quarta-feira, fevereiro 18, 2026

Viva o Povo Brasileiro

Ler Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro (1941-2014), é como atravessar um longo rio da história nacional: às vezes calmo, às vezes turbulento, mas sempre carregado de memórias, contradições e vozes que raramente aparecem nos livros de história. Publicado em 1984, o romance surge no momento em que o Brasil começava a sair da ditadura militar e a revisitar criticamente sua própria identidade. Não é coincidência que João Ubaldo tenha escolhido justamente esse momento para escrever um livro que desmonta as narrativas heroicas sobre a formação do país.

A obra acompanha mais de três séculos da história brasileira, sobretudo na Bahia, e mistura acontecimentos históricos, personagens fictícios e lendas populares. Em vez de apresentar uma cronologia organizada, o autor constrói uma narrativa cheia de interrupções, saltos temporais e mudanças de foco. O resultado é um romance que parece menos interessado em contar uma história linear e mais empenhado em mostrar como a própria ideia de “história oficial” é construída — e muitas vezes manipulada.

No centro do livro está uma pergunta implícita: quem realmente construiu o Brasil? Ao longo das páginas, João Ubaldo desloca o protagonismo tradicional dos grandes heróis e líderes políticos para o chamado “povo”. Escravizados, soldados rasos, trabalhadores pobres, mulheres invisibilizadas e figuras marginalizadas ganham voz e presença. O romance sugere que a identidade brasileira não nasce das decisões das elites, mas da sobrevivência e da inventividade daqueles que sempre estiveram à margem do poder.

A linguagem desempenha papel fundamental nessa construção. João Ubaldo utiliza uma prosa rica, cheia de digressões e comentários irônicos do narrador. Ao mesmo tempo, incorpora elementos da oralidade popular, aproximando o texto da tradição narrativa do povo. Essa mistura estilística reforça a própria tese do romance: a cultura brasileira não é homogênea, mas formada pelo encontro — muitas vezes conflituoso — entre diferentes vozes e experiências.

Outro aspecto marcante da obra é sua visão profundamente crítica das elites brasileiras. Os grandes proprietários, militares, religiosos e políticos aparecem frequentemente como figuras ridículas, violentas ou moralmente frágeis. Em vez de líderes iluminados, eles surgem como personagens movidos por interesses pessoais, preconceitos e ignorância. Ao expor essas contradições, o romance questiona diretamente o discurso histórico que costuma glorificar essas figuras.

A escravidão, a violência social e a desigualdade estrutural aparecem como forças permanentes ao longo da narrativa. No entanto, João Ubaldo evita transformar o povo em vítima passiva. Pelo contrário, o romance enfatiza a capacidade de adaptação, resistência e criatividade das pessoas comuns diante de um sistema profundamente injusto.

Ao final da leitura, fica a impressão de que João Ubaldo escreveu não apenas um romance histórico, mas uma espécie de grande alegoria nacional. Viva o Povo Brasileiro é, ao mesmo tempo, uma celebração da força cultural do povo e uma crítica feroz às estruturas de poder que moldaram o país.

Mais do que uma narrativa sobre o passado, o romance funciona como um espelho. Ao revisitar a formação do Brasil com humor, ironia e lucidez, João Ubaldo nos obriga a olhar para as continuidades entre aquela história e o país que ainda estamos tentando entender.

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