Publicado em 1981, Não Verás País Nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão (1936-), é uma daquelas obras que parecem envelhecer ao contrário. Quanto mais o tempo passa, mais perturbadora se torna sua leitura.
O romance nos apresenta Souza, um homem comum que vive em uma São Paulo sufocada pelo calor, pela escassez de água, pela poluição e por um regime autoritário que controla a circulação, a informação e até os pequenos hábitos cotidianos. A cidade já não é apenas um espaço degradado: tornou-se um ambiente quase incompatível com a própria vida.
Mas reduzir o livro a uma distopia ecológica seria pouco. Loyola Brandão utiliza o futuro para falar do Brasil de seu próprio tempo — um país que, no início da década de 1980, ainda carregava as marcas da ditadura militar, da censura, da concentração de poder e das promessas frustradas de modernização. Ao exagerar esses elementos, o autor constrói um mundo absurdo, mas reconhecível.
E é justamente aí que reside uma das maiores forças do romance.
O terror de Não Verás País Nenhum não nasce de grandes máquinas futuristas nem de tecnologias extraordinárias. Ele surge de coisas muito próximas: filas, calor, falta de água, burocracia, desigualdade, vigilância, indiferença e acomodação. O colapso acontece lentamente, até que aquilo que antes seria intolerável passa a ser aceito como parte da rotina.
Souza é um protagonista especialmente adequado para esse universo. Ele não é um herói revolucionário. É um homem cansado, inseguro e, durante boa parte da narrativa, resignado. Sua trajetória é justamente a de alguém que começa a perceber que a normalidade na qual vive talvez não seja normal.
Essa escolha torna o romance ainda mais inquietante.
A pergunta central deixa de ser apenas “como essa sociedade chegou a esse ponto?” e passa a ser também “quanto um indivíduo consegue suportar antes de perceber que algo precisa mudar?”.
Há, portanto, uma reflexão profunda sobre conformismo. O autor mostra como regimes autoritários e sociedades degradadas não dependem apenas da força. Dependem também do hábito, do medo, da desinformação e da capacidade humana de se adaptar até mesmo ao absurdo.
Outro aspecto impressionante é a dimensão ambiental da obra. Escrita há mais de quatro décadas, a narrativa apresenta calor extremo, destruição das áreas verdes, escassez de recursos naturais e uma cidade praticamente inviável do ponto de vista ecológico. Lida hoje, em meio às discussões sobre mudanças climáticas, crises hídricas e crescimento urbano desordenado, essa dimensão do romance ganha uma atualidade desconcertante.
Não significa que Loyola Brandão tenha “previsto o futuro”. Sua grande percepção foi compreender tendências já presentes na sociedade e levá-las às últimas consequências literárias.
Também é impossível ignorar a dimensão profundamente brasileira da obra. Embora seja possível aproximá-la de clássicos como 1984 e Admirável Mundo Novo, Não Verás País Nenhum possui identidade própria. Sua distopia nasce do calor, da burocracia, da desigualdade, da improvisação, da violência institucional e das contradições brasileiras.
O próprio título carrega essa sensação de desaparecimento. O país não deixa necessariamente de existir no mapa, mas parece perder sua identidade, sua memória e sua capacidade de imaginar outro futuro.
Talvez seja essa a ideia mais incômoda do romance: sociedades não desaparecem apenas quando são destruídas fisicamente. Elas também podem desaparecer quando seus habitantes deixam de reconhecer aquilo que perderam.
Ao terminar a leitura, talvez a pergunta mais perturbadora não seja se o futuro imaginado por Ignácio de Loyola Brandão poderia acontecer. É perceber quantas partes dele já conseguimos reconhecer ao nosso redor.
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