sexta-feira, janeiro 09, 2026

O Senso Religioso


Ler O Senso Religioso, publicado como livro em 1997, é entrar num território desconfortável para o leitor moderno: um lugar onde a razão não é reduzida a cálculo e a fé não é tratada como anestesia existencial. Luigi Giussani (1922-2005) escreve contra duas caricaturas muito persistentes: a da religião como irracionalidade e a da razão como algo que só opera no que é mensurável.

A tese central do livro é simples de enunciar e difícil de engolir: o senso religioso é uma dimensão constitutiva da experiência humana, não um acréscimo cultural nem um resíduo de ignorância pré-científica. Giussani não começa por Deus, pela Revelação ou pela Igreja. Ele começa pelo homem concreto, com seus desejos de felicidade, justiça, verdade e beleza — desejos que nenhuma resposta parcial consegue saciar. A aposta é clara: se somos intelectualmente honestos, esses desejos apontam para algo que transcende o finito.

O grande mérito do livro está no método. Giussani não argumenta por dedução abstrata, mas por verificação existencial. Ele convida o leitor a observar a própria experiência com rigor quase científico: o que acontece quando tentamos reduzir nossos anseios últimos a dinheiro, poder, prazer ou reconhecimento? O resultado, para ele, é sempre um déficit de sentido.

Há também uma crítica incisiva ao racionalismo moderno. Para Giussani, a modernidade não ampliou a razão; ela a mutilou, confinando-a ao que pode ser medido ou controlado. O efeito colateral é um homem tecnicamente poderoso, mas existencialmente empobrecido. O livro ganha força justamente por não rejeitar a razão, mas por exigir que ela seja levada até o fim — inclusive quando isso a obriga a reconhecer a abertura ao Mistério.

O Senso Religioso permanece uma obra notavelmente atual. Em uma época marcada por espiritualidades utilitárias e discursos que confundem tolerância com indiferença, Giussani propõe algo radicalmente contraintuitivo: levar o desejo humano a sério até o fim, sem censurá-lo e sem domesticá-lo. O livro não oferece conforto fácil, mas oferece um critério exigente para julgar a própria vida.

Em última análise, a força do livro não está em provar a existência de Deus, mas em tornar difícil a posição de quem afirma que a pergunta por Ele é irrelevante. Giussani não obriga o leitor a crer — obriga apenas a não mentir para si mesmo. E isso, para qualquer época, é uma provocação de alto risco intelectual.

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