Durante um fim de semana em Pirenópolis/GO com minha esposa tive a oportunidade de participar de uma celebração da Santa Missa na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, localizada no Centro Histórico da cidade. Mais do que assistir a uma celebração em um belo templo, a experiência ganhou outro significado quando conheci um pouco melhor a história daquele lugar.
A Matriz de Nossa Senhora do Rosário não é apenas uma das construções mais emblemáticas de Pirenópolis. Sua trajetória se confunde com a própria formação da cidade e com os primeiros passos da organização da Igreja Católica no território goiano.
A origem da Igreja Matriz remonta aos primeiros anos do antigo arraial de Minas de Nossa Senhora do Rosário de Meia Ponte, nome original de Pirenópolis.
A ocupação da região ganhou força a partir de 1727, quando bandeirantes e mineradores chegaram às margens do Rio das Almas atraídos pela descoberta de ouro.
Segundo a tradição histórica local, no dia 7 de outubro de 1727, data dedicada a Nossa Senhora do Rosário, teria sido celebrada uma missa às margens do Rio das Almas pelo padre Antônio de Oliveira Gago. O episódio é tradicionalmente associado à escolha de Nossa Senhora do Rosário como padroeira do povoado que começava a se formar.
Pouco tempo depois, por volta de 1728, teve início a construção da igreja. Há registros de batismos realizados no templo já em 1732, demonstrando que a comunidade religiosa estava estabelecida naquele local poucos anos depois do surgimento do arraial.
Por essa razão, a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário é considerada a mais antiga igreja ainda existente no estado de Goiás.
Um aspecto interessante de sua história é que a construção não parece ter sido resultado da instalação de uma ordem religiosa específica. A iniciativa esteve relacionada à própria comunidade do arraial minerador e, principalmente, à Irmandade do Santíssimo Sacramento, criada em Meia Ponte em 1728.
As irmandades religiosas tiveram grande importância durante o período colonial brasileiro. Formadas principalmente por leigos, essas associações ajudavam a organizar a vida religiosa das comunidades, promoviam celebrações, mantinham altares e frequentemente participavam da construção e conservação dos templos.
Assim, a Matriz nasceu fundamentalmente da organização religiosa da própria comunidade que se estabelecia naquela região.
A própria arquitetura da igreja revela muito sobre as condições existentes no interior do Brasil no século XVIII. Sua estrutura utiliza técnicas tradicionais do período colonial, com alicerces de pedra, paredes de taipa de pilão e adobe e grandes peças de madeira, especialmente aroeira.
A construção também não ocorreu de uma única vez.
Ao longo de décadas, a igreja passou por ampliações e modificações. Uma das torres, por exemplo, foi construída em 1763, enquanto altares, elementos internos e outras partes do edifício foram sendo acrescentados ou modificados nos anos seguintes.
Inicialmente, a comunidade religiosa de Meia Ponte estava subordinada à Paróquia de Sant'Ana, em Vila Boa, atual Cidade de Goiás.
Com o crescimento do povoado, entretanto, a igreja foi elevada à condição de Matriz e passou a organizar uma paróquia própria.
Outro aspecto marcante da Igreja Matriz é sua relação com as manifestações culturais de Pirenópolis. Talvez nenhuma manifestação represente tão bem a relação entre a Matriz, a fé e a identidade cultural de Pirenópolis quanto a tradicional Festa do Divino Espírito Santo.
Realizada há mais de dois séculos, a festa reúne novenas, missas, procissões, música, folias e diversas manifestações populares, incluindo as famosas Cavalhadas de Pirenópolis.
A relevância da igreja também foi reconhecida oficialmente. Em 3 de julho de 1941, a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário foi tombada como patrimônio histórico nacional pelo então Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, atual IPHAN — Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
O tombamento ocorreu ainda nos primeiros anos de atuação do órgão federal de preservação, o que demonstra a importância que o edifício já possuía para a história da arquitetura e da cultura brasileiras.
Um dos episódios mais tristes da história recente da Matriz aconteceu em 5 de setembro de 2002.
Um grande incêndio destruiu praticamente toda a cobertura do templo e atingiu severamente seu interior, incluindo a nave, a sacristia e o altar-mor.
Algumas imagens e objetos religiosos conseguiram ser retirados durante o incêndio, mas as perdas foram significativas.
A destruição da igreja provocou enorme comoção em Pirenópolis. Para uma cidade cuja identidade histórica, religiosa e cultural está profundamente ligada à Matriz, perder aquele edifício significava muito mais do que perder um monumento arquitetônico.
Logo após o incêndio começaram os trabalhos emergenciais para preservar as paredes de taipa que permaneceram de pé.
Posteriormente foi iniciado um amplo processo de restauração, envolvendo especialistas, órgãos públicos e a própria comunidade.
Depois de anos de trabalho, a Matriz restaurada foi reinaugurada em 30 de março de 2006.
Conhecer tudo isso tornou ainda mais significativa a experiência de participar de uma missa na Matriz.
Quando nos sentamos nos bancos daquela igreja, é fácil observar apenas sua arquitetura, seus altares ou a beleza do Centro Histórico de Pirenópolis ao seu redor.
Mas aquele espaço carrega quase três séculos de história.
Ali foram celebrados batismos ainda nos primeiros anos da ocupação de Goiás. Por aquele templo passaram gerações de moradores de Meia Ponte e, posteriormente, de Pirenópolis. Ali foram realizadas missas, casamentos, funerais, novenas e procissões enquanto a própria cidade se transformava ao seu redor.
A igreja também sobreviveu às transformações econômicas da região, ao desaparecimento da mineração como principal atividade, às mudanças políticas ocorridas desde o período colonial e até mesmo ao incêndio que quase a destruiu completamente no início deste século.
Participar de uma celebração naquele espaço permite perceber algo que os monumentos históricos nem sempre conseguem transmitir quando são visitados apenas como atrações turísticas: a Matriz continua viva.
Ela não é somente um patrimônio preservado para recordar o passado. Continua desempenhando a mesma função para a qual começou a ser construída há quase trezentos anos: reunir uma comunidade em torno de sua fé.
Talvez seja justamente essa continuidade que torne a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário um dos lugares mais especiais de Pirenópolis.
Mais do que visitar uma das igrejas mais antigas de Goiás, participar de uma missa ali é, de alguma maneira, entrar em contato com uma tradição religiosa que acompanha a história da cidade desde o seu nascimento.
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