sexta-feira, outubro 23, 2026

A Bússola Dourada


Há aproximadamente 25 anos, li A Bússola Dourada (1995), de Philip Pullman (1946-), e guardei uma lembrança muito positiva da obra. Embora já não me recordasse de muitos detalhes da história, permaneceu a sensação de ter encontrado um livro especial. Agora, depois de tanto tempo, resolvi retornar a esse universo para descobrir se aquela impressão resistiria a uma nova leitura, realizada com outros olhos e com a bagagem literária acumulada ao longo dos anos. A resposta não poderia ter sido melhor: o livro continua sendo excelente!

A Bússola Dourada é o primeiro volume da trilogia Fronteiras do Universo. A narrativa acompanha Lyra Belacqua, uma menina curiosa, corajosa e bastante habilidosa em inventar histórias, que vive em uma versão alternativa de Oxford. Nesse mundo, os seres humanos possuem dæmons, criaturas que assumem formas animais e representam uma dimensão essencial de sua identidade. A partir de acontecimentos misteriosos, Lyra embarca em uma aventura que a levará muito além do ambiente acadêmico em que cresceu.

Um dos grandes méritos de Philip Pullman está na construção desse universo. O autor consegue combinar elementos fantásticos, científicos e religiosos de maneira extremamente envolvente, criando uma realidade que, embora diferente da nossa, apresenta uma coerência própria. Os dæmons, o aletiômetro, os ursos encouraçados e os mistérios que envolvem o Pó são elementos que despertam a curiosidade e tornam a leitura fascinante.

Entretanto, o que mais me chamou a atenção nessa releitura foi perceber que, por trás de uma aventura aparentemente juvenil, existe uma obra repleta de questionamentos filosóficos, morais e religiosos. Pullman aborda temas como liberdade, conhecimento, autoridade, amadurecimento e a própria natureza humana. Sua narrativa questiona especialmente o poder das instituições que se apresentam como detentoras da verdade e os perigos de se justificar determinadas ações em nome de objetivos considerados superiores.

Nesse aspecto, é interessante estabelecer um paralelo com J. R. R. Tolkien e C. S. Lewis, dois autores de fantasia que aprecio bastante. Enquanto Tolkien e Lewis construíram universos profundamente influenciados pela tradição cristã, Pullman segue por um caminho bastante diferente, apresentando uma visão crítica de determinadas concepções religiosas e da autoridade institucional. Embora eu não compartilhe necessariamente de todas as perspectivas filosóficas do autor, considero esse contraponto extremamente enriquecedor. Afinal, uma boa obra literária não precisa confirmar nossas convicções; ela também deve nos provocar, apresentar outras perspectivas e estimular a reflexão.

Outro aspecto que merece destaque é a construção dos personagens. Lyra é uma protagonista cativante justamente por não representar um modelo convencional de heroína. É curiosa, impulsiva, mentirosa em diversas ocasiões, mas também demonstra coragem, lealdade e um forte senso de amizade. Os demais personagens também apresentam uma complexidade moral interessante, fugindo de uma divisão simplista entre o bem e o mal. Pullman nos lembra que inteligência, prestígio e boas intenções não são garantias de virtude.

A narrativa possui um ritmo muito agradável, alternando momentos de aventura, mistério e descobertas. Mesmo conhecendo parte da história, senti novamente o prazer de acompanhar os acontecimentos e desvendar gradualmente os segredos daquele universo. E talvez essa seja uma das maiores qualidades do livro: conseguir envolver o leitor tanto pela aventura quanto pelas ideias que apresenta.

Reler uma obra depois de 25 anos é também uma experiência curiosa. O livro permanece o mesmo, mas o leitor certamente não. Aquilo que antes me encantava principalmente pela imaginação e pela aventura agora também desperta reflexões sobre filosofia, religião, ética e a condição humana. Foi interessante perceber que a admiração que eu tinha pela história não apenas permaneceu, como ganhou novas razões.

A Bússola Dourada é uma excelente obra de fantasia, capaz de agradar tanto aos leitores mais jovens quanto àqueles que procuram uma literatura com maior profundidade. Pullman demonstra que uma boa história pode ser, ao mesmo tempo, uma aventura empolgante e um convite para refletir sobre questões fundamentais da existência.

Termino essa releitura com a satisfação de reencontrar um livro que marcou minha experiência como leitor há tantos anos e constatar que ele continua merecendo aquela boa lembrança. Mais do que isso, fiquei com a impressão de que agora estou ainda mais preparado para apreciar as diferentes camadas dessa narrativa.

domingo, outubro 18, 2026

Pais e Filhos


Publicado em 1862, Pais e Filhos, de Ivan Turguêniev (1818-1883) é um dos grandes clássicos da literatura russa e uma obra que, apesar de escrita há mais de 160 anos, permanece surpreendentemente atual. Mais do que um romance sobre o conflito entre gerações, o livro apresenta uma profunda reflexão sobre os limites da razão, o valor das tradições, as transformações sociais e as contradições da natureza humana.

A história se passa na Rússia de 1859, em um período de intensas mudanças políticas, econômicas e culturais, pouco antes da emancipação dos servos, ocorrida em 1861. Nesse ambiente, Turguêniev coloca frente a frente duas gerações com visões distintas sobre a sociedade. De um lado, aqueles que ainda encontram sentido nas tradições, na arte e nos valores herdados. De outro, jovens que questionam as instituições estabelecidas e acreditam na necessidade de romper com o passado para construir uma nova realidade.

O grande destaque da obra é Ievguêni Bazárov, um jovem estudante de medicina que se apresenta como niilista, rejeitando tudo aquilo que não pode ser sustentado pela razão e pela ciência. Inteligente, provocador e extremamente seguro de suas convicções, Bazárov despreza o romantismo, a poesia, as convenções sociais e boa parte dos valores defendidos pelas gerações anteriores.

Entretanto, é justamente nesse personagem que Turguêniev constrói uma das maiores virtudes do romance: demonstrar que a existência humana é muito mais complexa do que qualquer sistema filosófico.

Ao longo da narrativa, Bazárov se depara com experiências que desafiam suas certezas, especialmente quando precisa lidar com sentimentos que não consegue controlar ou explicar satisfatoriamente. O amor, o orgulho, a amizade e os vínculos familiares revelam as limitações de uma visão de mundo que pretende submeter toda a experiência humana à racionalidade.

Uma das questões que mais me chamaram a atenção durante a leitura foi perceber como a rejeição absoluta às tradições também pode se transformar em uma espécie de dogmatismo. Bazárov critica aqueles que aceitam ideias simplesmente porque foram transmitidas pelas gerações anteriores, mas, em diversos momentos, demonstra a mesma rigidez intelectual que condena em seus adversários.

Essa contradição torna o personagem especialmente interessante. Ele não é simplesmente um jovem arrogante ou um pensador equivocado. Possui qualidades admiráveis, como a independência intelectual, a coragem de questionar e a valorização do conhecimento científico. Contudo, sua dificuldade em reconhecer os limites das próprias convicções acaba revelando uma fragilidade profundamente humana.

Outro aspecto que apreciei foi a maneira como Turguêniev constrói os personagens da geração anterior. Eles não são apresentados apenas como representantes de um passado ultrapassado. Também possuem suas contradições, inseguranças e limitações. O autor evita transformar o romance em uma disputa simplista entre conservadores e progressistas, permitindo que o leitor reconheça virtudes e defeitos em ambos os lados.

Também gostei bastante da maneira como o romance aborda as relações familiares. Por trás dos debates filosóficos e das divergências políticas, encontramos pais que desejam compreender seus filhos e filhos que procuram afirmar sua independência, muitas vezes sem perceber o sofrimento que provocam naqueles que os amam.

Nesse aspecto, o livro revela uma sensibilidade extraordinária. O afeto nem sempre se manifesta por meio de grandes declarações. Muitas vezes, está presente em pequenos gestos, nos silêncios, nas tentativas de aproximação e até mesmo nas dificuldades de comunicação.

O desfecho da obra é particularmente marcante e, para mim, eleva o romance a uma dimensão ainda mais profunda. Depois de tantas discussões sobre ciência, tradição, progresso e filosofia, Turguêniev nos conduz a uma reflexão sobre a fragilidade da existência e a permanência do amor diante da passagem do tempo.

É impossível não perceber, nesse momento, como nossas disputas intelectuais, por mais importantes que sejam, podem parecer pequenas diante das experiências fundamentais da vida.

Gostei muito de Pais e Filhos, sobretudo pela capacidade de Turguêniev de transformar um conflito histórico e filosófico em uma narrativa profundamente humana. É um romance relativamente curto, mas de grande densidade, que continua provocando reflexões muito depois de sua conclusão.

Mais do que apresentar o confronto entre pais e filhos, a obra nos convida a pensar sobre a relação entre conhecimento e sabedoria, liberdade e responsabilidade, razão e sentimento.

Ao terminar a leitura, fiquei com a impressão de que o grande problema de Bazárov não estava necessariamente em suas ideias, mas na dificuldade de reconhecer que elas, por mais coerentes que parecessem, não eram suficientes para explicar toda a complexidade da vida.

terça-feira, outubro 13, 2026

Galaxy Book6 Pro (14")


Depois de muitos anos utilizando tablets como minha principal ferramenta nas viagens de trabalho, chegou a hora de voltar a ter um notebook!

E essa compra acaba sendo curiosa quando olho para trás e vejo a minha relação com computadores portáteis ao longo dos últimos 20 anos.

Meu primeiro notebook foi um Toshiba Satellite de 17", comprado por volta de 2006. Era uma época completamente diferente: notebook era um equipamento grande, pesado e que estava muito longe de oferecer a mobilidade que temos hoje.

Em janeiro de 2011 veio meu segundo notebook, um MacBook Pro de 13". Naquela época eu estava entrando de cabeça no ecossistema da Apple. Já tinha iPod, iPhone e iPad e, durante uma viagem para Orlando, aproveitei para comprar o MacBook Pro. Eu vinha de mais de 15 anos utilizando Windows e resolvi aprender o Mac OS X.

O curioso é que poucos anos depois os tablets começaram praticamente a eliminar a necessidade de um notebook para mim.

Em 2010 comprei meu primeiro iPad e fui aos poucos testando até onde aquele novo tipo de equipamento poderia me levar. Em 2011 já viajei a trabalho sem levar netbook e descobri que conseguia fazer praticamente tudo pelo tablet. Em 2012 comprei até uma case com teclado que chamei na época de meu "aposentador de notebook" e, em 2014, registrei aqui no blog que o iPad 2 tinha efetivamente aposentado meu netbook.

Durante muitos anos essa lógica funcionou muito bem.

Passei por várias gerações do iPad e, em 2023, fiz a migração definitiva dos tablets da Apple para a Samsung com a compra do Galaxy Tab S8. Ele se tornou um excelente companheiro de viagem: leve, pequeno, com ótima bateria, conexão 5G e suficientemente poderoso para reuniões, leitura de documentos, e-mails e várias tarefas de trabalho.

Só que meu uso profissional foi ficando cada vez mais exigente.

Hoje trabalho bastante com Excel, PowerPoint, Outlook, Word e Power BI. E por melhor que Android, Samsung DeX e os aplicativos móveis tenham evoluído, começaram a surgir situações em que eu percebia uma diferença importante entre "conseguir trabalhar no tablet" e "ter à disposição um computador completo".

Comecei então a procurar alguma coisa que pudesse me dar a liberdade e a portabilidade que tanto gosto no Tab S8, mas sem abrir mão do Windows completo.

Analisei algumas possibilidades.

Uma delas foi o Galaxy Book Go. A proposta de bateria e mobilidade era interessante, mas seu hardware de entrada, principalmente os 4 GB de memória, seria limitado demais para a quantidade de multitarefa que faço.

Também considerei seriamente o Microsoft Surface Pro. O conceito é provavelmente o que mais se aproxima de um tablet que também é um computador Windows completo. Os novos modelos com Snapdragon oferecem excelente autonomia e ótimo desempenho.

Mas depois percebi uma coisa bastante óbvia: eu já tenho um excelente tablet!

Não precisava comprar outro equipamento que tentasse ser ao mesmo tempo tablet e notebook. Precisava justamente de algo que complementasse o Galaxy Tab S8 e fosse excelente naquilo em que o tablet começa a mostrar suas limitações.

Foi aí que o Samsung Galaxy Book6 Pro de 14" passou a fazer cada vez mais sentido.

E foi o escolhido!

O Galaxy Book6 Pro é um equipamento novíssimo. A Samsung apresentou mundialmente a linha Galaxy Book6 no dia 5 de janeiro de 2026, durante a CES 2026, e o modelo chegou oficialmente ao mercado brasileiro no dia 26 de agosto de 2026. Ou seja, estou comprando o notebook praticamente na janela de lançamento nacional.

Minha configuração é o Galaxy Book6 Pro 14", modelo NP940XJG-LA2BR, equipado com:

  • Processador Intel Core Ultra 5 325
  • 16 GB de memória LPDDR5X
  • SSD NVMe de 512 GB
  • Tela Dynamic AMOLED 2X Touch de 14"
  • Duas portas Thunderbolt 4; USB-A 3.2; HDMI 2.1
  • Teclado retroiluminado
  • Bateria de 67,18 Wh
  • Carregador USB-C de 65 W
  • Peso de apenas 1,24 kg
  • Espessura de apenas 11,6 mm

O processador também é de uma geração recém-lançada. O Core Ultra 5 325 pertence à Série 3 da Intel, conhecida pelo codinome Panther Lake, lançada no primeiro trimestre de 2026 e produzida utilizando a tecnologia Intel 18A.

Não escolhi a configuração mais poderosa da linha propositalmente.

Existe uma versão do Book6 Pro com Core Ultra X7, 32 GB de memória, SSD de 1 TB e gráficos Intel Arc B390. É obviamente mais potente, mas meu objetivo nunca foi comprar um notebook para jogos, edição profissional de vídeo ou renderização 3D.

Para isso continuo tendo meu desktop.

O que eu precisava era de uma máquina para trabalhar!

Excel, Power BI, PowerPoint, Outlook, Word, navegador, reuniões e muita multitarefa, mas privilegiando principalmente portabilidade e autonomia.

E nesse cenário o Core Ultra 5 me pareceu muito mais equilibrado. É um processador moderno, potente o suficiente para tudo que faço, mas com grande preocupação com eficiência energética.

A tela também foi um dos pontos que mais pesaram na escolha. São 14" em um painel Dynamic AMOLED 2X com resolução de 2880 x 1800 pixels e sensível ao toque. É uma tela muito superior à de um notebook corporativo convencional e, ao mesmo tempo, mantém o equipamento extremamente compacto.

Mas talvez os números que mais resumam o motivo da compra sejam estes:

1,24 kg e 11,6 mm de espessura!

É justamente aí que está o ponto de equilíbrio que eu procurava.

O Tab S8 sempre me agradou porque praticamente desaparece dentro da mochila e oferece bateria suficiente para passar tranquilamente por um dia de viagem. Eu não queria voltar a carregar aqueles notebooks grandes e pesados que durante tantos anos foram sinônimo de computador portátil.

O Book6 Pro consegue entregar um Windows completo em um equipamento que continua fino e leve o suficiente para me acompanhar nos aeroportos, hotéis e reuniões sem representar um peso desnecessário.

Outro diferencial foi permanecer dentro do ecossistema Samsung. Hoje já utilizo celular, tablet e outros dispositivos Galaxy, e o notebook se integra a esse ambiente por meio de recursos como Quick Share e compartilhamento entre dispositivos.

Há também um detalhe que parece pequeno, mas que considero muito importante para quem viaja: as conexões.

Apesar de ser extremamente fino, o Book6 Pro ainda possui HDMI, USB-A e duas Thunderbolt 4. Portanto, posso chegar a uma reunião e conectar diretamente um projetor ou televisão por HDMI, colocar um pendrive na USB tradicional ou utilizar um dock pela Thunderbolt sem precisar andar com uma coleção de adaptadores.

É interessante pensar que, em junho de 2012, escrevi aqui no blog que, depois de adaptar o iPad para o trabalho, dificilmente conseguiria olhar novamente para um notebook sem pensar que se tratava de "um equipamento antigo e defasado".

Quatorze anos depois estou comprando novamente um notebook!

Mas talvez aquela avaliação não estivesse errada...

Os notebooks daquela época realmente não conseguiam competir com um tablet em portabilidade. A tecnologia é que evoluiu a ponto de finalmente reduzir essa distância.

Hoje consigo ter um computador Windows completo, com tela AMOLED de 14", 16 GB de memória, SSD, processador Intel de última geração e bateria para uma longa jornada de trabalho em um equipamento com 1,24 kg.

Portanto, depois de aproximadamente 15 anos utilizando tablets como minha principal solução móvel, chegou a hora de inverter novamente os papéis.

O Galaxy Tab S8 continuará comigo para leitura, consumo de conteúdo, entretenimento e será compartilhado o uso com a minha esposa. Continua sendo um excelente tablet e ainda tem muita vida útil.

Mas, para o trabalho, ele pode finalmente se aposentar.

O Galaxy Book6 Pro passa agora a assumir essa função.

É meu terceiro notebook, meu segundo notebook com Windows e o primeiro que compro em aproximadamente 15 anos.

O Toshiba Satellite representou minha primeira experiência com um computador realmente portátil.

O MacBook Pro marcou minha entrada no mundo Apple.

Os iPads e depois o Galaxy Tab S8 mostraram que era possível trabalhar viajando sem carregar um computador tradicional.

E agora o Galaxy Book6 Pro fecha um ciclo curioso: volto ao Windows e ao notebook justamente porque, depois de todos esses anos, finalmente encontrei um equipamento que consegue entregar aquilo que eu mais gostava no tablet sem abrir mão daquilo que eu sentia falta em um computador.

Agora é colocar a máquina na estrada e ver quantos anos ela irá me acompanhar!

domingo, outubro 11, 2026

Aquela Fortaleza Medonha


Com Aquela Fortaleza Medonha (1945), C. S. Lewis (1898-1963) encerra sua Trilogia Cósmica de maneira surpreendente, abandonando as viagens interplanetárias dos dois primeiros volumes para trazer o conflito entre o bem e o mal ao nosso próprio mundo. Depois de acompanhar as aventuras de Elwin Ransom em Além do Planeta Silencioso e Perelandra, encontrei neste terceiro livro uma narrativa mais complexa, que mistura ficção científica, filosofia, teologia, crítica social e elementos da mitologia arturiana.

Confesso que gostei muito da experiência de leitura. Na verdade, a Trilogia Cósmica conquistou um lugar especial entre minhas leituras e se tornou uma das minhas trilogias favoritas. Lewis conseguiu construir uma obra que, além de proporcionar uma excelente experiência literária, provoca reflexões que permanecem conosco muito depois de terminarmos a última página.

Publicado em 1945, em um mundo profundamente marcado pela Segunda Guerra Mundial, Aquela Fortaleza Medonha apresenta uma crítica contundente à crença de que o progresso científico e tecnológico, por si só, seria capaz de aperfeiçoar a humanidade. Lewis não questiona o valor da ciência, mas os perigos de sua transformação em instrumento de poder, especialmente quando o conhecimento se desvincula de princípios morais.

A história acompanha Mark e Jane Studdock, um jovem casal cujo casamento atravessa dificuldades. Enquanto Mark, professor universitário, procura reconhecimento e prestígio profissional, Jane busca preservar sua independência e compreender acontecimentos inexplicáveis que começam a perturbar sua vida. Seus caminhos acabam envolvidos em um conflito muito maior, relacionado a uma poderosa organização científica conhecida como N.I.C.E.

Um dos aspectos que mais me impressionaram foi a maneira como Lewis retrata a corrupção moral dentro das instituições. O mal não aparece apenas por meio de personagens declaradamente perversos, mas também nas pequenas concessões, na ambição profissional, na necessidade de aceitação e na disposição de abandonar convicções pessoais para conquistar espaço entre os poderosos. É particularmente interessante perceber como decisões aparentemente insignificantes podem conduzir uma pessoa a situações cada vez mais comprometedoras.

Essa dimensão do romance me parece extremamente atual. Mesmo escrito há mais de oitenta anos, o livro apresenta questões que dialogam diretamente com nossa sociedade, marcada pela crescente influência da tecnologia, pela concentração de informações e pelo poder de organizações capazes de interferir profundamente na vida das pessoas. A grande pergunta de Lewis continua pertinente: até que ponto o desejo de controlar e aperfeiçoar a natureza pode acabar comprometendo a própria humanidade?

Outro elemento fascinante é a presença da tradição medieval e da mitologia arturiana. Lewis combina o ambiente acadêmico da Inglaterra moderna com antigas lendas, poderes espirituais e uma concepção de universo muito diferente daquela oferecida pelo materialismo contemporâneo.

Também considero interessante a forma como Lewis contrapõe duas concepções de comunidade. De um lado, encontramos relações estruturadas em torno do poder, da competição e da utilidade. De outro, relações fundamentadas na amizade, na confiança, na responsabilidade e no reconhecimento da dignidade humana. Essa oposição reforça uma das mensagens centrais do romance: uma sociedade não se torna necessariamente melhor apenas porque dispõe de mais conhecimento, recursos ou capacidade de organização.

Em termos narrativos, Aquela Fortaleza Medonha é provavelmente o volume mais exigente da trilogia. A quantidade de personagens, a alternância entre diferentes núcleos e a mistura de gêneros podem dificultar a leitura em alguns momentos. Eu mesmo precisei revisitar determinados acontecimentos para compreender melhor suas conexões. Contudo, esse esforço foi recompensado pela profundidade dos temas e pela maneira como Lewis reúne, no encerramento, elementos desenvolvidos ao longo dos três livros.

Olhando retrospectivamente para a trilogia, percebo uma progressão muito interessante. Em Além do Planeta Silencioso, Lewis questiona a posição do homem diante da grandeza do universo. Em Perelandra, aprofunda a reflexão sobre a liberdade, a tentação e a origem do mal. Finalmente, em Aquela Fortaleza Medonha, demonstra como a corrupção moral pode ultrapassar o indivíduo e manifestar-se nas instituições, na política, na ciência e na própria organização da sociedade.

É justamente essa continuidade filosófica que torna a trilogia tão especial. Embora cada volume apresente características narrativas bastante distintas, os três formam uma reflexão coerente sobre a condição humana, nossa relação com a criação e os perigos da arrogância intelectual e moral.

Ao concluir a leitura, fiquei com a impressão de que Lewis não estava simplesmente escrevendo uma história sobre o confronto entre forças sobrenaturais. Sua preocupação era muito mais profunda: mostrar que o verdadeiro progresso humano não pode ser medido apenas pela capacidade de transformar o mundo, mas também pela sabedoria de reconhecer limites, preservar valores e compreender nossa responsabilidade diante dos outros.

Aquela Fortaleza Medonha é uma obra que exige atenção, mas oferece muito em troca. Sua combinação de fantasia, filosofia e crítica social demonstra a capacidade de Lewis de utilizar a literatura não apenas para contar uma boa história, mas também para provocar reflexões sobre questões fundamentais da existência.

Termino a Trilogia Cósmica com a satisfação de ter descoberto uma das minhas trilogias favoritas. Os três livros possuem qualidades próprias, mas, juntos, constituem uma experiência literária excepcional. Recomendo especialmente aos leitores que apreciam histórias capazes de combinar imaginação, profundidade filosófica e questionamentos morais.