sexta-feira, outubro 23, 2026

A Bússola Dourada


Há aproximadamente 25 anos, li A Bússola Dourada (1995), de Philip Pullman (1946-), e guardei uma lembrança muito positiva da obra. Embora já não me recordasse de muitos detalhes da história, permaneceu a sensação de ter encontrado um livro especial. Agora, depois de tanto tempo, resolvi retornar a esse universo para descobrir se aquela impressão resistiria a uma nova leitura, realizada com outros olhos e com a bagagem literária acumulada ao longo dos anos. A resposta não poderia ter sido melhor: o livro continua sendo excelente!

A Bússola Dourada é o primeiro volume da trilogia Fronteiras do Universo. A narrativa acompanha Lyra Belacqua, uma menina curiosa, corajosa e bastante habilidosa em inventar histórias, que vive em uma versão alternativa de Oxford. Nesse mundo, os seres humanos possuem dæmons, criaturas que assumem formas animais e representam uma dimensão essencial de sua identidade. A partir de acontecimentos misteriosos, Lyra embarca em uma aventura que a levará muito além do ambiente acadêmico em que cresceu.

Um dos grandes méritos de Philip Pullman está na construção desse universo. O autor consegue combinar elementos fantásticos, científicos e religiosos de maneira extremamente envolvente, criando uma realidade que, embora diferente da nossa, apresenta uma coerência própria. Os dæmons, o aletiômetro, os ursos encouraçados e os mistérios que envolvem o Pó são elementos que despertam a curiosidade e tornam a leitura fascinante.

Entretanto, o que mais me chamou a atenção nessa releitura foi perceber que, por trás de uma aventura aparentemente juvenil, existe uma obra repleta de questionamentos filosóficos, morais e religiosos. Pullman aborda temas como liberdade, conhecimento, autoridade, amadurecimento e a própria natureza humana. Sua narrativa questiona especialmente o poder das instituições que se apresentam como detentoras da verdade e os perigos de se justificar determinadas ações em nome de objetivos considerados superiores.

Nesse aspecto, é interessante estabelecer um paralelo com J. R. R. Tolkien e C. S. Lewis, dois autores de fantasia que aprecio bastante. Enquanto Tolkien e Lewis construíram universos profundamente influenciados pela tradição cristã, Pullman segue por um caminho bastante diferente, apresentando uma visão crítica de determinadas concepções religiosas e da autoridade institucional. Embora eu não compartilhe necessariamente de todas as perspectivas filosóficas do autor, considero esse contraponto extremamente enriquecedor. Afinal, uma boa obra literária não precisa confirmar nossas convicções; ela também deve nos provocar, apresentar outras perspectivas e estimular a reflexão.

Outro aspecto que merece destaque é a construção dos personagens. Lyra é uma protagonista cativante justamente por não representar um modelo convencional de heroína. É curiosa, impulsiva, mentirosa em diversas ocasiões, mas também demonstra coragem, lealdade e um forte senso de amizade. Os demais personagens também apresentam uma complexidade moral interessante, fugindo de uma divisão simplista entre o bem e o mal. Pullman nos lembra que inteligência, prestígio e boas intenções não são garantias de virtude.

A narrativa possui um ritmo muito agradável, alternando momentos de aventura, mistério e descobertas. Mesmo conhecendo parte da história, senti novamente o prazer de acompanhar os acontecimentos e desvendar gradualmente os segredos daquele universo. E talvez essa seja uma das maiores qualidades do livro: conseguir envolver o leitor tanto pela aventura quanto pelas ideias que apresenta.

Reler uma obra depois de 25 anos é também uma experiência curiosa. O livro permanece o mesmo, mas o leitor certamente não. Aquilo que antes me encantava principalmente pela imaginação e pela aventura agora também desperta reflexões sobre filosofia, religião, ética e a condição humana. Foi interessante perceber que a admiração que eu tinha pela história não apenas permaneceu, como ganhou novas razões.

A Bússola Dourada é uma excelente obra de fantasia, capaz de agradar tanto aos leitores mais jovens quanto àqueles que procuram uma literatura com maior profundidade. Pullman demonstra que uma boa história pode ser, ao mesmo tempo, uma aventura empolgante e um convite para refletir sobre questões fundamentais da existência.

Termino essa releitura com a satisfação de reencontrar um livro que marcou minha experiência como leitor há tantos anos e constatar que ele continua merecendo aquela boa lembrança. Mais do que isso, fiquei com a impressão de que agora estou ainda mais preparado para apreciar as diferentes camadas dessa narrativa.

domingo, outubro 18, 2026

Pais e Filhos


Publicado em 1862, Pais e Filhos, de Ivan Turguêniev (1818-1883) é um dos grandes clássicos da literatura russa e uma obra que, apesar de escrita há mais de 160 anos, permanece surpreendentemente atual. Mais do que um romance sobre o conflito entre gerações, o livro apresenta uma profunda reflexão sobre os limites da razão, o valor das tradições, as transformações sociais e as contradições da natureza humana.

A história se passa na Rússia de 1859, em um período de intensas mudanças políticas, econômicas e culturais, pouco antes da emancipação dos servos, ocorrida em 1861. Nesse ambiente, Turguêniev coloca frente a frente duas gerações com visões distintas sobre a sociedade. De um lado, aqueles que ainda encontram sentido nas tradições, na arte e nos valores herdados. De outro, jovens que questionam as instituições estabelecidas e acreditam na necessidade de romper com o passado para construir uma nova realidade.

O grande destaque da obra é Ievguêni Bazárov, um jovem estudante de medicina que se apresenta como niilista, rejeitando tudo aquilo que não pode ser sustentado pela razão e pela ciência. Inteligente, provocador e extremamente seguro de suas convicções, Bazárov despreza o romantismo, a poesia, as convenções sociais e boa parte dos valores defendidos pelas gerações anteriores.

Entretanto, é justamente nesse personagem que Turguêniev constrói uma das maiores virtudes do romance: demonstrar que a existência humana é muito mais complexa do que qualquer sistema filosófico.

Ao longo da narrativa, Bazárov se depara com experiências que desafiam suas certezas, especialmente quando precisa lidar com sentimentos que não consegue controlar ou explicar satisfatoriamente. O amor, o orgulho, a amizade e os vínculos familiares revelam as limitações de uma visão de mundo que pretende submeter toda a experiência humana à racionalidade.

Uma das questões que mais me chamaram a atenção durante a leitura foi perceber como a rejeição absoluta às tradições também pode se transformar em uma espécie de dogmatismo. Bazárov critica aqueles que aceitam ideias simplesmente porque foram transmitidas pelas gerações anteriores, mas, em diversos momentos, demonstra a mesma rigidez intelectual que condena em seus adversários.

Essa contradição torna o personagem especialmente interessante. Ele não é simplesmente um jovem arrogante ou um pensador equivocado. Possui qualidades admiráveis, como a independência intelectual, a coragem de questionar e a valorização do conhecimento científico. Contudo, sua dificuldade em reconhecer os limites das próprias convicções acaba revelando uma fragilidade profundamente humana.

Outro aspecto que apreciei foi a maneira como Turguêniev constrói os personagens da geração anterior. Eles não são apresentados apenas como representantes de um passado ultrapassado. Também possuem suas contradições, inseguranças e limitações. O autor evita transformar o romance em uma disputa simplista entre conservadores e progressistas, permitindo que o leitor reconheça virtudes e defeitos em ambos os lados.

Também gostei bastante da maneira como o romance aborda as relações familiares. Por trás dos debates filosóficos e das divergências políticas, encontramos pais que desejam compreender seus filhos e filhos que procuram afirmar sua independência, muitas vezes sem perceber o sofrimento que provocam naqueles que os amam.

Nesse aspecto, o livro revela uma sensibilidade extraordinária. O afeto nem sempre se manifesta por meio de grandes declarações. Muitas vezes, está presente em pequenos gestos, nos silêncios, nas tentativas de aproximação e até mesmo nas dificuldades de comunicação.

O desfecho da obra é particularmente marcante e, para mim, eleva o romance a uma dimensão ainda mais profunda. Depois de tantas discussões sobre ciência, tradição, progresso e filosofia, Turguêniev nos conduz a uma reflexão sobre a fragilidade da existência e a permanência do amor diante da passagem do tempo.

É impossível não perceber, nesse momento, como nossas disputas intelectuais, por mais importantes que sejam, podem parecer pequenas diante das experiências fundamentais da vida.

Gostei muito de Pais e Filhos, sobretudo pela capacidade de Turguêniev de transformar um conflito histórico e filosófico em uma narrativa profundamente humana. É um romance relativamente curto, mas de grande densidade, que continua provocando reflexões muito depois de sua conclusão.

Mais do que apresentar o confronto entre pais e filhos, a obra nos convida a pensar sobre a relação entre conhecimento e sabedoria, liberdade e responsabilidade, razão e sentimento.

Ao terminar a leitura, fiquei com a impressão de que o grande problema de Bazárov não estava necessariamente em suas ideias, mas na dificuldade de reconhecer que elas, por mais coerentes que parecessem, não eram suficientes para explicar toda a complexidade da vida.

terça-feira, outubro 13, 2026

Galaxy Book6 Pro (14")


Depois de muitos anos utilizando tablets como minha principal ferramenta nas viagens de trabalho, chegou a hora de voltar a ter um notebook!

E essa compra acaba sendo curiosa quando olho para trás e vejo a minha relação com computadores portáteis ao longo dos últimos 20 anos.

Meu primeiro notebook foi um Toshiba Satellite de 17", comprado por volta de 2006. Era uma época completamente diferente: notebook era um equipamento grande, pesado e que estava muito longe de oferecer a mobilidade que temos hoje.

Em janeiro de 2011 veio meu segundo notebook, um MacBook Pro de 13". Naquela época eu estava entrando de cabeça no ecossistema da Apple. Já tinha iPod, iPhone e iPad e, durante uma viagem para Orlando, aproveitei para comprar o MacBook Pro. Eu vinha de mais de 15 anos utilizando Windows e resolvi aprender o Mac OS X.

O curioso é que poucos anos depois os tablets começaram praticamente a eliminar a necessidade de um notebook para mim.

Em 2010 comprei meu primeiro iPad e fui aos poucos testando até onde aquele novo tipo de equipamento poderia me levar. Em 2011 já viajei a trabalho sem levar netbook e descobri que conseguia fazer praticamente tudo pelo tablet. Em 2012 comprei até uma case com teclado que chamei na época de meu "aposentador de notebook" e, em 2014, registrei aqui no blog que o iPad 2 tinha efetivamente aposentado meu netbook.

Durante muitos anos essa lógica funcionou muito bem.

Passei por várias gerações do iPad e, em 2023, fiz a migração definitiva dos tablets da Apple para a Samsung com a compra do Galaxy Tab S8. Ele se tornou um excelente companheiro de viagem: leve, pequeno, com ótima bateria, conexão 5G e suficientemente poderoso para reuniões, leitura de documentos, e-mails e várias tarefas de trabalho.

Só que meu uso profissional foi ficando cada vez mais exigente.

Hoje trabalho bastante com Excel, PowerPoint, Outlook, Word e Power BI. E por melhor que Android, Samsung DeX e os aplicativos móveis tenham evoluído, começaram a surgir situações em que eu percebia uma diferença importante entre "conseguir trabalhar no tablet" e "ter à disposição um computador completo".

Comecei então a procurar alguma coisa que pudesse me dar a liberdade e a portabilidade que tanto gosto no Tab S8, mas sem abrir mão do Windows completo.

Analisei algumas possibilidades.

Uma delas foi o Galaxy Book Go. A proposta de bateria e mobilidade era interessante, mas seu hardware de entrada, principalmente os 4 GB de memória, seria limitado demais para a quantidade de multitarefa que faço.

Também considerei seriamente o Microsoft Surface Pro. O conceito é provavelmente o que mais se aproxima de um tablet que também é um computador Windows completo. Os novos modelos com Snapdragon oferecem excelente autonomia e ótimo desempenho.

Mas depois percebi uma coisa bastante óbvia: eu já tenho um excelente tablet!

Não precisava comprar outro equipamento que tentasse ser ao mesmo tempo tablet e notebook. Precisava justamente de algo que complementasse o Galaxy Tab S8 e fosse excelente naquilo em que o tablet começa a mostrar suas limitações.

Foi aí que o Samsung Galaxy Book6 Pro de 14" passou a fazer cada vez mais sentido.

E foi o escolhido!

O Galaxy Book6 Pro é um equipamento novíssimo. A Samsung apresentou mundialmente a linha Galaxy Book6 no dia 5 de janeiro de 2026, durante a CES 2026, e o modelo chegou oficialmente ao mercado brasileiro no dia 26 de agosto de 2026. Ou seja, estou comprando o notebook praticamente na janela de lançamento nacional.

Minha configuração é o Galaxy Book6 Pro 14", modelo NP940XJG-LA2BR, equipado com:

  • Processador Intel Core Ultra 5 325
  • 16 GB de memória LPDDR5X
  • SSD NVMe de 512 GB
  • Tela Dynamic AMOLED 2X Touch de 14"
  • Duas portas Thunderbolt 4; USB-A 3.2; HDMI 2.1
  • Teclado retroiluminado
  • Bateria de 67,18 Wh
  • Carregador USB-C de 65 W
  • Peso de apenas 1,24 kg
  • Espessura de apenas 11,6 mm

O processador também é de uma geração recém-lançada. O Core Ultra 5 325 pertence à Série 3 da Intel, conhecida pelo codinome Panther Lake, lançada no primeiro trimestre de 2026 e produzida utilizando a tecnologia Intel 18A.

Não escolhi a configuração mais poderosa da linha propositalmente.

Existe uma versão do Book6 Pro com Core Ultra X7, 32 GB de memória, SSD de 1 TB e gráficos Intel Arc B390. É obviamente mais potente, mas meu objetivo nunca foi comprar um notebook para jogos, edição profissional de vídeo ou renderização 3D.

Para isso continuo tendo meu desktop.

O que eu precisava era de uma máquina para trabalhar!

Excel, Power BI, PowerPoint, Outlook, Word, navegador, reuniões e muita multitarefa, mas privilegiando principalmente portabilidade e autonomia.

E nesse cenário o Core Ultra 5 me pareceu muito mais equilibrado. É um processador moderno, potente o suficiente para tudo que faço, mas com grande preocupação com eficiência energética.

A tela também foi um dos pontos que mais pesaram na escolha. São 14" em um painel Dynamic AMOLED 2X com resolução de 2880 x 1800 pixels e sensível ao toque. É uma tela muito superior à de um notebook corporativo convencional e, ao mesmo tempo, mantém o equipamento extremamente compacto.

Mas talvez os números que mais resumam o motivo da compra sejam estes:

1,24 kg e 11,6 mm de espessura!

É justamente aí que está o ponto de equilíbrio que eu procurava.

O Tab S8 sempre me agradou porque praticamente desaparece dentro da mochila e oferece bateria suficiente para passar tranquilamente por um dia de viagem. Eu não queria voltar a carregar aqueles notebooks grandes e pesados que durante tantos anos foram sinônimo de computador portátil.

O Book6 Pro consegue entregar um Windows completo em um equipamento que continua fino e leve o suficiente para me acompanhar nos aeroportos, hotéis e reuniões sem representar um peso desnecessário.

Outro diferencial foi permanecer dentro do ecossistema Samsung. Hoje já utilizo celular, tablet e outros dispositivos Galaxy, e o notebook se integra a esse ambiente por meio de recursos como Quick Share e compartilhamento entre dispositivos.

Há também um detalhe que parece pequeno, mas que considero muito importante para quem viaja: as conexões.

Apesar de ser extremamente fino, o Book6 Pro ainda possui HDMI, USB-A e duas Thunderbolt 4. Portanto, posso chegar a uma reunião e conectar diretamente um projetor ou televisão por HDMI, colocar um pendrive na USB tradicional ou utilizar um dock pela Thunderbolt sem precisar andar com uma coleção de adaptadores.

É interessante pensar que, em junho de 2012, escrevi aqui no blog que, depois de adaptar o iPad para o trabalho, dificilmente conseguiria olhar novamente para um notebook sem pensar que se tratava de "um equipamento antigo e defasado".

Quatorze anos depois estou comprando novamente um notebook!

Mas talvez aquela avaliação não estivesse errada...

Os notebooks daquela época realmente não conseguiam competir com um tablet em portabilidade. A tecnologia é que evoluiu a ponto de finalmente reduzir essa distância.

Hoje consigo ter um computador Windows completo, com tela AMOLED de 14", 16 GB de memória, SSD, processador Intel de última geração e bateria para uma longa jornada de trabalho em um equipamento com 1,24 kg.

Portanto, depois de aproximadamente 15 anos utilizando tablets como minha principal solução móvel, chegou a hora de inverter novamente os papéis.

O Galaxy Tab S8 continuará comigo para leitura, consumo de conteúdo, entretenimento e será compartilhado o uso com a minha esposa. Continua sendo um excelente tablet e ainda tem muita vida útil.

Mas, para o trabalho, ele pode finalmente se aposentar.

O Galaxy Book6 Pro passa agora a assumir essa função.

É meu terceiro notebook, meu segundo notebook com Windows e o primeiro que compro em aproximadamente 15 anos.

O Toshiba Satellite representou minha primeira experiência com um computador realmente portátil.

O MacBook Pro marcou minha entrada no mundo Apple.

Os iPads e depois o Galaxy Tab S8 mostraram que era possível trabalhar viajando sem carregar um computador tradicional.

E agora o Galaxy Book6 Pro fecha um ciclo curioso: volto ao Windows e ao notebook justamente porque, depois de todos esses anos, finalmente encontrei um equipamento que consegue entregar aquilo que eu mais gostava no tablet sem abrir mão daquilo que eu sentia falta em um computador.

Agora é colocar a máquina na estrada e ver quantos anos ela irá me acompanhar!

domingo, outubro 11, 2026

Aquela Fortaleza Medonha


Com Aquela Fortaleza Medonha (1945), C. S. Lewis (1898-1963) encerra sua Trilogia Cósmica de maneira surpreendente, abandonando as viagens interplanetárias dos dois primeiros volumes para trazer o conflito entre o bem e o mal ao nosso próprio mundo. Depois de acompanhar as aventuras de Elwin Ransom em Além do Planeta Silencioso e Perelandra, encontrei neste terceiro livro uma narrativa mais complexa, que mistura ficção científica, filosofia, teologia, crítica social e elementos da mitologia arturiana.

Confesso que gostei muito da experiência de leitura. Na verdade, a Trilogia Cósmica conquistou um lugar especial entre minhas leituras e se tornou uma das minhas trilogias favoritas. Lewis conseguiu construir uma obra que, além de proporcionar uma excelente experiência literária, provoca reflexões que permanecem conosco muito depois de terminarmos a última página.

Publicado em 1945, em um mundo profundamente marcado pela Segunda Guerra Mundial, Aquela Fortaleza Medonha apresenta uma crítica contundente à crença de que o progresso científico e tecnológico, por si só, seria capaz de aperfeiçoar a humanidade. Lewis não questiona o valor da ciência, mas os perigos de sua transformação em instrumento de poder, especialmente quando o conhecimento se desvincula de princípios morais.

A história acompanha Mark e Jane Studdock, um jovem casal cujo casamento atravessa dificuldades. Enquanto Mark, professor universitário, procura reconhecimento e prestígio profissional, Jane busca preservar sua independência e compreender acontecimentos inexplicáveis que começam a perturbar sua vida. Seus caminhos acabam envolvidos em um conflito muito maior, relacionado a uma poderosa organização científica conhecida como N.I.C.E.

Um dos aspectos que mais me impressionaram foi a maneira como Lewis retrata a corrupção moral dentro das instituições. O mal não aparece apenas por meio de personagens declaradamente perversos, mas também nas pequenas concessões, na ambição profissional, na necessidade de aceitação e na disposição de abandonar convicções pessoais para conquistar espaço entre os poderosos. É particularmente interessante perceber como decisões aparentemente insignificantes podem conduzir uma pessoa a situações cada vez mais comprometedoras.

Essa dimensão do romance me parece extremamente atual. Mesmo escrito há mais de oitenta anos, o livro apresenta questões que dialogam diretamente com nossa sociedade, marcada pela crescente influência da tecnologia, pela concentração de informações e pelo poder de organizações capazes de interferir profundamente na vida das pessoas. A grande pergunta de Lewis continua pertinente: até que ponto o desejo de controlar e aperfeiçoar a natureza pode acabar comprometendo a própria humanidade?

Outro elemento fascinante é a presença da tradição medieval e da mitologia arturiana. Lewis combina o ambiente acadêmico da Inglaterra moderna com antigas lendas, poderes espirituais e uma concepção de universo muito diferente daquela oferecida pelo materialismo contemporâneo.

Também considero interessante a forma como Lewis contrapõe duas concepções de comunidade. De um lado, encontramos relações estruturadas em torno do poder, da competição e da utilidade. De outro, relações fundamentadas na amizade, na confiança, na responsabilidade e no reconhecimento da dignidade humana. Essa oposição reforça uma das mensagens centrais do romance: uma sociedade não se torna necessariamente melhor apenas porque dispõe de mais conhecimento, recursos ou capacidade de organização.

Em termos narrativos, Aquela Fortaleza Medonha é provavelmente o volume mais exigente da trilogia. A quantidade de personagens, a alternância entre diferentes núcleos e a mistura de gêneros podem dificultar a leitura em alguns momentos. Eu mesmo precisei revisitar determinados acontecimentos para compreender melhor suas conexões. Contudo, esse esforço foi recompensado pela profundidade dos temas e pela maneira como Lewis reúne, no encerramento, elementos desenvolvidos ao longo dos três livros.

Olhando retrospectivamente para a trilogia, percebo uma progressão muito interessante. Em Além do Planeta Silencioso, Lewis questiona a posição do homem diante da grandeza do universo. Em Perelandra, aprofunda a reflexão sobre a liberdade, a tentação e a origem do mal. Finalmente, em Aquela Fortaleza Medonha, demonstra como a corrupção moral pode ultrapassar o indivíduo e manifestar-se nas instituições, na política, na ciência e na própria organização da sociedade.

É justamente essa continuidade filosófica que torna a trilogia tão especial. Embora cada volume apresente características narrativas bastante distintas, os três formam uma reflexão coerente sobre a condição humana, nossa relação com a criação e os perigos da arrogância intelectual e moral.

Ao concluir a leitura, fiquei com a impressão de que Lewis não estava simplesmente escrevendo uma história sobre o confronto entre forças sobrenaturais. Sua preocupação era muito mais profunda: mostrar que o verdadeiro progresso humano não pode ser medido apenas pela capacidade de transformar o mundo, mas também pela sabedoria de reconhecer limites, preservar valores e compreender nossa responsabilidade diante dos outros.

Aquela Fortaleza Medonha é uma obra que exige atenção, mas oferece muito em troca. Sua combinação de fantasia, filosofia e crítica social demonstra a capacidade de Lewis de utilizar a literatura não apenas para contar uma boa história, mas também para provocar reflexões sobre questões fundamentais da existência.

Termino a Trilogia Cósmica com a satisfação de ter descoberto uma das minhas trilogias favoritas. Os três livros possuem qualidades próprias, mas, juntos, constituem uma experiência literária excepcional. Recomendo especialmente aos leitores que apreciam histórias capazes de combinar imaginação, profundidade filosófica e questionamentos morais.

terça-feira, setembro 29, 2026

Perelandra


C. S. Lewis (1898-1963) tem uma capacidade de combinar uma narrativa envolvente com reflexões filosóficas, morais e teológicas que sempre me impressiona. Depois de ter apreciado bastante Além do Planeta Silencioso, iniciei a leitura de Perelandra (1943), segundo volume da Trilogia Cósmica.

Publicado em 1943, em plena Segunda Guerra Mundial, Perelandra dá continuidade à jornada de Elwin Ransom, agora enviado a Vênus, um planeta completamente diferente da Terra. Lewis constrói um mundo de beleza extraordinária, repleto de oceanos, ilhas flutuantes e uma natureza exuberante, onde a vida parece existir em perfeita harmonia com a criação. Entretanto, por trás desse cenário quase paradisíaco, desenvolve-se uma das reflexões mais profundas que encontrei em suas obras: a relação entre liberdade, obediência, conhecimento e a própria origem do mal.

O aspecto mais fascinante do romance é a maneira como Lewis revisita o relato bíblico da criação e da queda do homem, presente no Gênesis. Em vez de simplesmente reproduzir essa história, o autor nos convida a imaginar uma possibilidade diferente: e se a humanidade tivesse resistido à tentação original? Seria o pecado uma etapa inevitável do amadurecimento ou seria possível crescer em sabedoria e liberdade sem precisar experimentar o mal?

A partir dessas perguntas, Lewis desenvolve uma narrativa em que os diálogos assumem uma importância tão grande quanto os acontecimentos. A tentação não aparece simplesmente como um convite para praticar algo evidentemente errado, mas como uma argumentação sofisticada, capaz de transformar a desobediência em coragem, o orgulho em independência e a transgressão em amadurecimento. Essa abordagem me chamou particularmente a atenção, pois demonstra como o mal pode se apresentar sob a aparência de algo bom, utilizando argumentos aparentemente razoáveis para justificar aquilo que, em sua essência, representa uma ruptura moral.

Outro aspecto que considero brilhante é a forma como Lewis trabalha o conceito de liberdade. Estamos acostumados a associá-la à possibilidade de fazer aquilo que desejamos, sem restrições ou imposições. Em Perelandra, porém, somos convidados a considerar uma perspectiva diferente: a de que a verdadeira liberdade talvez não esteja em fazer tudo o que queremos, mas em compreender e escolher livremente aquilo que é bom. A obediência, nesse contexto, deixa de representar necessariamente uma limitação e passa a ser compreendida como uma expressão de confiança e de participação em uma ordem maior.

Também me impressionou a maneira como o autor valoriza a criação material. As descrições dos frutos, das águas, das paisagens e das sensações experimentadas por Ransom são extraordinariamente ricas. Lewis apresenta um mundo no qual o prazer, a beleza e a natureza são essencialmente bons. O problema não está em desfrutar dessas coisas, mas em tentar possuí-las ou submetê-las inteiramente à nossa vontade. Há uma reflexão muito bonita sobre nossa dificuldade de aceitar a transitoriedade das experiências e sobre o desejo constante de repetir ou preservar aquilo que nos proporcionou felicidade.

O contexto histórico também contribui para a força da obra. Escrito durante a Segunda Guerra Mundial, o romance reflete preocupações de Lewis com uma sociedade que frequentemente confundia progresso científico e tecnológico com progresso moral. Por meio de seus personagens, o autor questiona a ideia de que o avanço da humanidade justificaria qualquer sacrifício ou transgressão. É uma discussão que permanece surpreendentemente atual.

Apesar de sua riqueza filosófica, Perelandra não é apenas um exercício intelectual. Lewis consegue construir uma narrativa que alterna contemplação, tensão psicológica e aventura. É verdade que alguns diálogos são longos e exigem atenção, especialmente quando envolvem questões teológicas mais complexas. Em determinados momentos, precisei desacelerar a leitura para compreender melhor os argumentos apresentados. Entretanto, considero que essa característica é justamente uma das maiores qualidades do livro: ele não se limita a contar uma história, mas nos convida a pensar profundamente sobre ela.

Outro ponto que merece destaque é a transformação de Ransom. Mais do que um explorador de outros mundos, ele se torna alguém confrontado com a necessidade de agir diante de questões que ultrapassam sua própria compreensão. Sua trajetória mostra que reconhecer intelectualmente o bem não significa necessariamente estar disposto a praticá-lo, sobretudo quando isso exige coragem, sacrifício e responsabilidade.

Ao concluir a leitura, fiquei com a impressão de que Perelandra é uma obra ainda mais profunda do que Além do Planeta Silencioso. Se o primeiro livro amplia nossa percepção sobre o universo e o lugar da humanidade nele, o segundo nos leva a questionar nossa própria natureza moral e a maneira como compreendemos a liberdade.

Recomendo bastante a leitura, especialmente para aqueles que apreciam obras que combinam fantasia, filosofia e espiritualidade. Mais do que uma aventura ambientada em outro planeta, Perelandra é uma reflexão sobre a natureza do bem, a sedução do mal e a possibilidade de uma liberdade que encontra sua plenitude não na ausência de limites, mas na harmonia com a criação.

quinta-feira, setembro 24, 2026

Além do Planeta Silencioso


C. S. Lewis (1898-1963) é um daqueles autores que dificilmente me decepcionam. Meu primeiro contato com sua literatura aconteceu por meio de As Crônicas de Nárnia, uma série que me conquistou pela capacidade de combinar fantasia, aventura e reflexões profundas sobre a natureza humana. Agora, com a leitura de Além do Planeta Silencioso (1938), reencontrei justamente aquilo que tanto admiro em sua escrita: a habilidade de construir histórias aparentemente simples, mas carregadas de significados filosóficos, morais e espirituais.

Além do Planeta Silencioso é o primeiro volume da chamada Trilogia Espacial, composta também por Perelandra e Aquela Fortaleza Medonha. A obra acompanha Elwin Ransom, um professor universitário que, por circunstâncias inesperadas, acaba sendo levado a uma viagem interplanetária. O que poderia ser apenas mais uma aventura de ficção científica transforma-se em uma reflexão sobre a humanidade, a civilização e nossa maneira de compreender o universo.

Um dos aspectos que mais me agradaram foi a maneira como Lewis inverte a perspectiva tradicional das histórias sobre encontros com seres extraterrestres. Estamos acostumados a imaginar a humanidade como uma civilização avançada, capaz de explorar outros mundos e levar até eles seu conhecimento e sua tecnologia. Lewis, entretanto, nos convida a questionar se nosso desenvolvimento científico e tecnológico é realmente acompanhado por uma evolução moral equivalente.

Essa reflexão ganha ainda mais força quando consideramos o contexto histórico da publicação. Em 1938, a Europa vivia um período de profundas tensões políticas, marcado pela ascensão de regimes totalitários, pela disseminação de ideologias de superioridade racial e pela proximidade da Segunda Guerra Mundial. Ao mesmo tempo, a humanidade demonstrava uma confiança crescente na ciência e no progresso tecnológico. Lewis parece questionar justamente a crença de que o conhecimento e o poder seriam suficientes para tornar uma civilização verdadeiramente superior.

Outro aspecto fascinante é a construção do universo apresentado pelo autor. Diferentemente de muitas obras de ficção científica, nas quais o espaço é retratado como uma imensidão fria, vazia e indiferente, Lewis recupera elementos da cosmologia medieval e da tradição cristã para imaginar um universo ordenado, repleto de significado e muito mais complexo do que nossa compreensão cotidiana permite perceber.

Essa característica aproxima sua literatura da de J. R. R. Tolkien, seu grande amigo. Ambos compartilhavam o interesse pela mitologia, pelas línguas antigas e pela tradição cristã, utilizando a fantasia para explorar questões que ultrapassam os limites da realidade material. Não por acaso, a própria origem de Além do Planeta Silencioso está relacionada a um desafio literário entre os dois escritores: Lewis desenvolveria uma história de viagem espacial, enquanto Tolkien exploraria uma narrativa de viagem no tempo.

A dimensão cristã da obra também merece destaque. Assim como acontece em As Crônicas de Nárnia, Lewis incorpora elementos de sua visão religiosa à narrativa sem abandonar o caráter fantástico da história. Sua abordagem nos convida a refletir sobre a criação, o livre-arbítrio, o bem e o mal, além da posição que o ser humano ocupa em uma realidade muito maior do que ele próprio.

Particularmente, gosto dessa característica de sua literatura. Lewis consegue apresentar questões profundas sem transformar seus romances em tratados filosóficos ou teológicos. Suas ideias surgem por meio dos personagens, dos diálogos e das situações que enfrentam, permitindo que o leitor acompanhe uma aventura envolvente e, ao mesmo tempo, encontre motivos para refletir sobre suas próprias convicções.

Outro mérito é a capacidade de construir seres e sociedades diferentes dos nossos sem reduzi-los a simples curiosidades exóticas. As diferenças culturais, intelectuais e físicas tornam-se oportunidades para questionar preconceitos e demonstrar que nossa maneira de organizar e interpretar o mundo não é necessariamente a única possível, muito menos a melhor.

Terminei Além do Planeta Silencioso com a mesma satisfação que já havia experimentado ao ler As Crônicas de Nárnia. Mais uma vez, Lewis demonstrou por que é um autor que tanto me agrada. Sua literatura consegue ser imaginativa e acessível sem abrir mão da profundidade intelectual, oferecendo histórias que continuam provocando reflexões muito depois da última página.

domingo, setembro 20, 2026

Fanrenheit 451


A distopia é um dos meus gêneros literários favoritos. Gosto especialmente da maneira como esses romances apresentam sociedades aparentemente distantes da nossa realidade, mas que, ao longo da leitura, revelam comportamentos, contradições e problemas inquietantemente familiares. Foi exatamente essa sensação que encontrei em Fahrenheit 451 (1953), de Ray Bradbury (1920-2012) uma obra que gostei bastante e que considero uma das grandes referências da literatura distópica.

Publicado em 1953, em plena Guerra Fria, o romance apresenta uma sociedade na qual os livros são proibidos e os bombeiros, em uma curiosa inversão de suas funções, são responsáveis por incendiá-los. O título faz referência à temperatura de 451 graus Fahrenheit, apontada na narrativa como aquela em que o papel dos livros entra em combustão.

O protagonista, Guy Montag, é um desses bombeiros. Acostumado a exercer sua profissão sem questionamentos, começa a perceber as contradições do mundo em que vive depois de alguns encontros e acontecimentos que despertam sua curiosidade sobre os livros e, principalmente, sobre a vida que leva.

Entretanto, reduzir Fahrenheit 451 a uma história sobre a proibição dos livros seria deixar de lado sua reflexão mais interessante. Bradbury não apresenta simplesmente um governo autoritário que impõe a censura sobre uma população desejosa de conhecimento. Sua crítica é muito mais profunda: a própria sociedade, progressivamente seduzida pelo entretenimento, pela velocidade e pelo conforto, perdeu o interesse pela reflexão, pelo contraditório e pelo pensamento crítico.

Esse foi, para mim, um dos aspectos mais fascinantes da obra. A destruição dos livros não aparece apenas como uma imposição do Estado, mas também como consequência de uma sociedade que passou a considerar o conhecimento complexo algo desnecessário e até inconveniente. Afinal, pensar exige esforço, confrontar ideias pode gerar desconforto e questionar a realidade nem sempre produz felicidade.

Bradbury escreveu o romance em um momento de expansão da televisão nos Estados Unidos, quando o entretenimento audiovisual começava a transformar os hábitos familiares. Sua preocupação não estava propriamente nos aparelhos, mas no comportamento humano diante deles. Mais de setenta anos depois, é difícil não estabelecer paralelos com nossa relação com as redes sociais, os vídeos curtos, as notificações constantes e a quantidade praticamente infinita de informações que consumimos diariamente.

Vivemos em uma época na qual o acesso à informação nunca foi tão amplo. Entretanto, isso não significa necessariamente que estejamos refletindo mais profundamente sobre aquilo que consumimos. Em muitos momentos, a abundância de informações parece competir com nossa capacidade de concentração, análise e diálogo. Nesse sentido, Fahrenheit 451 permanece extraordinariamente atual.

Outro aspecto que me chamou a atenção foi a maneira como Bradbury trabalha a solidão e a superficialidade das relações humanas. Os personagens vivem cercados de tecnologias capazes de proporcionar comunicação e entretenimento permanentes, mas parecem cada vez mais distantes uns dos outros. Há uma diferença enorme entre estar conectado e estabelecer vínculos verdadeiros, uma questão que ganha ainda mais relevância quando observamos nossa sociedade contemporânea.

É interessante comparar a obra com Nós, de Ievguêni Zamiátin, outra distopia que li recentemente. Enquanto Zamiátin apresenta uma sociedade dominada pela racionalização extrema, pela vigilância e pela padronização dos indivíduos, Bradbury explora uma forma diferente de controle: aquela exercida pelo entretenimento excessivo, pela distração e pelo abandono voluntário do pensamento. Em ambos os romances, entretanto, encontramos uma preocupação comum com a perda da individualidade e da liberdade.

A leitura também me fez recordar Tolkien, meu autor favorito. Embora suas obras sejam bastante diferentes, ambos demonstram uma preocupação com a preservação da memória, das histórias e das tradições diante de um mundo cada vez mais orientado pela velocidade e pela instrumentalização das coisas. Assim como a memória dos povos da Terra-média é preservada por narrativas, poemas e canções, Bradbury apresenta o conhecimento acumulado pelas gerações como um patrimônio essencial para a continuidade da civilização.

Talvez a grande virtude de Fahrenheit 451 seja justamente nos lembrar de que os livros não são importantes apenas pelo conhecimento que armazenam, mas pela capacidade de despertar questionamentos, provocar desconforto, ampliar nossa compreensão do mundo e nos colocar diante de perspectivas diferentes das nossas.

Mais do que uma defesa dos livros ou uma crítica à censura, considero Fahrenheit 451 um alerta sobre o risco de uma humanidade que, em busca de conforto e entretenimento permanentes, acabe abrindo mão daquilo que a torna verdadeiramente livre: sua capacidade de pensar, questionar, recordar e escolher.

terça-feira, setembro 15, 2026

A Nudez de Afrodite


Por que histórias contadas há milhares de anos continuam tão próximas da nossa realidade? Essa é uma das reflexões que atravessam A Nudez de Afrodite (2025), de Cláudio Moreno (1944-), uma obra que demonstra como a mitologia greco-romana, longe de ser apenas um conjunto de narrativas fantásticas sobre deuses e heróis, permanece uma extraordinária ferramenta para compreender a natureza humana.

O livro reúne 60 crônicas nas quais o autor revisita episódios da mitologia clássica e estabelece conexões com questões que continuam presentes em nossa sociedade. Amor, vaidade, ciúme, ambição, poder, destino, mortalidade e relações familiares surgem em histórias que, apesar da distância temporal, revelam comportamentos surpreendentemente familiares.

Cláudio Moreno, professor e estudioso das línguas e da cultura clássica, possui uma qualidade que considero fundamental para quem se propõe a apresentar o mundo antigo ao leitor contemporâneo: a capacidade de transmitir conhecimento sem transformar a leitura em uma exposição acadêmica. Sua escrita é acessível, bem-humorada e envolvente, sem perder a profundidade das questões abordadas.

O grande mérito do livro está justamente nessa combinação entre erudição e simplicidade. Moreno não pretende apenas recontar histórias mitológicas. Ele procura demonstrar que, por trás de narrativas aparentemente distantes de nossa realidade, estão dilemas humanos que atravessaram séculos praticamente inalterados.

Um dos aspectos mais interessantes da mitologia grega é a maneira como seus deuses são representados. Diferentemente da concepção cristã de uma divindade moralmente perfeita, os deuses do Olimpo apresentam características profundamente humanas. São vaidosos, vingativos, apaixonados, ciumentos e, muitas vezes, incapazes de controlar os próprios impulsos.

Essa característica torna os mitos particularmente ricos. Os deuses gregos não representam necessariamente modelos de comportamento que devemos seguir, mas manifestações amplificadas de nossas virtudes, fraquezas e contradições. Ao observarmos suas atitudes, somos convidados a reconhecer aspectos da própria condição humana.

Outro tema recorrente é a relação entre liberdade e destino. Os personagens da mitologia frequentemente acreditam exercer controle sobre suas vidas, mas acabam confrontados com forças que ultrapassam sua capacidade de compreensão. A tentativa de escapar do destino, muitas vezes, torna-se justamente o caminho para sua realização.

Essa visão apresenta um contraste interessante com a tradição cristã e com parte da literatura que dela se desenvolveu. Enquanto o pensamento cristão procura conciliar liberdade humana e Providência divina, a mitologia grega frequentemente apresenta um universo no qual a ordem cósmica não corresponde necessariamente às expectativas humanas de justiça.

É difícil não perceber como essas questões continuam atuais. Nossa sociedade, embora tecnologicamente avançada, ainda enfrenta os mesmos conflitos fundamentais. Mudaram os cenários, os instrumentos e as instituições, mas permanecem a busca pelo reconhecimento, o medo da morte, a dificuldade de aceitar limites e a tensão entre razão e desejo.

Talvez a principal contribuição de A Nudez de Afrodite seja nos lembrar de que o progresso material da humanidade não foi acompanhado por uma transformação equivalente de nossa natureza. Continuamos movidos por desejos, medos, esperanças e contradições semelhantes aos daqueles que, milhares de anos atrás, imaginavam os deuses habitando o Monte Olimpo.

A mitologia, nesse sentido, não é apenas uma janela para o passado. É também um espelho no qual podemos observar nossa própria sociedade.

Considero A Nudez de Afrodite uma leitura agradável, inteligente e culturalmente enriquecedora, especialmente para quem gosta de história, literatura, filosofia e das grandes questões da condição humana. Seu maior valor está em despertar a curiosidade e incentivar um olhar mais atento sobre narrativas que ajudaram a construir os fundamentos da cultura ocidental.

Ao terminar a leitura, fica a percepção de que os antigos gregos talvez não fossem tão diferentes de nós. Afinal, mesmo depois de tantos séculos, continuamos tentando responder às mesmas perguntas.

E talvez seja justamente por isso que seus mitos nunca deixaram de ser contados.

sábado, setembro 12, 2026

Comunicação Não Violenta - CNV

Terminei a leitura de Comunicação Não Violenta (3ª edição publicada em 2015), de Marshall B. Rosenberg (1934-2015), motivado menos por curiosidade intelectual e mais por uma questão bastante prática: desenvolvimento profissional.

Ao longo da minha carreira, já recebi feedback de que, em algumas reuniões, minha forma de defender posições pode ser percebida como agressiva. Trabalho em um ambiente no qual há divergências, interesses diferentes, negociações e discussões técnicas, e sempre considerei natural defender com firmeza aquilo em que acredito. Mas existe uma diferença importante entre ser firme e fazer com que o outro se sinta atacado. Foi principalmente pensando nessa diferença que comecei a leitura.

Rosenberg constrói seu método de Comunicação Não Violenta (CNV) sobre quatro elementos: observação, sentimento, necessidade e pedido. A proposta, porém, é mais profunda do que simplesmente escolher palavras mais educadas.

Um dos pontos que mais me chamou a atenção foi a necessidade de distinguir fatos de julgamentos. Muitas vezes acreditamos que estamos apenas descrevendo uma situação quando, na realidade, já estamos fazendo uma interpretação sobre ela.

Há uma diferença enorme entre dizer: “Essa área nunca entrega o que combinamos.”

E dizer: “O material que havíamos combinado para sexta-feira foi entregue na terça-feira seguinte.”

No primeiro caso, existe julgamento. No segundo, existe um fato sobre o qual podemos conversar.

Parece algo simples, mas, em uma reunião tensa, essa distinção pode determinar se a conversa continuará tratando do problema ou se passará a tratar da defesa pessoal de cada participante.

Outro conceito que considero muito interessante é o de tentar compreender qual necessidade existe por trás de determinada posição.

Em um conflito profissional, alguém pode estar defendendo maior controle enquanto outra pessoa busca mais agilidade. Quando a discussão permanece apenas nas soluções propostas, temos dois lados tentando provar quem está certo. Quando conseguimos identificar o que cada lado está tentando proteger, o espaço de negociação aumenta.

Também gostei muito da ideia de que empatia não significa concordância.

É perfeitamente possível dizer: “Entendo sua preocupação.”

E, logo depois: “Mas continuo chegando a uma conclusão diferente.”

Talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores contribuições do livro para o ambiente profissional: aprender a compreender a posição do outro sem necessariamente abrir mão da própria.

Outro ensinamento que pretendo levar para o meu trabalho é substituir, sempre que possível, a reação imediata pela curiosidade.

Quando alguém questiona uma ideia em que acreditamos muito, nosso impulso costuma ser defender imediatamente nossa posição. Rosenberg sugere algo mais difícil: tentar compreender primeiro.

Isso não significa deixar de discordar. Significa apenas tentar compreender completamente antes de responder.

Apesar de considerar um bom livro e de pretender incorporar vários de seus princípios ao meu cotidiano profissional, também terminei a leitura com algumas ressalvas.

A principal delas é que não acredito que o modelo possa ser aplicado literalmente em todas as situações  especialmente considerando o contexto cultural e organizacional brasileiro.

A comunicação não acontece em um laboratório. Ela acontece dentro de culturas, organizações, hierarquias e relações construídas durante anos.

No ambiente profissional brasileiro, as relações costumam carregar uma combinação bastante particular de proximidade pessoal, informalidade, hierarquia, negociação, improvisação e leitura do contexto. Naturalmente, isso varia muito entre empresas, setores e pessoas, mas uma comunicação excessivamente estruturada segundo o modelo proposto por Rosenberg pode, em determinadas situações, soar pouco espontânea.

Imagino, por exemplo, uma reunião executiva na qual alguém diga literalmente:

“Quando observo que o relatório não foi entregue, sinto frustração porque minha necessidade de previsibilidade não foi atendida.”

A frase está perfeitamente alinhada ao método da CNV.

Mas dificilmente seria a forma mais natural de falar em muitos ambientes profissionais brasileiros.

Provavelmente seria mais eficaz dizer:

“Minha preocupação é com o prazo. Sem esses dados até quinta-feira, não conseguimos consolidar o material. O que precisamos ajustar para garantir a entrega?”

E acredito que essa seja a melhor maneira de aproveitar Rosenberg: não transformar a CNV em um roteiro, mas incorporar o raciocínio que existe por trás dela.

Também considero importante reconhecer que nem todo conflito nasce de um problema de comunicação. Existem conflitos verdadeiros de interesse, poder, recursos, prioridades e responsabilidade. Duas pessoas podem compreender perfeitamente as necessidades uma da outra e ainda assim continuar discordando. Uma comunicação melhor não elimina esses conflitos.

O que ela pode fazer é evitar que um conflito objetivo seja agravado por ataques pessoais, julgamentos desnecessários ou disputas de ego. Talvez essa seja, para mim, a principal contribuição do livro.

Não pretendo sair dessa leitura tentando ser alguém que evita conflitos ou que fala sempre de maneira excessivamente cuidadosa. Meu trabalho exige posicionamento, argumentação e, muitas vezes, discordância.

O aprendizado que quero levar é outro: continuar sendo firme no conteúdo, mas mais cuidadoso na forma como construo a conversa.

Quero observar melhor quando estou descrevendo um fato e quando já estou julgando alguém.

Quero fazer mais perguntas antes de apresentar uma objeção.

Quero tentar entender o que a outra pessoa está tentando proteger antes de concluir que ela simplesmente está dificultando uma decisão.

E talvez, principalmente, quero aprender a perceber quando minha convicção técnica começa a diminuir minha capacidade de escutar.

No final, acredito que o livro vale a leitura justamente quando não é tratada como uma fórmula.

Não considero realista aplicar integralmente o método de Rosenberg a toda conversa profissional, especialmente sem adaptá-lo ao contexto cultural, às relações existentes e ao ambiente em que a comunicação acontece.

Mas vários de seus princípios são extremamente úteis.

Se eu conseguir sair do livro interrompendo um pouco menos, perguntando um pouco mais, separando melhor fatos de julgamentos e conseguindo discordar sem transformar cada divergência em uma disputa pessoal, a leitura já terá cumprido seu papel.

quinta-feira, setembro 10, 2026

Samsung Galaxy Z Fold 8 Ultra


Durou pouco!

Em julho registrei aqui no blog a troca do meu Galaxy S23 Ultra pelo Galaxy S24. Naquela ocasião, a mudança não havia sido exatamente uma escolha minha. O S23 Ultra que eu utilizava, fornecido pelo Banco, teve a tela quebrada e foi substituído pelo S24, que é o modelo utilizado atualmente para o meu cargo.

Logo de cara eu já sabia que teria que me readaptar a uma tela menor. O Galaxy S24 possui uma tela de 6,2" e, desde o Galaxy S8+ em 2017, eu não utilizava um celular desse tamanho.

Tentei me acostumar.

Não consegui!

Depois de anos utilizando aparelhos grandes, principalmente o S23 Ultra, percebi que uma tela de 6,2" simplesmente não atendia mais ao que eu esperava de um celular no dia a dia. E foi justamente essa insatisfação que acabou me fazendo olhar novamente para uma categoria de aparelho que eu conheço muito bem: os dobráveis.

Cinco anos depois, estou de volta!

Comprei o Samsung Galaxy Z Fold 8 Ultra, meu segundo celular dobrável.

O primeiro foi justamente o Galaxy Z Fold 3, adquirido em outubro de 2021. Na época, fiquei extremamente empolgado com aquela nova categoria de aparelhos. Desde o anúncio do primeiro Galaxy Fold, em 2019, eu já acompanhava com curiosidade a proposta de carregar no bolso um celular que pudesse se transformar praticamente em um pequeno tablet.

Esperei até a terceira geração para entrar nesse mundo e, naquele momento, o Z Fold 3 foi provavelmente o celular mais diferente que eu havia utilizado até então.

Fiquei com ele por quase dois anos (23 meses).

A experiência foi muito boa no início, principalmente pela enorme tela interna. Com o tempo, porém, alguns aspectos começaram a incomodar. A tela externa era estreita demais e praticamente me obrigava a abrir o aparelho para quase tudo. O abre e fecha constante acabou ficando cansativo e, depois de algumas quedas, a dobradiça também sofreu danos e o aparelho deixou de abrir completamente plano.

Em agosto de 2023 resolvi abandonar os dobráveis e voltar para um celular convencional com o Galaxy S23 Ultra.

Naquela época achei que minha experiência com os Fold tinha terminado.

Só que cinco anos se passaram desde aquela terceira geração.

E cinco gerações de evolução tecnológica fizeram muita diferença.

O salto do Z Fold 3 para o Z Fold 8 Ultra é enorme. O aparelho está mais refinado, mais fino e passa uma sensação muito diferente daquela de produto ainda experimental que existia nas primeiras gerações.

Mas talvez o ponto que mais tenha me chamado a atenção seja justamente algo que sempre esteve no centro das discussões sobre celulares dobráveis: o vinco da tela interna.

No Fold 3 ele era claramente perceptível, tanto visualmente quanto ao passar o dedo pelo centro da tela. No Fold 8 Ultra a evolução é impressionante. O vinco continua existindo (afinal, a tela continua dobrando), mas ficou muito menos evidente. É uma daquelas diferenças que mostram claramente o quanto essa tecnologia amadureceu nesses cinco anos.

Outra curiosidade é a rapidez com que comprei esse aparelho após seu lançamento.

Quando comprei o Z Fold 3 em 2021, registrei aqui no blog que aquela havia sido a menor janela entre o lançamento mundial de um celular e a minha compra: 35 dias.

Cinco anos depois consegui diminuir esse recorde.

O Galaxy Z Fold 8 Ultra foi lançado em 7 de agosto de 2026 e estou comprando o aparelho apenas 34 dias depois do lançamento.

Um dia a menos!

Pode parecer uma estatística completamente inútil, mas este blog existe também para registrar exatamente esse tipo de coisa. Daqui a alguns anos vou gostar de voltar aqui e lembrar disso.

E há algo curioso nesse retorno aos dobráveis.

Em 2021 eu estava entrando em uma categoria nova, ainda tentando descobrir se aquele formato realmente fazia sentido para mim. Em 2026 estou voltando sabendo exatamente quais são as vantagens e as limitações desse tipo de aparelho.

Só que agora volto para uma tecnologia muito mais madura.

Depois de passar pelo Galaxy Z Fold 3, Galaxy S23 Ultra, outro Galaxy S23 Ultra e pelo breve Galaxy S24, chego agora ao Galaxy Z Fold 8 Ultra.

Meu segundo dobrável. Cinco gerações depois do primeiro.

E, pelo menos nas primeiras impressões, parece que finalmente estou utilizando aquela versão amadurecida do conceito que tanto me impressionou em 2021.

Agora vamos ver quanto tempo esse vai durar!