Desde 2010, este blog funciona como uma espécie de diário líquido: um espaço onde registro minha relação com algumas bebidas, sobretudo o café. Uma relação, diga-se, nada simples.
Já escrevi aqui, mais de uma vez, sobre minha convivência
conturbada com o café. Passei por diferentes métodos, máquinas e tentativas de
sofisticação, mas, como acontece com tantas coisas da infância, sempre acabei
retornando ao ponto de partida: café de pó simples, adoçado — antes com açúcar,
hoje mais frequentemente com adoçante. Atualmente, confesso sem pudor, a forma
que mais consumo café é a instantânea, misturada com leite. Os puristas que me
perdoem (ou não).
Em março de 2021, este blog registrou outra virada: a
descoberta do universo dos drinks. Tudo começou com a retomada do consumo de
whisky e, a partir dali, passei a experimentar coquetéis variados, seja
preparando em casa, seja degustando em restaurantes. Vieram novas garrafas,
acessórios e até um aplicativo dedicado ao preparo de drinks.
Curiosamente, naquele mesmo texto de 2021, deixei registrado
algo que hoje soa quase como uma profecia invertida: “Já tentei por diversas
vezes gostar de cerveja, mas essa bebida realmente não é pra mim. Nunca gostei
de tomar nenhuma cerveja ou chopp!”.
Corta para 2025, e uma nova relação com as bebidas se abriu
diante de mim — de um jeito totalmente inesperado.
O ponto de partida foi prosaico: a compra de uma cervejeira,
em outubro de 2024. A ideia era simples e funcional: utilizá-la em dias de
festa, evitando a eterna disputa por espaço na geladeira e no freezer, soluções
pouco eficientes para manter bebidas na temperatura ideal. Para não deixá-la
vazia, abasteci com refrigerantes para consumo cotidiano e cervejas pensadas,
inicialmente, apenas para as visitas.
Com o tempo, acabei tomando uma cerveja ou outra, mas ainda
sem grande entusiasmo. Mantinha-me fiel ao refrigerante. Nessa fase, passaram
pela cervejeira rótulos como Amstel e algumas da Eisenbahn, mais por
conveniência do que por interesse genuíno.
Tudo mudou em 19 de junho de 2025. Nesse dia, aproveitando
uma promoção de supermercado, comprei uma cerveja completamente diferente de
tudo o que já havia experimentado: a Hoegaarden Wit/Blanche, uma cerveja belga
de trigo. Ao provar, percebi algo novo — um sabor distante das tradicionais
cervejas brasileiras, leve, aromático e surpreendentemente agradável ao meu
paladar.
Pouco mais de um mês depois, em 26 de julho, durante um
jantar no restaurante Dona Lenha, deparei-me com uma carta de cervejas
artesanais. Pela primeira vez, troquei o drink habitual por uma cerveja: a
Poderator Doppelbock, da Cervejaria Quatro Poderes, de Brasília. O impacto foi
imediato. Havia ali sabores que eu jamais imaginei encontrar em uma cerveja.
Intrigado por essa diversidade recém-descoberta, comecei a
procurar algo semelhante no mercado. Foi assim que encontrei a Wienbier 53
Stout, degustada no dia 3 de agosto. Mais uma surpresa positiva — talvez ainda
melhor que a Doppelbock — o que me levou a compartilhar essas experiências com
meu irmão e alguns amigos.
Em meio a essas conversas, surgiu o nome quase mítico da
Guinness, apresentada como a “cerveja preta” mais tradicional. A marca já me
era familiar de nome, mas a realidade foi menos romântica: a importação estava
prejudicada e não encontrei nenhuma lata em Brasília. Restava a Amazon, onde o
preço girava em torno de R$ 33,00 a lata de 440 ml. Desanimei e segui
explorando outras cervejas escuras.
Foi nesse contexto que reencontrei a Caracu, conhecida de
nome, mas até então nunca explorada por mim. Comprei uma no dia 17 de agosto e
gostei tanto que logo adquiri dois fardos para manter na cervejeira. A
dificuldade em encontrá-la — disponível em apenas um atacadão entre vários
visitados — só aumentou seu valor simbólico. Em poucos dias, tornou-se minha
cerveja favorita, relegando as claras ao segundo plano.
Seguindo na trilha das Stouts — estilo que descobri ser
aquele que mais dialogava com meu paladar — fui, em 26 de agosto, ao pub
Santuário, na 214 Norte. Lá provei a Stout da casa, da cervejaria Dona Maria,
também de Brasília. Achei simplesmente excelente, superando inclusive a Caracu.
No dia seguinte, decidi que precisava experimentar a Guinness, custasse o que custasse. O acaso ajudou: a lata entrou em promoção na Amazon por R$ 29,90. Comprei três.
No dia 29 de agosto, provei pela primeira vez a Guinness Draught. Foi amor à primeira golada. O encaixe entre sabor, textura e aroma foi tão perfeito que não me lembro de ter sentido prazer semelhante com nenhuma outra bebida — alcoólica ou não. Fiquei genuinamente estupefato. A partir desse momento, mergulhei de vez no universo cervejeiro.
Outra grande surpresa aconteceu em São Paulo, durante uma viagem a trabalho. No dia 8 de outubro, experimentei o Chopp Black da Brahma e fui pego de surpresa ao perceber que ele conseguiu igualar o prazer que tive com a Guinness, ainda que partindo de uma proposta ligeiramente diferente — quase como parentes próximos que seguiram caminhos distintos.
Enquanto a Guinness é uma Dry Stout e o Chopp Black da Brahma se enquadra como uma Dark Lager, ambas compartilham características importantes: são cervejas escuras e utilizam nitrogênio na carbonatação, o que confere aquela textura macia e cremosa tão marcante. O sabor, naturalmente, não é idêntico, mas dialoga de forma evidente. O resultado foi imediato: o Chopp Black passou a figurar entre as minhas cervejas favoritas, lado a lado com a Guinness, com a vantagem de ser, ao menos em teoria, um pouco mais fácil de encontrar. Digo “em teoria” porque, na prática, ele está disponível em poucos estabelecimentos e nem sempre consta no cardápio, mesmo em bares tecnicamente preparados para servi-lo.
Além disso, passei a ler sobre estilos, processos e histórias; seguir
sommeliers e influenciadores; ouvir podcasts e experimentar novos rótulos.
Descobri também o Untappd, uma rede social dedicada a registrar cervejas
degustadas e gerar estatísticas — algo que conversa diretamente com meu gosto
por números e dados. Como meu cadastro foi feito apenas em 18 de dezembro,
precisei reconstruir retroativamente boa parte do consumo do ano. As
estatísticas de 2025, portanto, não são perfeitamente fidedignas, mas oferecem
um retrato bastante honesto desse período de descoberta.
Olhar para trás e reler essa trajetória é perceber como gostos não são estáticos, mas processos vivos, moldados pelo tempo, pelas circunstâncias e, às vezes, pelo acaso mais banal — como uma promoção de supermercado ou a compra despretensiosa de uma cervejeira.
Em 2025, mais do que
aprender a gostar de cerveja, aprendi a prestar atenção nas nuances, nos
estilos e nas histórias que cabem dentro de um copo. Este texto não é apenas
sobre bebidas; é sobre mudança, curiosidade e a alegria silenciosa de descobrir
que ainda há sabores capazes de nos surpreender, mesmo quando achamos que já
nos conhecemos bem.
Nenhum comentário:
Postar um comentário