segunda-feira, março 02, 2026

Desidério, ou O Gênero Humano


Ler Desidério, ou o Gênero Humano é, antes de tudo, aceitar um convite que nem todo leitor está disposto a fazer: o de abandonar a expectativa de uma história tradicional e entrar em um território onde a literatura se aproxima da filosofia, da alegoria e até de uma certa inquietação existencial. Algo que eu não consegui fazer direito...

Carlos Nejar (1939-) não escreve para entreter no sentido convencional. O ponto de partida do livro já indica esse caminho pouco usual: um cão que, ao devorar um exemplar de Dom Quixote, passa a existir numa zona híbrida entre o animal e o humano. A partir daí, o que se desenvolve não é exatamente uma narrativa, mas um experimento literário sobre o que significa ser humano.

Desidério, o protagonista, não deve ser lido como um personagem psicológico, com motivações claras ou evolução dramática. Ele funciona como um símbolo, quase um instrumento através do qual o autor investiga questões fundamentais: o desejo, a consciência, a linguagem, a própria natureza da existência. Nesse sentido, o livro se aproxima mais de uma fábula metafísica do que de um romance propriamente dito.

Há um elemento particularmente instigante na obra: o ponto de vista. Ao colocar um ser que não é plenamente humano para observar a humanidade, o autor cria uma espécie de espelho deslocado. A partir desse olhar “de fora”, hábitos, crenças e certezas humanas ganham contornos inesperados, às vezes até desconfortáveis. É nesse deslocamento que o livro encontra sua força mais original.

No fim, Desidério, ou o Gênero Humano é uma obra que dificilmente será unânime. Trata-se de um livro exigente, por vezes irregular. Ele não se oferece ao leitor de forma passiva; exige paciência, atenção e disposição para lidar com ambiguidades.

Talvez a melhor maneira de abordá-lo seja abandonar a ideia de que se está diante de um romance e aceitá-lo como aquilo que ele parece querer ser: uma tentativa, por meio da linguagem literária, de pensar o ser humano em toda a sua complexidade.

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