sábado, setembro 12, 2026

Comunicação Não Violenta - CNV

Terminei a leitura de Comunicação Não Violenta (3ª edição publicada em 2015), de Marshall B. Rosenberg (1934-2015), motivado menos por curiosidade intelectual e mais por uma questão bastante prática: desenvolvimento profissional.

Ao longo da minha carreira, já recebi feedback de que, em algumas reuniões, minha forma de defender posições pode ser percebida como agressiva. Trabalho em um ambiente no qual há divergências, interesses diferentes, negociações e discussões técnicas, e sempre considerei natural defender com firmeza aquilo em que acredito. Mas existe uma diferença importante entre ser firme e fazer com que o outro se sinta atacado. Foi principalmente pensando nessa diferença que comecei a leitura.

Rosenberg constrói seu método de Comunicação Não Violenta (CNV) sobre quatro elementos: observação, sentimento, necessidade e pedido. A proposta, porém, é mais profunda do que simplesmente escolher palavras mais educadas.

Um dos pontos que mais me chamou a atenção foi a necessidade de distinguir fatos de julgamentos. Muitas vezes acreditamos que estamos apenas descrevendo uma situação quando, na realidade, já estamos fazendo uma interpretação sobre ela.

Há uma diferença enorme entre dizer: “Essa área nunca entrega o que combinamos.”

E dizer: “O material que havíamos combinado para sexta-feira foi entregue na terça-feira seguinte.”

No primeiro caso, existe julgamento. No segundo, existe um fato sobre o qual podemos conversar.

Parece algo simples, mas, em uma reunião tensa, essa distinção pode determinar se a conversa continuará tratando do problema ou se passará a tratar da defesa pessoal de cada participante.

Outro conceito que considero muito interessante é o de tentar compreender qual necessidade existe por trás de determinada posição.

Em um conflito profissional, alguém pode estar defendendo maior controle enquanto outra pessoa busca mais agilidade. Quando a discussão permanece apenas nas soluções propostas, temos dois lados tentando provar quem está certo. Quando conseguimos identificar o que cada lado está tentando proteger, o espaço de negociação aumenta.

Também gostei muito da ideia de que empatia não significa concordância.

É perfeitamente possível dizer: “Entendo sua preocupação.”

E, logo depois: “Mas continuo chegando a uma conclusão diferente.”

Talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores contribuições do livro para o ambiente profissional: aprender a compreender a posição do outro sem necessariamente abrir mão da própria.

Outro ensinamento que pretendo levar para o meu trabalho é substituir, sempre que possível, a reação imediata pela curiosidade.

Quando alguém questiona uma ideia em que acreditamos muito, nosso impulso costuma ser defender imediatamente nossa posição. Rosenberg sugere algo mais difícil: tentar compreender primeiro.

Isso não significa deixar de discordar. Significa apenas tentar compreender completamente antes de responder.

Apesar de considerar um bom livro e de pretender incorporar vários de seus princípios ao meu cotidiano profissional, também terminei a leitura com algumas ressalvas.

A principal delas é que não acredito que o modelo possa ser aplicado literalmente em todas as situações  especialmente considerando o contexto cultural e organizacional brasileiro.

A comunicação não acontece em um laboratório. Ela acontece dentro de culturas, organizações, hierarquias e relações construídas durante anos.

No ambiente profissional brasileiro, as relações costumam carregar uma combinação bastante particular de proximidade pessoal, informalidade, hierarquia, negociação, improvisação e leitura do contexto. Naturalmente, isso varia muito entre empresas, setores e pessoas, mas uma comunicação excessivamente estruturada segundo o modelo proposto por Rosenberg pode, em determinadas situações, soar pouco espontânea.

Imagino, por exemplo, uma reunião executiva na qual alguém diga literalmente:

“Quando observo que o relatório não foi entregue, sinto frustração porque minha necessidade de previsibilidade não foi atendida.”

A frase está perfeitamente alinhada ao método da CNV.

Mas dificilmente seria a forma mais natural de falar em muitos ambientes profissionais brasileiros.

Provavelmente seria mais eficaz dizer:

“Minha preocupação é com o prazo. Sem esses dados até quinta-feira, não conseguimos consolidar o material. O que precisamos ajustar para garantir a entrega?”

E acredito que essa seja a melhor maneira de aproveitar Rosenberg: não transformar a CNV em um roteiro, mas incorporar o raciocínio que existe por trás dela.

Também considero importante reconhecer que nem todo conflito nasce de um problema de comunicação. Existem conflitos verdadeiros de interesse, poder, recursos, prioridades e responsabilidade. Duas pessoas podem compreender perfeitamente as necessidades uma da outra e ainda assim continuar discordando. Uma comunicação melhor não elimina esses conflitos.

O que ela pode fazer é evitar que um conflito objetivo seja agravado por ataques pessoais, julgamentos desnecessários ou disputas de ego. Talvez essa seja, para mim, a principal contribuição do livro.

Não pretendo sair dessa leitura tentando ser alguém que evita conflitos ou que fala sempre de maneira excessivamente cuidadosa. Meu trabalho exige posicionamento, argumentação e, muitas vezes, discordância.

O aprendizado que quero levar é outro: continuar sendo firme no conteúdo, mas mais cuidadoso na forma como construo a conversa.

Quero observar melhor quando estou descrevendo um fato e quando já estou julgando alguém.

Quero fazer mais perguntas antes de apresentar uma objeção.

Quero tentar entender o que a outra pessoa está tentando proteger antes de concluir que ela simplesmente está dificultando uma decisão.

E talvez, principalmente, quero aprender a perceber quando minha convicção técnica começa a diminuir minha capacidade de escutar.

No final, acredito que o livro vale a leitura justamente quando não é tratada como uma fórmula.

Não considero realista aplicar integralmente o método de Rosenberg a toda conversa profissional, especialmente sem adaptá-lo ao contexto cultural, às relações existentes e ao ambiente em que a comunicação acontece.

Mas vários de seus princípios são extremamente úteis.

Se eu conseguir sair do livro interrompendo um pouco menos, perguntando um pouco mais, separando melhor fatos de julgamentos e conseguindo discordar sem transformar cada divergência em uma disputa pessoal, a leitura já terá cumprido seu papel.

quinta-feira, setembro 10, 2026

Samsung Galaxy Z Fold 8 Ultra


Durou pouco!

Em julho registrei aqui no blog a troca do meu Galaxy S23 Ultra pelo Galaxy S24. Naquela ocasião, a mudança não havia sido exatamente uma escolha minha. O S23 Ultra que eu utilizava, fornecido pelo Banco, teve a tela quebrada e foi substituído pelo S24, que é o modelo utilizado atualmente para o meu cargo.

Logo de cara eu já sabia que teria que me readaptar a uma tela menor. O Galaxy S24 possui uma tela de 6,2" e, desde o Galaxy S8+ em 2017, eu não utilizava um celular desse tamanho.

Tentei me acostumar.

Não consegui!

Depois de anos utilizando aparelhos grandes, principalmente o S23 Ultra, percebi que uma tela de 6,2" simplesmente não atendia mais ao que eu esperava de um celular no dia a dia. E foi justamente essa insatisfação que acabou me fazendo olhar novamente para uma categoria de aparelho que eu conheço muito bem: os dobráveis.

Cinco anos depois, estou de volta!

Comprei o Samsung Galaxy Z Fold 8 Ultra, meu segundo celular dobrável.

O primeiro foi justamente o Galaxy Z Fold 3, adquirido em outubro de 2021. Na época, fiquei extremamente empolgado com aquela nova categoria de aparelhos. Desde o anúncio do primeiro Galaxy Fold, em 2019, eu já acompanhava com curiosidade a proposta de carregar no bolso um celular que pudesse se transformar praticamente em um pequeno tablet.

Esperei até a terceira geração para entrar nesse mundo e, naquele momento, o Z Fold 3 foi provavelmente o celular mais diferente que eu havia utilizado até então.

Fiquei com ele por quase dois anos (23 meses).

A experiência foi muito boa no início, principalmente pela enorme tela interna. Com o tempo, porém, alguns aspectos começaram a incomodar. A tela externa era estreita demais e praticamente me obrigava a abrir o aparelho para quase tudo. O abre e fecha constante acabou ficando cansativo e, depois de algumas quedas, a dobradiça também sofreu danos e o aparelho deixou de abrir completamente plano.

Em agosto de 2023 resolvi abandonar os dobráveis e voltar para um celular convencional com o Galaxy S23 Ultra.

Naquela época achei que minha experiência com os Fold tinha terminado.

Só que cinco anos se passaram desde aquela terceira geração.

E cinco gerações de evolução tecnológica fizeram muita diferença.

O salto do Z Fold 3 para o Z Fold 8 Ultra é enorme. O aparelho está mais refinado, mais fino e passa uma sensação muito diferente daquela de produto ainda experimental que existia nas primeiras gerações.

Mas talvez o ponto que mais tenha me chamado a atenção seja justamente algo que sempre esteve no centro das discussões sobre celulares dobráveis: o vinco da tela interna.

No Fold 3 ele era claramente perceptível, tanto visualmente quanto ao passar o dedo pelo centro da tela. No Fold 8 Ultra a evolução é impressionante. O vinco continua existindo (afinal, a tela continua dobrando), mas ficou muito menos evidente. É uma daquelas diferenças que mostram claramente o quanto essa tecnologia amadureceu nesses cinco anos.

Outra curiosidade é a rapidez com que comprei esse aparelho após seu lançamento.

Quando comprei o Z Fold 3 em 2021, registrei aqui no blog que aquela havia sido a menor janela entre o lançamento mundial de um celular e a minha compra: 35 dias.

Cinco anos depois consegui diminuir esse recorde.

O Galaxy Z Fold 8 Ultra foi lançado em 7 de agosto de 2026 e estou comprando o aparelho apenas 34 dias depois do lançamento.

Um dia a menos!

Pode parecer uma estatística completamente inútil, mas este blog existe também para registrar exatamente esse tipo de coisa. Daqui a alguns anos vou gostar de voltar aqui e lembrar disso.

E há algo curioso nesse retorno aos dobráveis.

Em 2021 eu estava entrando em uma categoria nova, ainda tentando descobrir se aquele formato realmente fazia sentido para mim. Em 2026 estou voltando sabendo exatamente quais são as vantagens e as limitações desse tipo de aparelho.

Só que agora volto para uma tecnologia muito mais madura.

Depois de passar pelo Galaxy Z Fold 3, Galaxy S23 Ultra, outro Galaxy S23 Ultra e pelo breve Galaxy S24, chego agora ao Galaxy Z Fold 8 Ultra.

Meu segundo dobrável. Cinco gerações depois do primeiro.

E, pelo menos nas primeiras impressões, parece que finalmente estou utilizando aquela versão amadurecida do conceito que tanto me impressionou em 2021.

Agora vamos ver quanto tempo esse vai durar!



domingo, setembro 06, 2026

Jane Eyre


Terminei Jane Eyre, de Charlotte Brontë (1816-1855), e gostei demais da leitura! Publicado em 1847, o romance é frequentemente lembrado como uma das grandes histórias de amor da literatura inglesa, mas, para mim, seu maior mérito está em tratar de liberdade, dignidade, consciência e da necessidade de não perder a própria identidade mesmo quando estamos profundamente envolvidos por outra pessoa.

Jane Eyre é uma personagem extraordinária justamente porque não possui aquilo que normalmente definiria uma heroína romântica de sua época. Ela não é rica, não ocupa uma posição social privilegiada e tampouco é apresentada como uma mulher de beleza excepcional. Desde a infância, vive em ambientes nos quais outras pessoas tentam determinar qual deve ser o seu lugar.

Ainda assim, Jane desenvolve uma consciência muito forte de sua própria dignidade.

Ao longo da história, ela não busca apenas ser amada. Ela quer ser respeitada como igual.

É isso que torna sua relação com Edward Rochester tão interessante. Rochester é um personagem carismático, inteligente e cheio de contradições. A relação entre os dois é intensa, mas existe desde o início uma grande diferença de riqueza, idade, posição social e poder.

Por isso, a questão mais interessante do romance não é apenas saber se Jane e Rochester ficarão juntos, mas se é possível existir amor verdadeiro quando uma das pessoas precisa deixar de ser quem é para manter aquela relação.

Jane passa por momentos nos quais precisa escolher entre aquilo que deseja e aquilo que acredita ser correto. E é justamente nesses momentos que ela mais demonstra sua força.

Sua liberdade não está em simplesmente fazer tudo o que quer, mas em conseguir renunciar ao que mais deseja quando percebe que aceitar determinadas condições significaria trair sua própria consciência.

Gostei muito também da maneira como Charlotte Brontë constrói Rochester e St. John Rivers como personagens aparentemente opostos. Rochester representa a paixão e a intensidade; St. John representa a disciplina, o dever e a racionalidade.

Mas, no fundo, os dois apresentam a Jane um problema semelhante: ambos tentam direcionar sua vida segundo aquilo que eles próprios desejam.

Jane precisa aprender a não se deixar dominar nem pela paixão nem pelo dever imposto por outra pessoa.

A atmosfera gótica do romance também é excelente. Thornfield Hall, com seus corredores, segredos, ruídos misteriosos e espaços fechados, dá ao livro uma sensação constante de inquietação. Mas esses elementos não funcionam apenas como suspense. Muitas vezes refletem os próprios conflitos internos das personagens.

O fogo e o frio aparecem repetidamente como imagens simbólicas. O fogo lembra paixão, desejo e também destruição. O frio aparece associado à repressão e à racionalidade excessiva.

Jane parece buscar um equilíbrio entre esses extremos: viver intensamente sem ser consumida pela própria paixão.

Outro aspecto que ganhou força para mim depois da leitura foi a figura de Bertha Mason. Ela funciona durante boa parte da narrativa como presença ameaçadora e misteriosa, mas hoje é difícil não perceber o quanto sua história é contada apenas pela perspectiva dos outros.

Jane conquista cada vez mais voz e autonomia ao longo do romance. Bertha, ao contrário, permanece praticamente sem voz.

Também achei muito interessante comparar Jane Eyre com O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë, livro que também gostei muito.

As duas irmãs trabalham com paixão, isolamento, natureza, casas carregadas de significado e personagens emocionalmente intensos, mas chegam a lugares muito diferentes.

Em O Morro dos Ventos Uivantes, Catherine e Heathcliff vivem uma paixão que parece dissolver a própria identidade dos dois.

Em Jane Eyre, Charlotte Brontë parece perguntar justamente o contrário: como amar profundamente sem deixar de ser você mesmo?

Como leitor de Tolkien, encontrei ainda uma conexão inesperada. Nas obras de Tolkien, muitos personagens enfrentam situações em que precisam renunciar àquilo que desejam quando conquistar esse desejo significaria alguma forma de corrupção.

Jane enfrenta um dilema semelhante numa escala muito mais íntima.

Em vários momentos, sua maior vitória não está em conseguir aquilo que quer, mas em ter força suficiente para dizer não.

O final do romance também funciona muito bem justamente porque Jane retorna a Rochester em condições completamente diferentes das que existiam anteriormente.

Ela possui independência financeira, família e liberdade de escolha.

Agora ela não precisa de Rochester. Ela escolhe Rochester. E existe uma diferença enorme entre essas duas coisas.

Talvez seja por isso que a famosa frase “Reader, I married him” — “Leitor, eu me casei com ele” — seja tão significativa. Jane assume a ação. Ela escolhe. Ela conta sua própria história.

Terminei Jane Eyre entendendo perfeitamente por que o romance continua tão relevante quase dois séculos depois.

É uma grande história de amor, mas também é uma história sobre a conquista da própria identidade.

Jane passa o livro inteiro aprendendo a diferença entre ser amada e ser possuída, entre obedecer e escolher, entre precisar de alguém e desejar livremente estar com alguém.

No fim, Jane não conquista apenas Rochester.

Ela conquista a si mesma.