamos que já nos conhecemos bem.

Livros Lidos em 2025


Finalizo 2025 no auge do meu retorno ao hábito da leitura. Este foi o quarto ano consecutivo em que consegui manter uma rotina consistente, algo que, alguns anos atrás, parecia improvável. Ler voltou a ser um eixo estruturante do meu cotidiano — não apenas um passatempo eventual.

Até então, 2022 havia sido o meu melhor ano como leitor. Naquele período, li 63 livros e 5 contos curtos, com uma média de 34 páginas por dia, totalizando 12.484 páginas. Foi um marco importante, tanto em volume quanto em disciplina.

Em 2025, embora eu tenha lido menos livros (54 no total), o avanço foi significativo em profundidade. A média diária saltou para 45 páginas, resultando em 16.557 páginas lidas ao longo do ano.

O dado mais revelador está no tamanho das obras: se em 2022 cada livro tinha, em média, 184 páginas, em 2025 essa média subiu para 307 páginas por livro. Li menos títulos, mas enfrentei livros mais longos, densos e exigentes.

Os números dos últimos quatro anos ajudam a visualizar melhor esse percurso:


Em comparação com 2024, 2025 foi um ano de muito mais constância. O primeiro semestre concentrou cerca de 62% das páginas lidas, com uma média impressionante de 56 páginas por dia. No segundo semestre, houve desaceleração: a média caiu para 34 páginas diárias.


Esse cansaço ficou especialmente evidente a partir de setembro, culminando em um dezembro em que consegui concluir apenas um livro que foi Dom Quixote. Não por acaso, foi uma leitura longa, exigente e feita em ritmo bem mais lento.

Uma das metas que estabeleci para 2025 foi simples na formulação e difícil na execução: ler todos os dias. Em 2024, eu havia passado 138 dias sem ler uma única página, um verdadeiro “deserto literário”. Em 2025, consegui cumprir essa meta com sucesso. Houve apenas 15 dias em que li 10 páginas ou menos — mas nenhum dia completamente em branco.

Esse compromisso diário fez toda a diferença. A regularidade, mais do que picos de empolgação, foi o motor do ano.

Os gráficos ajudam a contar essa história visualmente. Até março, mantive um desempenho semelhante ao de 2022. A partir daí, acelerei o ritmo de forma consistente e, em 27 de agosto, já havia alcançado o mesmo total de páginas lidas naquele que ainda era o meu melhor ano.


Portanto, o segundo trimestre foi decisivo para que eu alcançasse esse desempenho. Já a partir de outubro, a curva mostra claramente a desaceleração.


Entre os livros mais extensos que li em 2025, alguns se destacam não apenas pelo tamanho, mas pelo ritmo e pela experiência de leitura:

  • Os Irmãos Karamázov — 861 páginas, lidas em 15 dias (média de 57 páginas/dia)

  • Dom Quixote — 850 páginas, lidas em 41 dias (média de 21 páginas/dia)

  • Os Sertões — 642 páginas, lidas em 12 dias (média de 54 páginas/dia)

  • As Cartas de J.R.R.Tolkien — 620 páginas, lidas em 10 dias (média de 62 páginas/dia)

  • Odisseia — 606 páginas, lidas em 10 dias (média de 61 páginas/dia)

Analisando algumas estatísticas, é perceptível como o Romance continua sendo meu gênero favorito com a Fantasia dominando o estilo que mais gosto.

A Inglaterra dominou o ano até por eu te lido muito coisa de J.R.R. Tolkien e do  C.S. Lewis

Analisando o período que foi escrito os livros, a maioria foi dos últimos 2 séculos, mas li algumas obras antigas, principalmente os antigos poemas épicos.


 Olhando quais as editoras que mais li, há um predomínio dos clubes de livros que assino (Clube de Literatura Clássica e Minha Biblioteca Católica) e a Harper Collins que é a editora dos livros do Tolkien no Brasil.


Olhando para trás, 2025 não foi apenas um ano de bons números. Foi um ano de maturidade como leitor: mais disciplina, escolhas mais ambiciosas e uma relação mais consciente com o tempo dedicado à leitura. Menos ansiedade por metas artificiais e mais atenção ao processo.

Se 2022 foi o ano do entusiasmo recuperado, 2025 foi o ano da consolidação.

Filmes e Séries Vistos em 2025


Em 2025 dediquei menos tempo aos filmes do que no ano anterior. Foram apenas 37 filmes assistidos ao longo do ano — um número significativamente menor do que os 103 registrados em 2024. Ainda assim, mesmo com uma redução na quantidade, o cinema continuou sendo uma das minhas formas preferidas de lazer e reflexão.

Os filmes vistos neste ano abrangeram produções lançadas em diferentes décadas. O mais antigo foi Cleópatra (1963), seguido por Patton (1970). Ao mesmo tempo, também assisti a obras recentes, incluindo produções de 2024 e até mesmo um lançamento de 2025 (Oficina do Diabo). Essa diversidade de épocas mostra como o cinema permite viajar por diferentes contextos históricos e estilos narrativos.

Ao longo do ano, assisti a 37 filmes, distribuídos por diversas décadas de lançamento, com uma presença relevante de produções mais recentes — especialmente de 2024, que respondeu por sete títulos.

A distribuição ao longo do ano também revela um padrão interessante. No primeiro semestre assisti 26 filmes, enquanto no segundo semestre foram apenas 11. Os meses mais intensos foram maio e junho, que concentraram boa parte das sessões.

No total, os filmes consumiram 77 horas, número bem inferior às 217 horas dedicadas ao cinema em 2024.

Filmes vistos por mês

Janeiro (3)
O Fascinante Mundo dos Corais; A Bruxa; Glass Onion: Um Mistério Knives Out
Fevereiro (2)
Avicii: Meu Nome é Tim; Meu Nome Não é Johnny
Março (1)
Um Lugar Silencioso: Dia Um
Abril (4)
El Camino: Um Filme de Breaking Bad; Conclave; Maus Momentos no Hotel Royale; Carandiru
Maio (8)
Crash: No Limite; Ainda Estou Aqui; Oficina do Diabo; A Caça; Jackie Brown; Druk: Mais uma Rodada; O Castelo no Céu; Patton
Junho (8)
Vidas ao Vento; Kagemusha; Operação França; Herege; Super Mario Bros; Cleópatra; Um Homem de Família; Pig
Julho (0)
Agosto (4)
Nosferatu; Quebrando a Banca; Saneamento Básico; Hotel Ruanda
Setembro (1)
Coach Carter
Outubro (2)
Meu Primo Vinny; Os Últimos Passos de um Homem
Novembro (4)
Borat; Temos Papa; Anora; 1984
Dezembro (0)

Embora o número de filmes tenha sido menor, o consumo de séries foi bastante expressivo. Ao longo do ano assisti 287 episódios, totalizando aproximadamente 230 horas. As séries que mais assisti no ano foram as seguintes.


Somando filmes e séries, 2025 teve 307 horas de conteúdo assistido, número inferior às 453 horas registradas em 2024.

Apesar da redução no tempo dedicado ao cinema em comparação com o ano anterior, 2025 ainda foi um ano marcado por boas experiências diante da tela. A diversidade de gêneros, épocas e estilos reafirma algo que sempre me chama atenção no cinema: sua capacidade de atravessar décadas e continuar dialogando com o presente.

Registrar esses números e títulos é também uma forma de preservar pequenas memórias do cotidiano. Cada filme assistido acaba associado a um momento específico do ano, a uma fase da vida ou a uma reflexão provocada pela história. No fim das contas, mais do que estatísticas, essa lista é um retrato cultural de um ano — um lembrete de que o tempo que passamos diante de boas histórias raramente é tempo perdido.


quarta-feira, dezembro 31, 2025

O Assunto do Céu


Para finalizar o ano, termino meu 54º livro. Este que me acompanhou desde o 1º dia de 2025.

O Assunto do Céu reúne ensaios e reflexões para serem lidos um por dia em que C.S.Lewis (1898-1963) enfrenta um problema recorrente da modernidade: a redução do real ao que pode ser medido. Para ele, o erro não está na ciência (que ele respeita profundamente), mas na pretensão de que o método científico esgote tudo o que existe. Lewis chama atenção para algo simples e incômodo: conhecer as causas físicas de um fenômeno não equivale a compreender seu significado. Explicar como o cérebro funciona não explica por que buscamos a verdade; descrever reações químicas não esgota o que é amar, sofrer ou esperar.

O grande mérito do livro está no estilo argumentativo. Lewis não grita, não caricatura o adversário e não se apoia em jargões teológicos. Ele raciocina como um professor paciente que conduz o leitor por analogias, paradoxos e exemplos cotidianos. Sua crítica ao materialismo é mais filosófica do que religiosa: se tudo o que pensamos é apenas produto de causas irracionais (choques químicos, impulsos evolutivos), então a própria ideia de verdade se dissolve. O pensamento deixa de ser confiável no exato momento em que tentamos usá-lo para negar qualquer transcendência.

Ao mesmo tempo, Lewis não oferece consolo fácil. O “céu” que ele descreve não é uma projeção sentimental nem uma recompensa simplista. Pelo contrário: ele insiste que o desejo humano pelo infinito é, em si, um sinal de que não fomos feitos apenas para este mundo. Aqui aparece um dos temas mais fortes do livro: a ideia de que nossos anseios mais profundos não são ilusões, mas indícios. Assim como a fome aponta para a existência de comida, o desejo de algo absoluto aponta para uma realidade que não cabe inteiramente na experiência terrena.

Ele não resolve o mistério do sentido da vida, mas recusa a ideia de que o mistério seja um defeito a ser eliminado. Lewis sugere algo mais ousado: talvez o mistério seja o traço mais fiel da realidade.

segunda-feira, dezembro 29, 2025

Dom Quixote


Depois de 41 dias, finalizo meu 53º livro do ano!

Ler Dom Quixote foi uma experiência curiosa: comecei achando que estava diante de uma paródia dos romances de cavalaria e terminei com a sensação de ter acompanhado um tratado melancólico sobre a condição humana, disfarçado de comédia. Miguel de Cervantes (1547-1616) ri, mas é um riso que, aos poucos, aprende a doer.

No Livro I (1605), o romance é uma sátira direta. Dom Quixote é um homem que enlouqueceu de tanto ler, e sua loucura tem uma forma precisa: ele tenta impor à realidade um código moral e narrativo que já não funciona. O mundo reage com escárnio, violência e pragmatismo brutal. Aqui, Cervantes desmonta os romances de cavalaria expondo seu artificialismo: gigantes são moinhos, castelos são vendas, princesas são camponesas. Sancho Pança, ainda rústico e interesseiro, funciona como contrapeso: o senso comum tentando sobreviver à fantasia.

Dom Quixote não é apenas ridículo; ele é eticamente superior ao mundo que o cerca. Sua loucura tem método: honra, justiça, proteção dos fracos. O problema não é o ideal, mas o descompasso histórico.

No Livro II (1615), o jogo se torna mais sofisticado e mais cruel. Os personagens já leram o Livro I. Dom Quixote virou personagem famoso dentro do próprio romance. A loucura deixa de ser espontânea e passa a ser encenada pelos outros. Duques, cortesãos e leitores dentro da narrativa manipulam Dom Quixote para rir dele. O cavaleiro já não cai em enganos por ingenuidade: ele é colocado em armadilhas conscientes.

Sancho Pança, por sua vez, cresce enormemente. Sua passagem pelo governo da “ilha” é um dos momentos mais interessantes do romance: o analfabeto governa com prudência, senso de justiça e equilíbrio moral. Sancho aprende; Dom Quixote, não.

Ao final a recuperação da lucidez de Dom Quixote não é uma vitória da razão, mas uma derrota da imaginação. Ao abandonar seus livros e morrer como Alonso Quijano, ele vence a loucura, mas perde o sentido.

No fim, Cervantes não zomba de Dom Quixote. Ele o lamenta. E, discretamente, nos pergunta se não somos todos um pouco quixotescos: leitores tentando impor sentido a um mundo que insiste em ser sem graça, quando tudo o que queremos é que ele seja épico, ao menos por um instante.