quarta-feira, dezembro 31, 2025

O Assunto do Céu


Para finalizar o ano, termino meu 54º livro. Este que me acompanhou desde o 1º dia de 2025.

O Assunto do Céu reúne ensaios e reflexões para serem lidos um por dia em que C.S.Lewis (1898-1963) enfrenta um problema recorrente da modernidade: a redução do real ao que pode ser medido. Para ele, o erro não está na ciência (que ele respeita profundamente), mas na pretensão de que o método científico esgote tudo o que existe. Lewis chama atenção para algo simples e incômodo: conhecer as causas físicas de um fenômeno não equivale a compreender seu significado. Explicar como o cérebro funciona não explica por que buscamos a verdade; descrever reações químicas não esgota o que é amar, sofrer ou esperar.

O grande mérito do livro está no estilo argumentativo. Lewis não grita, não caricatura o adversário e não se apoia em jargões teológicos. Ele raciocina como um professor paciente que conduz o leitor por analogias, paradoxos e exemplos cotidianos. Sua crítica ao materialismo é mais filosófica do que religiosa: se tudo o que pensamos é apenas produto de causas irracionais (choques químicos, impulsos evolutivos), então a própria ideia de verdade se dissolve. O pensamento deixa de ser confiável no exato momento em que tentamos usá-lo para negar qualquer transcendência.

Ao mesmo tempo, Lewis não oferece consolo fácil. O “céu” que ele descreve não é uma projeção sentimental nem uma recompensa simplista. Pelo contrário: ele insiste que o desejo humano pelo infinito é, em si, um sinal de que não fomos feitos apenas para este mundo. Aqui aparece um dos temas mais fortes do livro: a ideia de que nossos anseios mais profundos não são ilusões, mas indícios. Assim como a fome aponta para a existência de comida, o desejo de algo absoluto aponta para uma realidade que não cabe inteiramente na experiência terrena.

Ele não resolve o mistério do sentido da vida, mas recusa a ideia de que o mistério seja um defeito a ser eliminado. Lewis sugere algo mais ousado: talvez o mistério seja o traço mais fiel da realidade.

segunda-feira, dezembro 29, 2025

Dom Quixote


Depois de 41 dias, finalizo meu 53º livro do ano!

Ler Dom Quixote foi uma experiência curiosa: comecei achando que estava diante de uma paródia dos romances de cavalaria e terminei com a sensação de ter acompanhado um tratado melancólico sobre a condição humana, disfarçado de comédia. Miguel de Cervantes (1547-1616) ri, mas é um riso que, aos poucos, aprende a doer.

No Livro I (1605), o romance é uma sátira direta. Dom Quixote é um homem que enlouqueceu de tanto ler, e sua loucura tem uma forma precisa: ele tenta impor à realidade um código moral e narrativo que já não funciona. O mundo reage com escárnio, violência e pragmatismo brutal. Aqui, Cervantes desmonta os romances de cavalaria expondo seu artificialismo: gigantes são moinhos, castelos são vendas, princesas são camponesas. Sancho Pança, ainda rústico e interesseiro, funciona como contrapeso: o senso comum tentando sobreviver à fantasia.

Dom Quixote não é apenas ridículo; ele é eticamente superior ao mundo que o cerca. Sua loucura tem método: honra, justiça, proteção dos fracos. O problema não é o ideal, mas o descompasso histórico.

No Livro II (1615), o jogo se torna mais sofisticado e mais cruel. Os personagens já leram o Livro I. Dom Quixote virou personagem famoso dentro do próprio romance. A loucura deixa de ser espontânea e passa a ser encenada pelos outros. Duques, cortesãos e leitores dentro da narrativa manipulam Dom Quixote para rir dele. O cavaleiro já não cai em enganos por ingenuidade: ele é colocado em armadilhas conscientes.

Sancho Pança, por sua vez, cresce enormemente. Sua passagem pelo governo da “ilha” é um dos momentos mais interessantes do romance: o analfabeto governa com prudência, senso de justiça e equilíbrio moral. Sancho aprende; Dom Quixote, não.

Ao final a recuperação da lucidez de Dom Quixote não é uma vitória da razão, mas uma derrota da imaginação. Ao abandonar seus livros e morrer como Alonso Quijano, ele vence a loucura, mas perde o sentido.

No fim, Cervantes não zomba de Dom Quixote. Ele o lamenta. E, discretamente, nos pergunta se não somos todos um pouco quixotescos: leitores tentando impor sentido a um mundo que insiste em ser sem graça, quando tudo o que queremos é que ele seja épico, ao menos por um instante.