O Larousse da Cerveja, publicado em 2017, pertence àquela linhagem rara de livros que revelam como temas tidos como simples apenas aguardam o olhar certo para se tornarem vastos. Nas mãos de Ronaldo Morado (1956-), a cerveja deixa de ser apenas bebida e passa a ser linguagem: um meio pelo qual curiosidade, rigor e paixão fermentam conhecimento. Cervejeiro e pesquisador atento ao amadurecimento da cultura cervejeira brasileira desde os anos 1990, Morado constrói uma verdadeira enciclopédia em português, sólida e generosa, como se oferecesse ao leitor um mapa para navegar esse universo.
A narrativa recua às primeiras civilizações e avança até a presença global contemporânea da cerveja, costurando fatos históricos, práticas sociais e pequenas curiosidades que ampliam o horizonte do leitor. A bebida surge como testemunha silenciosa das transformações humanas: acompanha rituais, atravessa revoluções, adapta-se às mudanças culturais. Nesse movimento, o livro se aproxima de uma antropologia líquida, em que cada gole parece carregar vestígios da própria história da civilização.
Sem abandonar o lirismo, a obra também se ancora na técnica. Funciona como guia de estilos, ingredientes e processos produtivos, explicados com clareza e equilíbrio. Morado consegue o raro feito de falar ao iniciante sem simplificar em excesso e, ao mesmo tempo, oferecer densidade suficiente a quem deseja aprofundar o olhar como uma conversa que começa casual e termina intelectualmente estimulante.
O cuidado editorial reforça essa experiência. Ilustrações, fotografias de copos e mapas não são ornamentos, mas extensões do texto, ajudando a organizar visualmente um saber vasto. O alinhamento aos parâmetros do BJCP confere rigor e atualidade, conectando a obra brasileira a referências internacionais consolidadas.
Ao fim, o Larousse da Cerveja se afirma como mais do que um livro de consulta. Ele traduz, organiza e celebra uma visão ampla da cerveja como fenômeno cultural. Brilha como referência, mas também como convite: o de compreender que, por trás de algo tão cotidiano, existe uma história longa, complexa e profundamente humana sempre à espera de quem esteja disposto a ler o mundo através de um copo.
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