quinta-feira, janeiro 01, 2026

Filmes e Séries Vistos em 2025


Em 2025 dediquei menos tempo aos filmes do que no ano anterior. Foram apenas 37 filmes assistidos ao longo do ano — um número significativamente menor do que os 103 registrados em 2024. Ainda assim, mesmo com uma redução na quantidade, o cinema continuou sendo uma das minhas formas preferidas de lazer e reflexão.

Os filmes vistos neste ano abrangeram produções lançadas em diferentes décadas. O mais antigo foi Cleópatra (1963), seguido por Patton (1970). Ao mesmo tempo, também assisti a obras recentes, incluindo produções de 2024 e até mesmo um lançamento de 2025 (Oficina do Diabo). Essa diversidade de épocas mostra como o cinema permite viajar por diferentes contextos históricos e estilos narrativos.

Ao longo do ano, assisti a 37 filmes, distribuídos por diversas décadas de lançamento, com uma presença relevante de produções mais recentes — especialmente de 2024, que respondeu por sete títulos.

A distribuição ao longo do ano também revela um padrão interessante. No primeiro semestre assisti 26 filmes, enquanto no segundo semestre foram apenas 11. Os meses mais intensos foram maio e junho, que concentraram boa parte das sessões.

No total, os filmes consumiram 77 horas, número bem inferior às 217 horas dedicadas ao cinema em 2024.

Filmes vistos por mês

Janeiro (3)
O Fascinante Mundo dos Corais; A Bruxa; Glass Onion: Um Mistério Knives Out
Fevereiro (2)
Avicii: Meu Nome é Tim; Meu Nome Não é Johnny
Março (1)
Um Lugar Silencioso: Dia Um
Abril (4)
El Camino: Um Filme de Breaking Bad; Conclave; Maus Momentos no Hotel Royale; Carandiru
Maio (8)
Crash: No Limite; Ainda Estou Aqui; Oficina do Diabo; A Caça; Jackie Brown; Druk: Mais uma Rodada; O Castelo no Céu; Patton
Junho (8)
Vidas ao Vento; Kagemusha; Operação França; Herege; Super Mario Bros; Cleópatra; Um Homem de Família; Pig
Julho (0)
Agosto (4)
Nosferatu; Quebrando a Banca; Saneamento Básico; Hotel Ruanda
Setembro (1)
Coach Carter
Outubro (2)
Meu Primo Vinny; Os Últimos Passos de um Homem
Novembro (4)
Borat; Temos Papa; Anora; 1984
Dezembro (0)

Embora o número de filmes tenha sido menor, o consumo de séries foi bastante expressivo. Ao longo do ano assisti 287 episódios, totalizando aproximadamente 230 horas. As séries que mais assisti no ano foram as seguintes.


Somando filmes e séries, 2025 teve 307 horas de conteúdo assistido, número inferior às 453 horas registradas em 2024.

Apesar da redução no tempo dedicado ao cinema em comparação com o ano anterior, 2025 ainda foi um ano marcado por boas experiências diante da tela. A diversidade de gêneros, épocas e estilos reafirma algo que sempre me chama atenção no cinema: sua capacidade de atravessar décadas e continuar dialogando com o presente.

Registrar esses números e títulos é também uma forma de preservar pequenas memórias do cotidiano. Cada filme assistido acaba associado a um momento específico do ano, a uma fase da vida ou a uma reflexão provocada pela história. No fim das contas, mais do que estatísticas, essa lista é um retrato cultural de um ano — um lembrete de que o tempo que passamos diante de boas histórias raramente é tempo perdido.


quarta-feira, dezembro 31, 2025

O Assunto do Céu


Para finalizar o ano, termino meu 54º livro. Este que me acompanhou desde o 1º dia de 2025.

O Assunto do Céu reúne ensaios e reflexões para serem lidos um por dia em que C.S.Lewis (1898-1963) enfrenta um problema recorrente da modernidade: a redução do real ao que pode ser medido. Para ele, o erro não está na ciência (que ele respeita profundamente), mas na pretensão de que o método científico esgote tudo o que existe. Lewis chama atenção para algo simples e incômodo: conhecer as causas físicas de um fenômeno não equivale a compreender seu significado. Explicar como o cérebro funciona não explica por que buscamos a verdade; descrever reações químicas não esgota o que é amar, sofrer ou esperar.

O grande mérito do livro está no estilo argumentativo. Lewis não grita, não caricatura o adversário e não se apoia em jargões teológicos. Ele raciocina como um professor paciente que conduz o leitor por analogias, paradoxos e exemplos cotidianos. Sua crítica ao materialismo é mais filosófica do que religiosa: se tudo o que pensamos é apenas produto de causas irracionais (choques químicos, impulsos evolutivos), então a própria ideia de verdade se dissolve. O pensamento deixa de ser confiável no exato momento em que tentamos usá-lo para negar qualquer transcendência.

Ao mesmo tempo, Lewis não oferece consolo fácil. O “céu” que ele descreve não é uma projeção sentimental nem uma recompensa simplista. Pelo contrário: ele insiste que o desejo humano pelo infinito é, em si, um sinal de que não fomos feitos apenas para este mundo. Aqui aparece um dos temas mais fortes do livro: a ideia de que nossos anseios mais profundos não são ilusões, mas indícios. Assim como a fome aponta para a existência de comida, o desejo de algo absoluto aponta para uma realidade que não cabe inteiramente na experiência terrena.

Ele não resolve o mistério do sentido da vida, mas recusa a ideia de que o mistério seja um defeito a ser eliminado. Lewis sugere algo mais ousado: talvez o mistério seja o traço mais fiel da realidade.

segunda-feira, dezembro 29, 2025

Dom Quixote


Depois de 41 dias, finalizo meu 53º livro do ano!

Ler Dom Quixote foi uma experiência curiosa: comecei achando que estava diante de uma paródia dos romances de cavalaria e terminei com a sensação de ter acompanhado um tratado melancólico sobre a condição humana, disfarçado de comédia. Miguel de Cervantes (1547-1616) ri, mas é um riso que, aos poucos, aprende a doer.

No Livro I (1605), o romance é uma sátira direta. Dom Quixote é um homem que enlouqueceu de tanto ler, e sua loucura tem uma forma precisa: ele tenta impor à realidade um código moral e narrativo que já não funciona. O mundo reage com escárnio, violência e pragmatismo brutal. Aqui, Cervantes desmonta os romances de cavalaria expondo seu artificialismo: gigantes são moinhos, castelos são vendas, princesas são camponesas. Sancho Pança, ainda rústico e interesseiro, funciona como contrapeso: o senso comum tentando sobreviver à fantasia.

Dom Quixote não é apenas ridículo; ele é eticamente superior ao mundo que o cerca. Sua loucura tem método: honra, justiça, proteção dos fracos. O problema não é o ideal, mas o descompasso histórico.

No Livro II (1615), o jogo se torna mais sofisticado e mais cruel. Os personagens já leram o Livro I. Dom Quixote virou personagem famoso dentro do próprio romance. A loucura deixa de ser espontânea e passa a ser encenada pelos outros. Duques, cortesãos e leitores dentro da narrativa manipulam Dom Quixote para rir dele. O cavaleiro já não cai em enganos por ingenuidade: ele é colocado em armadilhas conscientes.

Sancho Pança, por sua vez, cresce enormemente. Sua passagem pelo governo da “ilha” é um dos momentos mais interessantes do romance: o analfabeto governa com prudência, senso de justiça e equilíbrio moral. Sancho aprende; Dom Quixote, não.

Ao final a recuperação da lucidez de Dom Quixote não é uma vitória da razão, mas uma derrota da imaginação. Ao abandonar seus livros e morrer como Alonso Quijano, ele vence a loucura, mas perde o sentido.

No fim, Cervantes não zomba de Dom Quixote. Ele o lamenta. E, discretamente, nos pergunta se não somos todos um pouco quixotescos: leitores tentando impor sentido a um mundo que insiste em ser sem graça, quando tudo o que queremos é que ele seja épico, ao menos por um instante.

quarta-feira, novembro 19, 2025

O Romance de Amadis

O Romance de Amadis, publicado em1922 por Afonso Lopes Vieira (1878-1946), é uma daquelas obras em que o autor português decide brincar dentro de um castelo literário já existente, o lendário ciclo de Amadis de Gaula, que tem origem no século XIV na península ibérica. Ele reorganiza, reconta e reinterpreta esse imaginário cavaleiresco medieval com uma sensibilidade moderna.

A leitura deixa claro que Vieira não está preocupado em fazer arqueologia fiel do texto medieval. Ele assume a liberdade de poeta: estiliza, condensa e escolhe ênfases que dialogam muito mais com a sensibilidade do início do século XX do que com o medievalismo literal. O livro funciona quase como uma transfiguração lírica do mito de Amadis, trazendo para o primeiro plano aquilo que o autor julga essencial: a força do amor, a pureza do ideal heroico e a aura lendária que envolve o cavaleiro perfeito.

O efeito disso é curioso. Em vez de mergulharmos numa narrativa épica cheia de eventos, somos conduzidos por um clima emocional. Para leitores que buscam ação contínua, o livro pode soar distante, quase contemplativo demais. Para quem aprecia reelaborações poéticas e o jogo de recriar tradições, a obra ganha um brilho especial.

Escolhi essa leitura para preparar-me para adentrar em um dos maiores clássicos da literatura mundial que é Dom Quixote. O romance de Cervantes nasce justamente da colisão entre o ideal cavaleiresco empoeirado e a realidade corriqueira. Vieira, ao contrário de Cervantes, “leva a sério” o mito. Essa leitura combinada criará um contraste interessante: primeiro verei o mito enfeitado; depois verei Cervantes desmontar o mecanismo.

domingo, novembro 16, 2025

Capitães da Areia

Dessa vez quis relembrar se a memória afetiva que eu tinha na adolescência desse clássico brasileiro se manteria agora adulto.

Posso dizer que 30 anos depois de ter lido Capitães da Areia pela 1ª vez o encanto que essa obra traz permanece o mesmo! Jorge Amado (1912-2001) lança sobre seus moleques de rua um olhar que mistura ternura, fúria e um senso de absurdo diante de um mundo que fabrica seus próprios “inimigos”.

O romance funciona como um grande estudo de laboratório social, só que o laboratório é a própria cidade de Salvador, e os ratos de experimento são crianças vivas, vibrantes, muitas vezes ferozes, moldadas por um ambiente que lhes oferece pouco além de fome, violência policial e abandono. Amado não está interessado em fazer panfleto barato; ele faz algo mais complexo: expõe a estrutura que produz a marginalidade e, ao mesmo tempo, dá rosto, nome e poesia a quem costuma ser reduzido a estatística.

A narrativa acompanha Pedro Bala, Professor, Dora, João Grande e o bando que vive no trapiche, e a força do livro está no contraste entre a vida crua que eles levam (pequenos furtos, correrias, romances precários e amizades frágeis) e a profundidade existencial com que Amado os trata.

Cada personagem é quase um arquétipo móvel: Dora encarna o afeto impossível, Professor representa a imaginação que resiste ao real, Pedro Bala é a força política embrionária que um sistema injusto costuma ignorar até que tarde demais. A prosa de Amado, exuberante e cheia de movimentos, injeta dignidade literária naquilo que muita gente preferiria varrer para debaixo do tapete.

O romance não nos entrega uma solução, nem pretende. Prefere mostrar a metamorfose inevitável: do menino abandonado nasce o futuro líder sindical; do sonho nasce a tragédia; do afeto nasce uma cicatriz. Esse ciclo é o verdadeiro protagonista da obra. Quem lê sai com a incômoda impressão de que a sociedade brasileira continua, de certa forma, repetindo o experimento.

quinta-feira, novembro 13, 2025

Lana: 14 anos de companhia, alegria e histórias que ficam

Foram 14 anos e 2 meses de convivência conosco. Sabíamos que esse dia chegaria, mas nada nos prepara de verdade: hoje, a nossa Lana se foi.

Ela entrou em nossas vidas com 69 dias de idade, no dia 18/09/2011. Viveu momentos inteiros conosco, especialmente com minha esposa, que cuidou dela praticamente sozinha por quase dois anos, antes mesmo de nos casarmos.

A Lana colecionou histórias. Foi roubada e recuperada. Quase morreu por uma superdosagem de medicamento. Teve o episódio surreal de cruzar com um cachorro que estava preso na coleira. Morou na obra da nossa casa. Fugiu pelo condomínio. E, acima de tudo, fez aquilo que mais amava nesta vida: pedir comida e dormir.


Nos últimos anos, ela já dava sinais da idade: catarata em um dos olhos, o início da coprofagia — que, felizmente, só apareceu na velhice — e uma falta de ar persistente nos últimos meses. Mesmo assim, era a mesma presença doce, inquieta e barulhenta de sempre.

Hoje, ela faleceu no momento em que cheguei do trabalho, por volta das 19h. Entrei com as compras, chamei minha esposa para ajudar e, como de costume, os cachorros começaram aquela festa de latidos. Foram me recepcionar na porta do corredor, como faziam todos os dias. Nesse instante, a emoção foi demais para ela, e a Lana teve um ataque cardíaco. Ainda estava quente e molinha quando a peguei no colo. Tirei sua última foto já sem vida, para guardar o registro da despedida.

Sempre disse aos amigos que perderam seus cães e prometeram nunca mais ter outro por medo da dor: Toda a alegria desses 14 anos supera em muito a tristeza deste momento. Não há arrependimento algum. Ter a Lana conosco por tanto tempo foi um privilégio que guardaremos para sempre.

Este texto é uma forma de preservar o que a Lana significou para nós. Ela fez parte da formação da nossa família, acompanhou mudanças, obras, rotinas, alegrias e tropeços. Deixou silêncio pela casa, mas deixou também uma coleção enorme de lembranças boas — e é nelas que escolhemos ficar.

domingo, novembro 09, 2025

O Senhor do Mundo


E vamos para o 50⁰ livro lido do ano!

Robert Hugh Benson (1871-1914), ex-sacerdote anglicano convertido ao catolicismo, publicou em 1907 O Senhor do Mundo em um contexto de transformações radicais: o avanço da ciência, o secularismo crescente e o enfraquecimento da fé no Ocidente. A partir disso, ele constrói uma distopia espiritual em que o progresso tecnológico e o humanitarismo político substituem Deus e o resultado é um mundo aparentemente pacífico, mas espiritualmente desolado.

A trama se passa em um futuro onde o catolicismo foi quase erradicado, as religiões tradicionais foram dissolvidas em uma espécie de espiritualismo universal e o Estado mundial, liderado pelo carismático Julian Felsenburgh, governa com base em um culto à paz e à unidade. Felsenburgh é apresentado como um “messias humanista”, aclamado por unir os povos, mas cuja autoridade esconde uma tirania totalitária e anticristã. No polo oposto está o padre Percy Franklin, figura que encarna a resistência espiritual da Igreja diante da apostasia global.

Benson critica a tendência moderna de substituir a transcendência por uma fé no progresso humano. O “humanitarismo” que domina o mundo do romance é, no fundo, uma nova religião política — sem Deus, mas com liturgia, culto e dogmas. O catolicismo, aqui reduzido a um pequeno rebanho subterrâneo, é a última voz que ainda reconhece a existência do mal.

O Senhor do Mundo impressiona pela visão profética. Ao prever um mundo globalizado, governado por um consenso moral relativista e sustentado por uma fé na ciência e na paz universal, Benson antecipou dilemas éticos e espirituais ainda muito atuais. O autor enxerga com clareza o perigo de um mundo que rejeita o transcendente e acerta ao intuir que a negação de Deus não leva à liberdade, mas a novas formas de idolatria.

Mais do que um romance, O Senhor do Mundo é um alerta. Escrito no início do século XX, ele antecipa de modo surpreendente a uniformização cultural, o culto à ciência e a substituição da fé por ideologias políticas. Ao final, Benson deixa claro que o verdadeiro conflito do futuro não será entre nações, mas entre visões de homem: o homem que se faz deus e o homem que se ajoelha diante de Deus.

terça-feira, outubro 28, 2025

A Hora da Estrela


Clarice Lispector (1920-1977) menos de dois meses antes de sua morte, publica em 26/10/1977, A Hora da Estrela uma das obras mais emblemáticas que já li até hoje! O livro combina uma simplicidade narrativa com uma profundidade filosófica para retratar o drama existencial de Macabéa, uma jovem nordestina perdida na miséria e na invisibilidade social do Rio de Janeiro.

A narrativa é conduzida por Rodrigo S. M., um narrador-escritor que se coloca como intermediário entre Clarice e a personagem. Ele tenta “dar voz” a Macabéa, mas ao mesmo tempo revela sua própria angústia e impotência diante da tarefa de representar alguém tão insignificante aos olhos da sociedade.

Macabéa é uma datilógrafa pobre, órfã, sem beleza, sem instrução e sem consciência de si. Vive num quarto alugado, alimenta-se mal e sonha com banalidades (ouvir rádio, tomar Coca-Cola, casar-se com o rude Olímpico). Sua vida parece sem enredo até o momento final, quando uma cartomante lhe promete um futuro brilhante — promessa interrompida por sua morte súbita, atropelada por um carro.

Clarice utiliza a história de Macabéa para discutir a exclusão social, a solidão e o sentido da existência. A obra é uma crítica à sociedade moderna que reduz o ser humano a números e funções, apagando sua individualidade.

A escrita de Clarice é fragmentada, introspectiva e filosófica. O texto rompe com a linearidade tradicional, misturando narrativa, confissão e ensaio.

Macabéa, com sua ignorância e pureza, torna-se símbolo do ser humano reduzido à condição de “ninguém”, mas também de uma inocência quase sagrada. Sua “hora da estrela” — o instante da morte — é paradoxalmente o momento em que ela finalmente é notada, ainda que pela tragédia.

O livro convida o leitor a encarar o outro com um olhar de compaixão e desconforto, lembrando que, mesmo nas vidas mais apagadas, há uma centelha de humanidade e de mistério.

sexta-feira, outubro 24, 2025

Como Ser Cristão


Como ser Cristão, publicado em 2018, reúne uma seleção de ensaios, cartas e artigos de C.S. Lewis (1898-1953), editados postumamente, com o objetivo de oferecer “os melhores insights de Lewis sobre a prática cristã e sua expressão no dia-a-dia”.

O autor trabalha algumas ideias como a definição de “ser cristão” não ser apenas uma afiliação ou crença, mas como um modo de viver, trazendo a importância da humildade, do perdão, da caridade e da renúncia de si mesmo.

Mesmo sendo fragmentário, o livro chama atenção para a coerência entre fé e prática, algo que muitos cristãos consideram difícil hoje. Por exemplo, o capítulo sobre perdão como prática necessária é muito simples de entender, mas é desafiador de se colocar em prática.

O livro oferece percepções valiosas sobre como a fé pode alimentar não só a vida pessoal, mas também a justiça e o serviço ao próximo.

Temos aqui uma boa porta de entrada rica e honesta para a vida cristã: leve o suficiente para não sobrecarregar, profundo o bastante para provocar.

domingo, outubro 19, 2025

O Pai Goriot

Publicado em 1835, O Pai Goriot é uma das obras mais emblemáticas de Honoré de Balzac (1799-1850) e peça central do vasto ciclo A Comédia Humana, projeto literário monumental que buscava retratar a sociedade francesa em toda a sua complexidade moral, social e econômica.

A narrativa se passa em Paris, por volta de 1819, e tem como cenário principal a pensão Vauquer, um microcosmo social onde convivem personagens de diferentes origens e ambições. É ali que se cruzam as trajetórias de Rastignac, um jovem estudante de Direito ambicioso e idealista, e de Goriot, um velho comerciante que se arruinou financeiramente para sustentar suas duas filhas ingratas, Anastacia e Delphine.

O drama central do romance é o amor paterno absoluto e trágico de Goriot, que sacrifica tudo — dinheiro, dignidade e saúde — por filhas que, uma vez casadas e inseridas na alta sociedade, passam a desprezá-lo. Balzac transforma essa relação em uma poderosa alegoria do egoísmo e da corrupção moral da burguesia parisiense, onde o dinheiro se torna o verdadeiro mediador de todas as relações humanas.

Balzac combina realismo minucioso e observação social precisa, descrevendo ambientes, vestimentas e gestos com riqueza de detalhes quase científica.

O romance é considerado o “Rei Lear burguês”, pela semelhança com a tragédia de Shakespeare — um pai dilacerado pelo amor desmedido a filhas ingratas —, mas transposto para o contexto da ascensão burguesa e da luta por status no século XIX. Só que Goriot não tem a sua Cordélia para amenizar a tragédia que se abate sobre si.

A força do romance está tanto no retrato psicológico profundo de Goriot quanto na precisão sociológica da crítica balzaquiana. O leitor, ao final, é confrontado com uma pergunta perturbadora: qual o preço da ascensão social em uma sociedade movida pelo dinheiro?

sábado, outubro 18, 2025

Nintendo Switch 2

 


Não tem jeito! Nintendo é meu fraco!! Se passaram apenas 4 meses após o lançamento do novo console da Nintendo e hoje chega o Nintendo Switch 2 à minha casa.

Na época do lançamento do Switch 1 eu comprei ele com 5 meses de mercado e agora refaço o mesmo caminho que fiz com a 1ª versão desse maravilhoso console.

Comprei o Switch 1 em agosto/2017 e foram oito ótimos anos que ele me serviu bem e, com certeza, o console que mais joguei nesses anos, mesmo tendo o PS5 e o XONE em casa.

Com a chegada do Switch 2 em casa, pela primeira vez em anos, irei me desfazer de um console, pois não faz sentido manter o Switch 1, sendo que este novo console é totalmente retrocompatível com os jogos antigos.

Consegui comprar até num preço bom, um pouco abaixo do preço que está sendo praticado no mercado (paguei R$ 3.554,00).

Já pude jogar um pouco e realmente a diferença é muito grande comparado com a versão 1. A tela é maior, o som é melhor, o encaixe dos controles foi melhorado, ou seja, Nintendo fazendo a evolução natural de um console que fez história na empresa!

Mantenho os 33 consoles na coleção.

CONSOLES DE MESA (25):

  • Nintendo: NES, Super Nintendo, Nintendo 64, Game Cube, Wii, Wii U e Switch 2
  • Sega: Master System; Mega Drive, Sega CD, Saturn e Dreamcast;
  • Sony: PS1, PS2, PS3, PS4 e PS5
  • Microsoft: Xbox; Xbox 360, Xbox One S, Xbox Series X;
  • Outros: Odyssey2, Atari 2600, Ouya e Neo Geo CD.

CONSOLES PORTÁTEIS (8):

  • Nintendo: Game Boy, Game Boy Color, Game Boy Advance SP, DS e New 3DS XL.
  • Sony: PSP e PS Vita;
  • GamePad Digital: GPD XD


sexta-feira, outubro 10, 2025

O Livro das Maravilhas


 Publicada em 1912, O Livro das Maravilhas reúne catorze contos curtos acompanhados das ilustrações de Sidney Sime, que dialogam com o texto. Esse é um caso raro, onde as ilustrações nasceram primeiro e o autor escreveu a história imaginando os acontecimentos de cada imagem. O autor, Lord Dunsany (1878-1957), foi um dos pioneiros da literatura fantástica moderna. Ele influenciou profundamente autores como H. P. Lovecraft, J. R. R. Tolkien e Neil Gaiman. 

Portanto, cada conto apresenta um mundo imaginário autônomo, frequentemente habitado por deuses menores, aventureiros, ladrões e viajantes que desafiam os limites do real. Alguns exemplos: 

  • A Busca pelas Lágrimas da Rainha onde um herói tenta provocar emoção numa rainha incapaz de chorar.
  • Chu-Bu e Sheemish onde dois deuses rivais disputam a devoção dos fiéis. 
  • A Coroação do Sr. Thomas Shap onde um homem comum é coroado rei num mundo paralelo. 

Dunsany convida o leitor a sair do mundo racional e penetrar num universo onde o mistério é sagrado. 

Ele escreve com solenidade e lirismo, aproximando a prosa da linguagem dos contos de fadas e das epopeias clássicas.

Cada conto parece uma pequena lenda oral, narrada com simplicidade e reverência, mas impregnada de ironia e humor sutil. 

O Livro das Maravilhas é uma coletânea essencial para compreender as origens da fantasia literária moderna. Mais do que histórias isoladas, é uma ode à imaginação e ao poder do mito num mundo cada vez mais descrente da magia.

segunda-feira, outubro 06, 2025

O Alienista


Continuando no mundo Machadiano, temos aqui O Alienista (1882), uma novela que combina humor, ironia e filosofia para discutir os limites da razão, da loucura e do poder. 

A narrativa gira em torno do médico Simão Bacamarte, um renomado cientista que decide se dedicar ao estudo da mente humana. De volta à sua cidade natal, Itaguaí/RJ, ele funda a Casa Verde, um hospício destinado a abrigar os “loucos” da região. 

Com o passar do tempo, Bacamarte começa a internar praticamente todos os habitantes da cidade (políticos, religiosos, esposas, vizinhos) sob os mais variados pretextos. A cidade entra em caos, revoltas populares e crises políticas eclodem, mas o médico segue firme em sua “missão científica”. 

Em um desfecho surpreendente, Bacamarte decide que, talvez, os verdadeiramente loucos sejam os equilibrados demais e acaba internando a si próprio. 

Flertando entre a loucura e a razão, Machado coloca em xeque o que realmente significa ser “são”. A busca obsessiva de Bacamarte pela racionalidade absoluta o leva à própria loucura, expondo o perigo do excesso de razão. 

Além disso, as revoltas em Itaguaí revelam uma sociedade guiada por interesses pessoais e vaidades, não por princípios. Machado, com humor ácido, mostra como o poder e o prestígio corrompem tanto o cientista quanto os governantes. 

Temos em O Alienista uma alegoria universal sobre o poder, a ciência e a insanidade humana. A obra continua atual, pois questiona a racionalidade que governa as instituições e a tênue linha entre sanidade e loucura.

domingo, outubro 05, 2025

Dom Casmurro


Finalmente me adentrei numa das obras mais importantes da nossa literatura! Publicado em 1899, Dom Casmurro é uma das obras mais emblemáticas da literatura brasileira e um dos ápices do realismo machadiano. Narrado em primeira pessoa por Bento Santiago, o romance é uma reconstrução de memórias que buscam “atar as duas pontas da vida”, relembrando sua juventude, o amor por Capitu e o suposto adultério que teria destruído sua felicidade. 

A escrita de Machado de Assis (1839-1908) é marcada pela ironia, ambiguidade e introspecção psicológica. O narrador tenta justificar ao leitor o porquê de seu isolamento e melancolia. No entanto, à medida que a narrativa avança, percebe-se que Bento é um narrador pouco confiável, conduzindo o leitor por um labirinto de dúvidas.

A célebre suspeita sobre a fidelidade de Capitu — “olhos de cigana oblíqua e dissimulada” — nunca é confirmada nem desmentida, o que transforma o romance em um estudo sobre o ciúme, a insegurança e o poder da subjetividade. 

Dom Casmurro é um retrato atemporal da condição humana, de nossas incertezas, ilusões e autossabotagens. O romance se mantém atual por sua profundidade psicológica e por deixar ao leitor a tarefa de decidir se Capitu foi, de fato, culpada — ou se tudo não passou de uma tragédia inventada por um homem que amou mal. 

Ao final da história eu cheguei na minha opinião sobre a Capitu o que pode ser totalmente diferente da sua e ambos estaremos certos. Só por isso ja poderia considerar esse o melhor romance que já li na vida e ainda ter o orgulho de ser uma história genuinamente brasileira.

domingo, setembro 28, 2025

Ana Terra


Ana Terra, publicado originalmente em 1949 como parte da trilogia O Tempo e o Vento, narra a trajetória da personagem-título, uma mulher marcada pela dureza da vida nos pampas gaúchos do século XVIII, período de colonização e conflitos fronteiriços no sul do Brasil. 

A protagonista é retratada como símbolo da resistência e da luta feminina diante de uma realidade social e cultural hostil. Ana vive em um ambiente patriarcal, onde a mulher é destinada à submissão, mas sua força e determinação a transformam em figura de ruptura. Seu relacionamento com Pedro Missioneiro, de origem indígena, e a gravidez decorrente dele representam não apenas um conflito moral e familiar, mas também um choque cultural que expõe tensões entre preconceito, tradição e afetividade. 

Érico Veríssimo (1905-1975), com sua escrita fluida, não se limita a contar a saga de uma família; ele capta a construção da identidade do povo gaúcho. Ana Terra evidencia como a violência, a religiosidade e a luta pela terra moldaram o caráter de uma sociedade. Esse pequeno capítulo da trilogia original atiçou a vontade de ler toda a obra, algo que farei no futuro próximo. 

Enfim! Ana Terra é um livro que ultrapassa o regionalismo: é um retrato da condição humana diante da adversidade. A narrativa valoriza a coragem individual como alicerce da coletividade e reafirma o papel da mulher como protagonista silenciosa da história.

quarta-feira, setembro 24, 2025

Progresso na Vida Espiritual


Publicado em 1854, Progresso na Vida Espiritual do teólogo inglês Frederick Faber (1814-1863), que se converteu do anglicanismo ao catolicismo, é um tratado de espiritualidade católica que busca orientar o fiel no caminho de santificação progressiva. A obra se estrutura como um guia prático e meditativo, no qual o autor expõe, em linguagem profundamente devocional, as etapas do crescimento interior e da união com Deus. 

O ponto forte do livro está em sua combinação de clareza pastoral e densidade teológica. Faber não se limita a descrições abstratas da vida espiritual; ele propõe conselhos concretos para a prática da oração, da mortificação, da caridade e da confiança em Deus, com ênfase na ação da graça divina, sem anular a responsabilidade humana. 

O convite de Faber à perseverança, ao autoconhecimento espiritual e à busca sincera da santidade ressoa até hoje, mesmo para um livro escrito dois sefulos atras. Pontos que ele trazia à época que o inglês deveria tomar cuidado para não sair do caminho santificante, ressoa hoje como se tivéssemos feito o caminho contrário.

sexta-feira, setembro 12, 2025

A Arte de Viver


O Encheiridion, conhecido em português como A Arte de Viver, é um manual conciso do estoicismo elaborado a partir dos ensinamentos de Epiteto (50-138), compilados por seu discípulo Arriano. Ao contrário de tratados extensos, a obra tem caráter prático e direto: é menos um exercício especulativo e mais um guia de conduta para a vida cotidiana.

A mensagem central é a distinção entre o que está sob nosso controle (opiniões, desejos, escolhas) e o que não está (riqueza, saúde, reputação, morte). Epiteto insiste que a verdadeira liberdade e tranquilidade surgem ao concentrar-se apenas naquilo que depende de nós, aceitando o resto com serenidade. Essa postura torna-se um antídoto contra as perturbações e ansiedades que nascem do apego às circunstâncias externas.

A obra se destaca pela clareza e força moral de suas sentenças, mas também revela limitações. Sua ênfase na resignação pode parecer excessiva ou pouco prática em contextos sociais e políticos em que a ação coletiva é necessária para a justiça. Além disso, o foco na autossuficiência interior, embora libertador, pode soar individualista, relativizando a importância de vínculos comunitários ou afetivos, contrários aos ensinamentos cristãos. 

Ainda assim, sua relevância permanece viva: em um mundo marcado pela instabilidade, o chamado de Epiteto à disciplina interior, à aceitação lúcida e à liberdade espiritual continua atual. O livro não é apenas uma introdução ao estoicismo, mas uma provocação a repensarmos o que realmente controlamos em nossas vidas e o que nos aprisiona em falsas expectativas.

quinta-feira, setembro 11, 2025

História da Igreja: Marcas da presença de Cristo no Mundo


O livro História da Igreja: Marcas da presença de Cristo no Mundo, da historiadora italiana Angela Pellicciari (1948-), é uma introdução acessível e envolvente aos mais de dois mil anos de trajetória da Igreja Católica. Com linguagem clara, a autora apresenta os grandes marcos, crises, santos e concílios que moldaram a fé cristã, sempre ressaltando o testemunho espiritual que acompanha a história.

Um dos pontos fortes da obra é justamente este: mostrar que a Igreja não é apenas uma instituição, mas também uma comunidade viva, marcada pela ação de Cristo ao longo do tempo. Além disso, o livro não esconde momentos de perseguição, divisões internas e crises morais.

Há certa seletividade temática: a narrativa foca mais na experiência europeia e institucional, deixando em segundo plano perspectivas de comunidades periféricas, mulheres ou povos não ocidentais. Mas por ser um livro de 320 páginas, a autora teve que fazer várias concessões e essa foi uma delas.

Ainda assim, trata-se de uma leitura recomendada para católicos que desejam fortalecer sua compreensão da fé e da tradição.

terça-feira, setembro 02, 2025

A Hora e a Vez de Augusto Matraga


O conto A hora e vez de Augusto Matraga, publicado originalmente em Sagarana (1946), condensa, em poucas páginas, a violência, a redenção, a religiosidade e a tensão entre o destino e a liberdade humana. 

A narrativa acompanha Augusto Esteves, conhecido como Nhô Augusto, fazendeiro prepotente, mulherengo e violento que, após ser traído e espancado por inimigos, é dado como morto. Salvo por um casal de negros pobres, ele inicia uma trajetória de isolamento, penitência e conversão religiosa. Ao longo dos anos, vivendo em penitência e disciplina, tenta se preparar para “sua hora e vez” — o momento de provar seu valor espiritual. 

Guimarães Rosa (1908-1967) utiliza a linguagem sertaneja, rica em oralidade, arcaísmos e expressões regionais, para dar autenticidade e, ao mesmo tempo, transcendência à narrativa. O sertão aqui é mais do que cenário: é espaço simbólico onde se dão as lutas da alma humana. 

O aspecto mais poderoso da obra é a construção da figura de Nhô Augusto como um anti-herói que se torna mártir. Se no início é um homem bruto, entregue à violência e aos vícios, sua queda o leva a um processo de purificação interior que culmina em um gesto de sacrifício. 

A hora e vez de Augusto Matraga é mais que um conto regionalista: é uma narrativa sobre a possibilidade de transformação e transcendência.

segunda-feira, setembro 01, 2025

Ivanhoe


Publicado em 1819, Ivanhoe é um dos romances históricos mais célebres de Walter Scott (1771-1832) e um marco na consolidação do gênero. A obra transporta o leitor para a Inglaterra do século XII, período turbulento em que normandos e saxões disputavam poder após a conquista normanda. Nesse cenário, Scott constrói uma trama em que se misturam cavalaria, amor, intrigas políticas e o espírito medieval. 

O protagonista, Wilfred de Ivanhoe, é um cavaleiro saxão leal ao rei Ricardo Coração de Leão. Deserdado pelo pai por amar Lady Rowena, Ivanhoe retorna disfarçado, revelando sua identidade apenas em torneios e batalhas decisivas. Uma das personagens mais interessantes é Rebecca, uma jovem judia que se torna símbolo de dignidade e resistência em meio ao preconceito medieval. 

Do ponto de vista literário, Ivanhoe combina rigor histórico e imaginação romântica. Scott reconstrói costumes, hierarquias feudais, códigos de cavalaria e tensões étnicas. 

Um dos pontos mais fortes do romance é a crítica velada às injustiças sociais, especialmente no tratamento dado aos judeus. Rebecca é construída como uma das personagens mais nobres e virtuosas do livro, em contraste com cavaleiros cristãos muitas vezes cruéis e interesseiros. 

Ivanhoe permanece como um clássico não apenas pela aventura e pelo pano de fundo histórico, mas pela forma como problematiza identidade nacional, preconceito e a tensão entre ideal e realidade. Walter Scott inaugurou, com esse romance, uma maneira de enxergar a história através da ficção, influenciando profundamente escritores posteriores e moldando o imaginário medieval que ainda ressoa na cultura popular contemporânea.